Papa nomeia czar antipedofilia para investigar novas denúncias de abuso

Charles Scicluna liderou investigação que culminou na prisão de sacerdote

Reinaldo José Lopes
São Carlos

Acuado por uma nova onda de denúncias sobre casos de abuso sexual na Igreja Católica, o papa Francisco decidiu nomear um dos mais respeitados juristas a enfrentar o problema para um posto-chave do Vaticano. 

Nascido no Canadá e atual arcebispo de Malta, Charles Jude Scicluna, 59, é o novo secretário-adjunto da CDF (Congregação Para a Doutrina da Fé), órgão responsável por garantir a pureza doutrinária do catolicismo –e também por punir sacerdotes pedófilos ou que cometem outros delitos de natureza sexual.

Como secretário-adjunto, o arcebispo se torna o número três da congregação, embora mantenha o comando da arquidiocese maltesa.

O arcebispo Charles Scicluna participa de entrevista a jornalistas no Vaticano - Gregorio Borgia-08.out.2018/AP

Scicluna tem doutorado em direito canônico (a legislação interna da Igreja) e foi colaborador próximo do atual papa emérito Bento 16 antes que ele se tornasse pontífice e durante seu papado.

Sua primeira investigação de relevo sobre casos de abuso sexual cometidos por padres levou, em 2006, à condenação do sacerdote mexicano Marcial Maciel Degollado, fundador do grupo Legionários de Cristo, célebre por obter grandes doações de membros da elite do México.

No começo de 2018, o arcebispo maltês foi convocado pelo papa Francisco, junto com o prelado espanhol Jordi Bertomeu, funcionário da CDF, para reavaliar as acusações de que bispos do Chile teriam acobertado abusos cometidos por padres no país sul-americano.

Um dos bispos acusados, Juan Barros, tinha sido designado para a diocese de Osorno pelo próprio Francisco, e o papa afirmara acreditar na inocência dele. Confrontado por vítimas, o pontífice pediu que o caso fosse analisado de novo.

Em parte por causa do relatório produzido por Scicluna e Bertomeu, Francisco anunciou ter subestimado a extensão do problema no Chile. Depois disso, os 34 bispos do país renunciaram – por enquanto, Francisco aceitou sete dessas renúncias, incluindo a de Barros, mas o número ainda pode aumentar.

Uma das vítimas chilenas dos abusos, Juan Carlos Cruz, saudou a indicação do maltês para o novo cargo nas redes sociais. “Scicluna provou que se importa com os sobreviventes dos abusos e com a tragédia da ocultação desses casos”, declarou ele.

As investigações no Chile e em outros lugares, no entanto, não foram suficientes para eximir o papa de críticas –as quais, aliás, tornaram-se mais comuns e severas a partir do fim de agosto de 2018. Foi quando Carlo Maria Viganò, ex-núncio (enviado diplomático do Vaticano) nos EUA, divulgou uma carta na qual acusava Francisco de acobertar o cardeal americano Theodore McCarrick, acusado de conduta imprópria com seminaristas (tocando-os e convidando-os a passar a noite em sua residência, por exemplo).

O papa se recusou a comentar as afirmações de Viganò. Em fevereiro de 2019, representantes de conferências episcopais do mundo todo (similares à CNBB brasileira) devem se reunir no Vaticano, a pedido de Francisco, para discutir medidas unificadas contra crimes sexuais na Igreja.

A conferência nacional de bispos dos EUA, que se preparava para votar possíveis medidas para enfrentar o problema nesta semana (como a divulgação de uma lista dos sacerdotes que estão sendo investigados), acabou tendo de recuar a pedido da Santa Sé, que justificou a medida citando o encontro de fevereiro como fórum adequado para a questão. 

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.