Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Antes de relacionar alguém a Hitler é preciso pensar na gravidade da comparação, diz advogado

Para autor da 'lei de Godwin', é possível fazer paralelos entre decisões de Trump e o nazismo

O advogado Mike Godwin
O advogado Mike Godwin - 21.set.2017 - Voice of America
Paula Leite
São Paulo

Desde que a internet é internet, discussões acaloradas online acabam descambando para extremismos e invariavelmente alguém acaba citando o nazismo ou o ditador Adolf Hitler.

Há 28 anos, o advogado Mike Godwin quis chamar a atenção para a preguiça intelectual de muitos dos argumentos na web comparando o que quer que seja a Hitler.

Ele criou uma frase que ficou depois conhecida como “lei de Godwin”: “Conforme uma discussão online se prolonga, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de um”.

A ideia, diz ele à Folha, não era proibir esse tipo de argumento, mas instar as pessoas a considerar a gravidade do que foram o nazismo e o Holocausto e não fazer esse tipo de paralelo levianamente.

Mesmo que fosse uma proibição, não funcionaria: basta ver a quantidade de gente comparando diversos políticos a Hitler em ano eleitoral no Brasil ou no ambiente polarizado dos EUA. Há também a infindável discussão sobre se o nazismo era de esquerda ou direita, que tomou conta da internet brasileira nos últimos meses.

Paralelos entre Trump e Hitler voltaram à tona nas últimas semanas devido à política do governo do republicano de separar crianças imigrantes de seus pais quando estes entram ilegalmente nos EUA.

Cartaz na Cidade do México mostra Donald Trump como se fosse Adolf Hitler durante protesto contra o atual presidente dos EUA
Cartaz na Cidade do México mostra Donald Trump como se fosse Adolf Hitler durante protesto contra o atual presidente dos EUA - Rebecca Blackwell/Associated Press

Enquanto alguns comentaristas diziam ver ecos do nazismo na retórica de Trump ao comparar os imigrantes a “animais” e “cobras” e a colocar crianças em locais que fazem lembrar campos de concentração, defensores do republicano rebatiam com um argumento baseado na “lei de Godwin”, algo na linha de que evocar Hitler é querer ganhar a discussão no tapetão. 

Outros trumpistas defenderam a política de separação das famílias dizendo que o governo apenas cumpria o que estava na lei.

A polêmica levou o próprio Godwin a escrever para o jornal Los Angeles Times, criticando Trump e dizendo que a lei criada por ele não proíbe o paralelo com Hitler.

“A ‘lei de Godwin’ nunca teve como objetivo impedir que alguém enfrente a institucionalização da crueldade ou a indiferença de autoridades que dizem estar apenas cumprindo a lei”, escreveu ele, referindo-se às separações de famílias. “Esses comportamentos [...] podem não significar um novo Reich, mas me perdoe por me preocupar com a possibilidade de que eles sejam uma forma embrionária de um horror que achávamos que havia ficado para trás.”

 

Apesar de ter criado a lei de Godwin, você escreveu recentemente que os paralelos entre nazistas ou Hitler e Trump podem ser apropriados. Por quê? 

A lei de Godwin nunca ofereceu nem foi desenhada para oferecer um padrão que proíba comparações ao nazismo ou a Hitler. Algumas pessoas interpretam a lei como se ela proibisse totalmente essas comparações. Outra má interpretação é a de que a conversa acabou quando alguém menciona essa comparação. Mas na verdade eu criei a lei para motivar as pessoas a, se estiverem de fato comparando alguém a Hitler ou a nazistas, terem consciência da gravidade dessas comparações.

O fato de ela existir há 25 anos mostra que a polarização e a radicalização na discussão online não é algo novo. Você concorda com os que acreditam que a internet tornou o mundo mais polarizado e dividido e as discussões mais rasas? 

Eu acho que de certa forma nós ainda estamos nos primeiros estágios de adaptação à internet. Como seres humanos individuais, pensamos em 25 anos como um longo tempo, mas, quando se fala da introdução de novas tecnologias, 25 anos quase nem são suficientes para a cultura começar a aceitar as mudanças que a tecnologia traz. 

O telefone foi inventado em 1876, e, em 1901, apesar de a maioria das pessoas em países desenvolvidos saber o que ele era, elas não tinham crescido com acesso à rede telefônica. À medida que o telefone se tornava mais comum, muita gente experimentou com jeitos de usá-lo para fins delinquentes ou destrutivos —dando trotes ou usando o telefone para alertar as autoridades sobre incêndios ou crimes que não haviam ocorrido. 

Demora uma geração ou duas para que uma cultura se recivilize em torno de uma nova tecnologia de comunicação.

O que você acha dos esforços de alguns países de regular o Facebook e outras mídias sociais em relação a fake news, anúncios políticos etc.? E qual a sua opinião sobre o apoio do Facebook a iniciativas de checagem de fatos? 

O Facebook virou alvo porque é a maior plataforma de mídia social e a de maior sucesso. Alguns governos e especialistas argumentam que o sucesso financeiro do Facebook significa que ele tem um dever de controlar o conteúdo na plataforma. Mas, de alguma forma, isso equivale a dizer que as companhias telefônicas têm que censurar ligações. Mais apropriadamente, se uma plataforma está sendo mal usada, devemos focar em reformas legais para pôr fim aos abusadores e a quem faz mau uso dela, e não em punir a plataforma em si.

Eu acho que o Facebook tem o direito de explorar meios de prevenir que a plataforma seja usada como um canal de fake news. Não tenho certeza de que os programas que eles estão explorando especificamente são os melhores nem que necessariamente vão resolver os problemas. Mas acho que a ideia de engajar os usuários do Facebook em identificar fake news merece atenção. 

As eleições nos EUA tiveram seu resultado influenciado por propaganda ou microtargeting nas mídias sociais? Essa interferência é algo com que outros países deveriam se preocupar? 

Isso se resume a duas grandes questões. A primeira é se campanhas políticas (em particular nos EUA e no Reino Unido, mas também em outros locais como na UE) tentaram usar publicidade em mídias sociais e microtargeting para influenciar eleições. Eu acho que a resposta para essa pergunta é sim, com certeza.

A segunda pergunta é se o uso das mídias sociais pelas campanhas mudou o resultado eleitoral. Não tenho certeza disso. No Reino Unido e nos EUA, as campanhas nas mídias sociais só ecoaram aquilo que era dito pelas campanhas na mídia tradicional, especialmente na TV e em jornais. 

As eleições foram influenciadas por muitas tensões, incluindo, mas não limitado a, ecos da crise financeira de 2008 e o movimento crescente de populações refugiadas. Esses fatores criaram estresses para governos democráticos que são maiores que os estresses criados pelo Twitter, na minha opinião. 

Por outro lado, sabemos agora que os políticos estão dispostos a deixar de lado a mídia tradicional e têm a habilidade de usar mídias sociais para se comunicar, e isso é um fenômeno bem recente ao qual não nos adaptamos ainda.

Você acredita que a natureza aberta e descentralizada da internet está em perigo em termos mais gerais? Os celulares e as mídias sociais mudaram como as pessoas interagem online comparado a, por exemplo, os blogs e os fóruns de antigamente? 

Os celulares e as mensagens de celular começaram a mudar as normas de comunicação muito antes de Facebook e Twitter (e redes sociais análogas em outros países, como a China) se tornarem plataformas dominantes. Nos EUA, o ano de 2007 foi o ano em que o número de SMS ultrapassou o número de ligações de voz, e essa tendência —de mensagens diretas serem dominantes— é algo que não acho que vá mudar durante a minha vida. 

Como sempre, quando há uma transição de um modo de comunicação para outro, algo é perdido e algo se ganha. 

Se vemos a polícia ou soldados agindo violentamente contra cidadãos, podemos rapidamente gravar um vídeo do evento e compartilhá-lo com o mundo. Isso é revolucionário, e eu acho que o efeito social disso vai continuar a aumentar ao longo da minha vida.

RAIO-X

Mike Godwin

Advogado especializado em internet, liberdade de expressão, copyright e tecnologia; hoje é pesquisador do think  tank americano R Street Institute. Foi o primeiro funcionário e principal advogado da Electronic Frontier Foundation, pioneira em promover direitos digitais e liberdade de expressão na internet. Formado pela Universidade do Texas em Austin, também foi pesquisador na Universidade Yale

Conheça algumas das ‘leis’ da internet


Lei de Godwin Conforme uma discussão online se prolonga, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de um

Lei de Poe Sem um emoji piscando ou outro indicador de humor, é impossível criar uma paródia de 
algo fundamentalista que alguém não vá levar a sério

Lei de Skitt Qualquer post corrigindo um outro post terá ele mesmo pelo menos um erro

Lei do ponto de exclamação  Quanto mais pontos de exclamação houver em um email ou post, maior a probabilidade de ele ser uma completa mentira

Lei do 1%  Só 1% dos usuários de um site criam conteúdo original; os outros 99% só navegam

Lei de Kranzberg A tecnologia não é boa nem ruim; nem é neutra

Regra 34  Se algo existe, existe um pornô dessa coisa

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