Nenhum 'brexit' satisfará britânicos, diz autor de livro sobre separação

Para Anand Menon, falta consenso político para qualquer proposta, e impacto será enorme

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Macron aparece à direita com camisa social azul clara e gravata preta, enquanto May está à esquerda com blazer preto e camisa estampada verde, branca e marrom.  Os dois estão sentados à mesa com garrafas d'água uma em frente ao outro. Ao fundo, as bandeiras do Reino Unido, da União Europeia e da França aparecem em um mastro.
A primeira-ministra britânica, Theresa May, conversa com o presidente francês, Emmanuel Macron, no sul da França - Sebastien Nogier - 3.ago.18/AFP
Londres

Dois anos após o plebiscito que decidiu pela saída britânica da União Europeia, o Reino Unido parece ainda mais fragmentado. Incapaz de chegar a um acordo sobre o formato do "brexit", o país se afunda em um processo confuso e incerto para o divórcio.

"Não há chance de consenso", diz à Folha Anand Menon, diretor do centro de pesquisa UK in a Changing Europe, um dos principais a estudar o impacto do "brexit". Segundo ele, qualquer resultado alcançado em março de 2019, prazo para a saída, deixará muitos britânicos insatisfeitos.

Professor de política europeia no King's College London, Menon escreveu "Brexit and British Politics", de 2017.

 

A primeira-ministra Theresa May está sob forte pressão mesmo dentro do seu governo por causa do "brexit". Isso dará fim a seu governo?

Não há chance de consenso sobre o "brexit". A questão é saber se ela conseguirá votos para aprovar o acordo. Embora os defensores do "brexit duro" a pressionem, porém, também é improvável que eles obtenham apoio suficiente.

Quando renunciou, em julho, o ex-chanceler Boris Johnson disse que "o sonho do 'brexit' morreu". Mas as negociações continuam.

A visão que ele tinha pode ter morrido, mas há várias versões de "brexit", e esse é um dos problemas. May está trabalhando para cumprir o prazo, e, por mais que muita coisa ainda possa ocorrer, a saída continua a ser o resultado mais provável.

Qual o "brexit" provável?

Não sei. Sem maioria clara no Parlamento, é muito difícil prever. Minha impressão é que May fará mais concessões à UE do fez que no plano já apresentado. O problema é saber se o Parlamento vai aceitá-las. Não parece haver maioria para aprovar nenhuma das saídas: a saída sem acordo; o "brexit suave"; o "brexit duro".

Esta incerteza parece contaminar a sociedade.

Há vários lados nas negociações, então é mais complicado do que as pessoas esperavam. E nenhum modelo prevalece. As decisões políticas estão sendo contestadas dentro do governo, do parlamento e até dentro dos partidos. E, claro, tudo tem que ser aceito pela UE.

Desde o plebiscito, o 'brexit' tem sido avaliado como reflexo da polarização política em curso em vários países. Pela sua descrição, contudo, a fragmentação é múltipla.

Sim. Qualquer que seja o resultado, a maioria das pessoas ficará insatisfeita. Assim como o Parlamento, a sociedade está fragmentada. Quando falamos das divisões da sociedade, porém, eu diria que a questão vai além do "brexit": a divisão esquerda-direita foi atravessada por um cisma entre os socialmente mais liberais e os menos, pessoas abertas ou fechadas ao mundo. Foi isso que esteve por trás do voto no "brexit", ainda que o processo aqui difira de outros países.

Qual é a diferença?

A forma do processo político. A França é tão dividida quanto o Reino Unido, mas porque o sistema político deles não favorece os extremos [há segundo turno eleitoral], o país acaba parecendo equilibrado e liberal. Aqui tivemos um referendo em que todo voto pesa.

O ex-premiê Tony Blair [1997-2007] tem defendido um novo plebiscito. É viável?

Qualquer coisa é possível com o "brexit". Não acho que outro plebiscito seja a saída mais provável, mas não é impossível. Só não sei como isso diminuiria as divisões políticas —elas poderiam até crescer.

Temos debatido o curto prazo. Como será a política britânica em 2028?

Quase tudo depende do que ocorrer no próximo ano. A natureza do "brexit", as reações a ele, e o processo de saída ditarão o futuro. Além disso, a política está mudando muito aqui. É muita coisa ao mesmo tempo.

O plebiscito vai se consolidar como um momento-chave da história?

Certamente. O plebiscito em si já bagunçou a política, embaralhou linhas partidárias e gerou muita amargura. E o divórcio mudará nossa economia profundamente.


5 cenários para o 'brexit'

1. 'Brexit' suave

Acordo brando tiraria o Reino Unido da União Europeia, mas manteria relações comerciais próximas com o bloco, permitindo que migrantes europeus trabalhem no Reino Unido e evitando recriar uma fronteira física na Irlanda do Norte

2. 'Brexit' duro

Proposta defende a saída total da UE, passando a renegociar acordos comerciais e limitando o fluxo de imigrantes entre o Reino Unido e a Europa

3. Sair sem um acordo

Se não houver consenso quanto às relações após o "brexit", a ruptura em março de 2019 acontecerá sem um período de transição

4. Ficar na UE

Cancelar a ativação do Artigo 50 é possível, mas criaria sérios problemas políticos para Londres e precisaria do apoio de eleitores em uma eleição geral para formar um governo novo

5. Novo plebiscito

Com argumento de que a população não tinha a dimensão real dos problemas que o "brexit" geraria, há quem defenda nova consulta sobre a saída ou sobre suas modalidades

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.