Descrição de chapéu The Washington Post

Criada por homens, Guerra no Iêmen é sofrida por mulheres e crianças

Conflito já deixou pelo menos 10 mil mortos e 14 milhões em risco de morrer de fome

Criança faz exame de vista em Sanaa, capital do Iêmen - Mohammed Huwais/AFP
Neha Wadekar
The Washington Post

A guerra civil travada há quatro anos no Iêmen criou o pior desastre humanitário do mundo. O conflito que opõe uma coalizão liderada pela Arábia Saudita que apoia o governo iemenita a rebeldes alinhados com o Irã já deixou pelo menos 10 mil mortos e colocou 14 milhões de pessoas em risco iminente de morrer de inanição.

Esta semana o Senado americano vem estudando uma proposta para encerrar o apoio americano à campanha militar liderada pelos sauditas. A medida começou a receber mais apoio desde que o jornalista Jamal Khashoggi foi assassinado por sauditas dentro do consulado saudita em Istambul.

Mulheres e crianças frequentemente são esquecidas na narrativa da guerra no Iêmen. Mas são elas as que correm o maior risco de ser expulsas de onde vivem, reduzidas à miséria e sofrer abusos.

A cada dia que passa, mais mulheres se tornam viúvas devido à guerra e perdem o acesso à educação ou qualificações necessárias para sustentar suas famílias. A incidência de estupros e violência doméstica vem subindo. Meninas são arrancadas da escola para serem dadas em casamento em troca do dinheiro de seu dote. Crianças sucumbem a doenças que já foram erradicadas há muito tempo em outras partes do mundo. Grávidas e recém-nascidos são dizimados pela fome.

Estas são as suas histórias.

 

Rakan Nabeed tem quatro anos e já não reage ao toque de sua mãe. Não sorri mais quando ouve a voz dela. Ele, que antes pesava 18 kg, hoje pesa apenas quatro.

Rakan e sua mãe, Aida Hussein Ahmed, fazem parte das centenas de mulheres e crianças deslocadas que chegam diariamente ao hospital Al Sadaqa, em Aden, no sul do país. Eles abandonaram sua casa em Hodeida, a centenas de quilômetros de distância, uma cidade portuária estratégica que vem sendo palco dos combates mais violentos entre os rebeldes e a coalizão liderada pelos sauditas.

Mais de dois terços dos alimentos consumidos no Iêmen sempre chegaram ao país por Hodeida, e 22 milhões de iemenitas dependem do porto para sua sobrevivência. Mas os combates paralisaram os esforços humanitários. O resultado, segundo as Nações Unidas, é que há estimados 14 milhões de iemenitas em risco iminente de morrer de inanição.

Hoje, pessoas de Hodeida e da região vizinha respondem por quase metade das 400 mil crianças iemenitas que, como Rakan, sofrem de desnutrição aguda grave.

“Comemos o que houver”, diz Aida. “Enchemos metade da barriga.”

Vendedores de legumes em rua de Hodeidah, no Iêmen - Abduljabbar Zeyad/Reuters

 

Deveria ter sido um momento de alegria, mas o nascimento do primeiro neto de Sada Mohammed Saeed foi marcado pela tragédia. O filho de Sada, pai do bebê, morreu pouco antes do nascimento, atingido por um morteiro que caiu sobre a casa deles em Hodeida.

Enquanto isso, o marido de Sada sofreu um derrame cerebral que o deixou paralisado e que Sada atribui ao sofrimento provocado pela guerra.

Sem homens para cuidar delas, as duas mulheres –Sada e sua nora Fakhira, grávida de oito meses—fugiram para Aden e se abrigaram em uma escola abandonada, com outras pessoas deslocadas.

Na sociedade patriarcal tradicional iemenita, os homens trabalham fora de casa e as mulheres cuidam da casa e dos filhos. Devido à guerra, porém, o número de famílias chefiadas por mulheres cresceu tremendamente. Muitas mulheres iemenitas estão tendo que sustentar suas famílias, mas não possuem qualificações ou ensino necessários para ganhar dinheiro.

Fakhira sofreu complicações no parto e precisa urgentemente de medicamentos, mas a família não tem dinheiro para comprá-los. Os preços dos remédios vêm subindo vertiginosamente, enquanto a inflação cresce e o valor da moeda iemenita despenca. Sada diz que elas dependem da generosidade de outros.

Fakhira e o bebê estão lutando para sobreviver. “Este é o nenê de meu filho morto”, diz Sada, apontando para seu neto recém-nascido.

 

Gihan al-Hanani, 12 anos, diz que não consegue dormir à noite devido à dor nos braços provocada por carregar água. Todos os dias ela anda um quilômetro e meio por ruas lotadas e sujas, cheias de refugiados desesperados e rapazes ociosos armados com fuzis, para chegar a um tanque de água e encher vários latões.

“Em Hodeida, eu ia à escola”, diz a menina. “Eu queria ter ficado lá, mas havia a guerra.”

Gihan faz parte dos 2 milhões de crianças iemenitas que perderam o acesso ao ensino. Faltando água, abrigo e segurança para tantas famílias iemenitas, seria difícil elas priorizarem a educação. Gihan integra uma geração perdida de crianças iemenitas –sem educação, sem qualificações e traumatizadas– que estarão despreparadas para reconstruir o país quando o conflito chegar ao fim.

Neste país conservador, as meninas muitas vezes são dadas em casamento muito jovens. Mas com a guerra, que destruiu a economia, elas estão sendo tiradas da escola ainda mais jovens que antes, para que suas famílias possam receber seus dotes e com isso colocar comida sobre a mesa. A Unicef estima que 72% das meninas iemenitas como Gihan estão sendo entregues em casamento antes dos 18 anos.

Em tempos de guerra, as meninas são mais vulneráveis a sofrer abusos. Segundo as Nações Unidas, os incidentes de violência baseada em gênero, incluindo estupros, agressões sexuais, violência doméstica e casamentos forçados, subiram 63% desde que a guerra começou.

 

Miriam Abdullah, 26, e sua família fugiram dos combates em Hodeida quando os bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos sauditas se intensificaram. Para chegar a Aden, ela e 24 de seus familiares –sendo todos menos um mulheres e crianças—percorreram estradas sinuosas nas montanhas, correndo o risco de enfrentar homens armados. Há três meses Miriam vive no pequeno pátio de um escritório de uma sala só montado em Aden para prestar assistência a pessoas deslocadas no país.

Miriam diz que a dor e o sentimento de perda sofridos pelas crianças iemenitas ficam evidentes quando ela olha para seus próprios filhos.

“Basta ouvirem a palavra ‘avião’ para que se apavorem”, ela conta. “Eles gritam ‘Mamãe, a bomba vai cair em cima de nós!’.”

Um de seus filhos, um menino de 9 anos que antes era cheio de vida, hoje fica sentado sem se mexer, arrancando casquinhas de suas feridas e olhando o sangue escorrer por suas pernas. Ele só fala sobre a vontade de voltar para casa e rever seus amigos. À noite, ele e seus irmãos acordam várias vezes devido a pesadelos.

Organizações humanitárias dizem que desde o início da guerra cinco crianças vêm sendo mortas por dia, em média. Milhões de crianças iemenitas estão traumatizadas. Com o colapso do sistema de saúde nacional, não há mais assistência psicossocial ou de saúde mental disponível.

A ONU diz que muitas dessas crianças vão carregar traumas emocionais pesados até a idade adulta, com consequências de longo alcance.

Menina perto de casa destruída por ataque aéreo em Sanaa - Mohamed al-Sayaghi - 13.dez.2018/Reuters

 

Enquanto um médico limpa o tubo de traqueostomia que sai do pescoço de Noora Muhammed Musa, a menina de 4 anos se contorce em seu leito hospitalar. A expressão de sofrimento de seu rosto, as lágrimas que escorrem por seu rosto, o tremor de seus lábios, tudo revela que ela está gritando de dor. Mas seus gritos são silenciosos.

Conhecida como “o anjo estrangulador de crianças” por bloquear as vias aéreas e provocar a morte por sufocamento, a difteria já matou três dos irmãos de Noora, diz a avó da menina, Fatima Nasser Ahmed al-Gorari.

A difteria, uma doença contagiosa que já havia sido erradicada no Iêmen havia décadas, hoje está se alastrando rapidamente devido ao conflito.

O pediatra Alnoor Muhammed Abdularishi, do hospital Al Sadaqa, diz que faltam vacinas para prevenir a doença. Ele explica que grande parte dos centros de saúde do país fecharam as portas devido à guerra. Os combates dispersam a população de um lugar a outro, promovendo o alastramento rápido da doença.

Segundo a Unicef, há 1,8 milhão de crianças desnutridas no país, e essas crianças estão especialmente vulneráveis a doenças como difteria e cólera. Ambas as enfermidades podem ser prevenidas facilmente com vacinação e acesso a água limpa.

“Nenhum pai ou mãe deveria ser obrigado a sepultar seu filho”, diz Fatima.

Tradução de Clara Allain 

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