Cristina Kirchner e seus filhos irão a julgamento por lavagem de dinheiro

Ex-presidente argentina é acusada de usar falsos aluguéis para encobrir propina de empresários

Buenos Aires | AFP

A justiça argentina decretou o julgamento por lavagem de dinheiro da ex-presidente Cristina Kirchner e de seus dois filhos, entre outros acusados, segundo comunicado divulgado nesta quarta-feira (3).

O julgamento, que será oral e público, foi determinado pelo juiz Julián Ercolini e se refere ao chamado caso "Los Sauces", no qual a ex-presidente e seus filhos, o deputado Máximo Kirchner e sua irmã Florencia, são acusados. 

Segundo a investigação, a locação de propriedades da empresa Los Sauces S/A, da família Kirchner, era uma forma de encobrir a propina pedida pela mandatária nas licitações vencidas por empresários como Cristóbal López e Lázaro Báez, ambos presos.

Báez e López foram responsáveis por 86% do faturamento da empresa imobiliária, segundo o jornal Clarín.

Cristina Kirchner deixa o prédio da Justiça Federal em Buenos Aires no dia 18 de setembro
Cristina Kirchner deixa o prédio da Justiça Federal em Buenos Aires no dia 18 de setembro - Marcos Brindicci/Reuters

De acordo com o processo, Cristina liderou, entre janeiro de 2009 e março de 2016, uma associação ilegal que executou "um esquema para reciclar fundos de origem ilícita através da Los Sauces S.A.". Máximo Kirchner está sendo processado como suposto organizador do esquema e Florencia, como integrante.

A acusação alega que, com esse esquema, Cristina "conseguiu lavar uma parte do dinheiro de procedência ilegal que foi canalizado por empresas do grupo Báez Indalo (...), através da atividade imobiliária e hoteleira".

O esquema teria funcionado durante mais de dez anos, até dezembro de 2016, afirma o juiz Ercolini, que é o responsável por outros dois processos contra a ex-presidente.

No total, 18 pessoas serão julgadas juntamente com os Kirchner no caso de Los Sauces, incluindo López e Báez, ambos já presos, os filhos de Báez e Romina Mercado, sobrinha de Cristina e filha da governadora do estado de Santa Cruz, Alicia Kirchner.

Embora o julgamento ainda não tenha data, deverá começar no próximo ano.

O hotel Los Sauces, em El Calafate, na Argentina, de propriedade da ex-presidente Cristina Kirchner
O hotel Los Sauces, em El Calafate, na Argentina, de propriedade da ex-presidente Cristina Kirchner - Marcos Brindicci-30.jun.2016/Reuters

Atual senadora, Cristina é a política de oposição com maior apoio, de acordo com as pesquisas para as eleições presidenciais de 2019, em que o presidente Mauricio Macri buscará um segundo mandato na Casa Rosada.

A ex-presidente afirma que é inocente e que as acusações contra ela pretendem bani-la da atividade política. Ela acumula outros processos e em ao menos quatro deles, contando o de Los Sauces, irá a julgamento oral.

No último processo contra ela, o juiz Claudio Bonadio acusa a senadora de uma associação ilícita que cobrava subornos a empresários que, com isso, obtinham benefícios em forma de contratos com o Estado.

O caso faz parte da investigação dos “cadernos da corrupção”, detonada no começo de agosto quando a Justiça recebeu uma cópia de vários cadernos de anotações pertencentes ao motorista Oscar Centeno, funcionário do Ministério do Planejamento durante os governos kirchneristas (2003-2015). Neles, Centeno teria anotado, durante anos, as quantias contidas em bolsas e malas, além dos endereços onde eram entregues,

PROCESSOS CONTRA CRISTINA KIRCHNER

Los Sauces

  • Cristina e seus dois filhos, Máximo e Florencia, são acusados neste caso. Há suspeitas de que empreiteiras que faziam obras públicas tenham alugado apartamentos da empresa imobiliária Los Sauces, dos Kirchner, como forma de pagamento de propina.
     
  • Status: A investigação foi finalizada e o caso vai a julgamento oral, ainda sem data definida.

Cadernos da corrupção

  • Na acusação mais recente, Cristina é suspeita de chefiar uma associação ilícita que cobrava subornos de empresários. A investigação foi deflagrada após a Justiça receber, em agosto deste ano, cópias dos cadernos de um motorista dos governos Kirchner com anotações sobre quantias de dinheiro de propina e endereços onde eram entregues.
     
  • Status: O juiz pediu que a ex-presidente perca o foro privilegiado que possui por ser senadora. Caso o Congresso aprove o pedido, ela poderá ser presa preventivamente.

Dólares futuros

  • A ex-presidente é acusada de ter ordenado a venda de dólares no mercado futuro por valores inferiores ao de mercado. As operações financeiras, realizadas pelo Banco Central no fim de 2015, causaram um prejuízo de bilhões de pesos ao Estado.
     
  • Status: O caso vai a julgamento oral, provavelmente no início de 2019. Se ela for condenada, a pena pode ser de um mês a seis anos de prisão.

Memorando com o Irã

  • Cristina é acusada de ter assinado um acordo para acobertar iranianos responsáveis por um atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), que deixou 85 mortos em 1994, a fim de melhorar a relação comercial com o Irã. A denúncia foi feita em 2015 pelo promotor Alberto Nisman, que foi encontrado morto dias depois.
     
  • Status: Houve um pedido de prisão preventiva contra Cristina, mas ela segue em liberdade por ter imunidade parlamentar. O caso vai a julgamento oral.

Corrupção em obras públicas

  • A ex-presidente é suspeita de associação ilícita e fraude por ter favorecido e direcionado obras públicas viárias para o empresário e amigo Lázaro Báez —que recebeu 52 contratos durante os governos dos Kirchner.
     
  • Status: O juiz marcou o julgamento oral para 26 de fevereiro de 2019.

Hotesur

  • Junto com seus filhos, Cristina é investigada por suposta lavagem de dinheiro em seus hotéis na Patagônia. Empresários que venceram licitações durante seu governo, como Lázaro Báez e Cristóbal López, são suspeitos de terem pago milhares de pesos em diárias sem que os quartos fossem ocupados.
     
  • Status: O caso está sendo analisado pela Câmara Federal de Buenos Aires, tribunal de segunda instância.

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