Avanço de partido populista divide extrema direita na Alemanha

Grupos têm diferentes visões sobre a nacionalista AfD, terceira maior força do Parlamento

Guilherme Magalhães
Berlim

Ao se transformar na terceira maior bancada do Parlamento alemão, há sete meses, o partido de direita ultranacionalista AfD (Alternativa para a Alemanha) trouxe para o conhecido plenário de cadeiras azuis a retórica anti-imigração e anti-islã que alavancou a sigla em eleições regionais nos últimos anos.

Para uma parcela de membros da extrema direita, pela primeira vez no pós-guerra suas opiniões estavam representadas no Bundestag.

Outros, porém, consideram que a AfD é um partido de um único tema, imigração, apesar de verem com bons olhos a ascensão de uma sigla mais à direita que a tradicional CDU (União Cristã-Democrata) da chanceler Angela Merkel.

Policiais observam manifestação de grupos de extrema direita liderada pelo NPD na cidade de Erfurt
Policiais observam manifestação de grupos de extrema direita liderada pelo NPD na cidade de Erfurt - Jens Meyer - 1º.mai.2018/Associated Press

É o caso de Sebastian Schmidtke, 33, do NPD (Partido Nacional Democrático da Alemanha), sigla classificada como neonazista e que já foi alvo de duas tentativas de banimento pela Justiça.

“São sempre os mesmos temas, o islã. A AfD não fala nada sobre justiça social, sobre como existem tantas pessoas pobres neste país”, disse ele, que foi deputado distrital em Berlim entre 2014 e 2016.

Enquanto a AfD defende um teto de 200 mil pedidos de asilo por ano —ideia também defendida pela CSU (União Cristã-Social), partido aliado de Merkel no estado da Baviera—, o NPD rejeita a proposta.

“Estrangeiros que vêm aqui para ganhar dinheiro fácil, isso é errado”, disse Schmidtke.

Sobre o rótulo de neonazista, ele disse que o partido “segue um caminho democrático, por meio de eleições”.

No pleito federal de 2017, o NPD, fundado em 1964 e que já chegou a ter representantes em Parlamentos estaduais, perdeu força com a ascensão da AfD e recebeu 0,4% dos votos. Atualmente conta com cerca de 4.500 filiados.

Schmidtke disse acreditar que até a próxima eleição federal, em 2021, “os eleitores da AfD vão perceber que ela não é a solução, apenas luta contra sintomas”.

Visão oposta tem os jovens do Movimento Identitário. “Estou positivamente surpreendido”, disse o estudante de administração Alex Malenki, 25, de Leipzig (leste).

“Sobre imigração, discutiam-se detalhes, mas a questão essencial ninguém debatia. Até então, os 13% que votaram pela AfD não eram representados no Parlamento.”

O Movimento Identitário, de raízes francesas, chegou à Alemanha por grupos na internet em 2012, antes do auge da crise de refugiados. 

Para Robert Timm, 26, estudante de arquitetura e chefe do movimento em Berlim, “o esforço de integração diminuiu. Temos comunidades paralelas, em que essas pessoas podem ter uma vida sem precisar falar uma palavra em alemão no dia a dia”.

O grupo, que se define como a nova direita, tem no seu cerne a discussão da identidade alemã. “A esquerda diz que não temos uma identidade comum como europeus ou alemães, mas quando vem a questão sobre quem é responsável por manter a memória do Holocausto, eles dizem: os alemães. Como você define alemão? Cidadania. Então, o cara que chegou nos anos 1960 da Turquia e hoje tem cidadania alemã é realmente responsável por manter a memória do Holocausto? Claro que não.”

Timm, que costumava votar para o partido A Esquerda, votou na AfD em 2017.

Os identitários, assim como o NPD, foram colocados sob vigilância dos serviços de inteligência do governo alemão pela ligação com indivíduos radicais da extrema-direita.

Protestos do movimento, que hoje tem cerca de 600 membros, também costumam terminar em confrontos com a polícia.

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