Descrição de chapéu Governo Trump

Democratas conquistam maioria na Câmara e deixam Trump na berlinda

Partido do presidente aumenta maioria no Senado no que republicano chama de "triunfo"

Cartazes de campanha se enfileiram em área gramada
Cartazes de campanha são vistos fora de uma seção eleitoral durante votação antecipada em Dallas, no Texas - Mike Segar - 2.nov.18/Reuters
Júlia Zaremba Danielle Brant
Washington e Nova York

O resultado das eleições legislativas desta terça (6) pode ser reivindicado como vitória por democratas e republicanos. 

Nas eleições legislativas de meio mandato presidencial, os democratas retomaram o controle da Câmara ao conquistarem novos 28 assentos —mais do que os 23 necessários para comandar a Casa. Ficaram, porém, longe da onda azul que desejavam.

O revés republicano era esperado, pois, nas chamadas midterms, o partido da situação costuma perder a maioria de uma das Casas.

Ainda assim, havia a expectativa, do lado democrata, de que a aura de referendo criada em torno da administração do presidente Donald Trump inflamasse os eleitores a ponto de provocar um comparecimento suficiente para mudar o comando das duas Casas.

Dados preliminares indicam que 114 milhões votaram até esta terça, ante 83 milhões nas midterms de 2014.

Mas a mesma temática que mobilizou os eleitores democratas parece ter inflamado os rincões conservadores republicanos, que buscaram respaldar a presidência de Trump e suas posições sobre imigração ilegal e economia.

O reflexo se deu no Senado, onde o Partido Republicano ampliou a maioria que já tinha e conquistou alguns assentos detidos por democratas —a expectativa é de que abocanhe 53 cadeiras no total.

Algumas disputas consideradas cruciais para a virada democrata, como Senado no Texas e governo e Senado na Flórida, acabaram frustradas por uma margem estreita. 

Mesmo assim, a confirmação da vitória democrata na Casa será suficiente para complicar a vida do presidente.

Os deputados poderão pedir acesso a documentos fiscais e financeiros para verificar se houve, por exemplo, registro de pagamentos feitos por governos estrangeiros a negócios em que o republicano tem participação —o que é vedado por lei.

Poderão, principalmente, bloquear ou frear parte da agenda republicana que fluiu sem contratempos nos últimos dois anos, quando o partido controlou as duas Casas e chancelou praticamente todas as medidas de Trump.

Agora, os tempos podem ficar mais turbulentos para os republicanos, considerando que as ações do presidente ficarão sob escrutínio da oposição, diz Richard Arenberg, professor de ciências políticas da Universidade Brown. "Agora haverá muitas questões para as quais os democratas vão olhar", diz.

Os congressistas terão possibilidade de convocar pessoas para depor e iniciar procedimento de impeachment

Por ora, o presidente Trump parece estar fazendo vista grossa às implicações negativas da retomada da Câmara pelos adversários, qualificando o resultado de "tremendo sucesso"

Em entrevista nesta quarta (7), o presidente afirmou que espera trabalhar com a oposição em questões como saúde, meio ambiente e infraestrutura. Ele teceu elogios à líder democrata, Nancy Pelosi, cotada para ser a nova presidente da Câmara. "Ela trabalha muito duro", afirmou o republicano. "Reconheço o que ela fez e alcançou."

Em seu discurso, porém, Trump ameaçou retaliar os adversários caso decidam aprofundar ou iniciar investigações contra ele. Ele chamou de "gesto de guerra" uma eventual iniciativa democrata de fazê-lo se explicar. 

Stella Rouse, diretora do centro para política americana e cidadania da Universidade de Maryland, diz que a leitura de Trump de que a eleição foi um sucesso é válida, considerando que o Partido Republicano largará com vantagem nas eleições presidenciais de 2020.

A legenda se beneficia ainda da pouca clareza sobre o nome que potencialmente disputará a presidência com Trump em 2020 —se o republicano decidir tentar a reeleição, algo que não está certo.

"Mesmo Trump sendo impopular na mídia, ele está no poder, e o partido no poder sempre tem vantagem. Os democratas terão trabalho."

Arenberg, por sua vez, diz não acreditar que Trump deva se fortalecer nos próximos anos, já que expandir a sua base de eleitores, especialmente entre jovens, negros e mulheres, será difícil. 

A vitória na Câmara, por mais força que dê ao partido do ex-presidente Barack Obama, também deixa os democratas mais expostos. O presidente deve passar os próximos dois anos amplificando os ataques aos oponentes.

Na retórica de Trump, o partido adversário facilita a entrada de imigrantes ilegais, é responsável pela situação fiscal preocupante e fechou acordos comerciais ruins que prejudicaram o país no passado.

"Se o presidente quiser se reeleger, ele tem até novembro de 2020 para bater nos democratas. Vai culpar os democratas por tudo que acontecer no país e por não conseguir aprovar alguma lei", afirma David Birdsell, reitor da Marxe School of Public and International Affairs do Baruch College. 

Birdsell lembra que o presidente já enfrentava dificuldade de aprovar medidas mesmo tendo maioria nas duas Casas —foi assim com uma proposta em fevereiro que endurecia o arcabouço de imigração e que foi vetada por 14 senadores do partido.

Mesmo sob ataques e com a maioria na Câmara, os democratas terão que se movimentar com cautela nos dois anos que faltam até 2020.

O objetivo é não provocar reações inflamadas da base de Trump e não afugentar eventuais republicanos moderados que possam estar desiludidos com os rumos do partido.

"Eles têm o poder de iniciar processos de impeachment, mas pode não ser inteligente usar todo esse poder, porque o próprio presidente ainda tem muito poder", diz Stella Rouse, da Universidade de Maryland. "Politicamente, há muita divisão no país a respeito de Trump dever sofrer um impeachment ou não."

O partido também pode enfraquecer caso não trabalhe com a Casa Branca, o que renderia a pecha de agir para obstruir a agenda do republicano, avalia Arenberg. 

Caso a investigação do procurador especial Robert Mueller sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 produza alguma prova que corrobore a tese de que o presidente violou a Constituição, o terreno ficaria menos movediço, ressalta.

Enquanto isso, a retórica de ódio e de confrontação deve continuar aprofundando as divisões, avalia Ruth Mandel, diretora do instituto Eagleton da Universidade Rutgers.

"Vai ser exaustivo. Tem muito conflito, divisão. Não acho que a eleição vá mudar as coisas, as pessoas estão cansadas, mas não veem uma maneira de se livrar disso", diz.

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