Descrição de chapéu Governo Trump

Retirada americana da Síria coroa fracasso dos EUA e é vitória de Putin

Como Obama, Trump reduz influência no Oriente Médio; cauteloso, russo concorda com ação

O presidente russo Vladimir Putin, durante sua coletiva de imprensa anual em Moscou - Alexander Zemlianichenko - 20.dez.2018/Associated Press
Igor Gielow
São Paulo

A retirada dos 2.000 soldados americanos na Síria, anunciada na quarta (19) pelo presidente Donald Trump, coroa uma série de fracassos de Washington ao lidar com a guerra civil que arrasa o país árabe desde 2011.

A medida, se concretizada, é também uma vitória estratégica importante da Rússia de Vladimir Putin, que interveio militarmente em 2015 no conflito em favor da ditadura do aliado Bashar al-Assad.

Em sua entrevista coletiva anual nesta quinta (20), Putin foi cauteloso e citou o vaivém militar americano no Afeganistão. “Se for verdade, é o correto [retirar forças]”, disse, não sem chamar a presença de tropas ilegítima.

Trump emula seu antecessor, o democrata Barack Obama, criticado pelos republicanos quando deixou o Iraque. Mais importante, cristaliza a derrota política para os russos e seus aliados na Síria.

Ainda no poder, Obama titubeou em usar a força para intervir na guerra civil. Falou inocuamente em “linhas vermelhas” que seriam cruzadas em caso de uso de armas químicas. Putin ocupou o vácuo.

Soldados apoiados pelos EUA preparam bombas em Raqqa, no nordeste da Síria - Hussein Malla - 27.jul.2017/Associated Press

Trump assumiu em 2017 e promoveu ataques aéreos mais duros contra forças de Assad, mas só para recuar.

O Pentágono afirmou à agência estatal russa Tass que bombardeios só estão garantidos até a saída das tropas, o que sugere o fim do apoio em terra também a aliados. E as forças rebeldes ligadas aos americanos, como os curdos do norte do país, sabem disso e temem pelo futuro.

Nesta quinta, um grupo curdo-árabe financiado pelos americanos para combater as forças terroristas do Estado Islâmico (EI) na Síria alertou que o inimigo iria ressurgir com força —mesmo tendo perdido o território que conquistou de forma assustadora, o EI ainda tem talvez 30 mil homens no país.

Alemanha e França também criticaram Trump com esse argumento.

Mais do que isso, os curdos estão preocupados com a mão livre que a Turquia terá para lidar com eles.

Ancara considera o grupo étnico inimigo por defender a criação de um Curdistão independente em solos turco, sírio e iraquiano.

Forças turcas atuam no norte sírio, e uma das principais milícias curdas, a YPG, chamou a decisão americana de “uma flagrante traição”.

A destruição do EI foi o motivo citado por Trump para a retirada. “Nisso, Donald está certo, eu concordo com ele”, afirmou Putin na entrevista.

 

Mas ele sabe que não foi a ação majoritariamente aérea de EUA e aliados, em curso desde 2014, e sim sua mão pesada que enfraqueceu os terroristas e a oposição a Assad, que estava à beira de derrotá-lo quando o Kremlin montou sua base no país.

Putin falou sobre o processo de estabilização do país árabe.

Ele é tocado com Turquia e Irã. Teerã e o grupo xiita Hizbullah, seu preposto no Líbano, forneceram o grosso das forças terrestres que apoiaram Assad.

Só que isso alarmou Israel, que passou a atacar posições dos adversários na Síria por temer a abertura de uma segunda frente hostil além da libanesa, estimulando uma ação grande liderada pelos seus aliados EUA em abril deste ano.

Israelenses e russos, usualmente com boa interlocução, se estranharam —e o Kremlin forneceu defesas aéreas mais poderosas para Damasco.

Assim, o país árabe virou um palco de enfrentamento de potências estrangeiras. Enquanto isso, viu sua infraestrutura implodir e uma crise humanitária sem igual no mundo hoje: meio milhão de mortos, mais de 6 milhões de refugiados, segundo estimativas.

A Rússia chegou a ter 5.000 homens, hoje talvez 3.000, focados em ações aéreas e com uso de mercenários.

Em fevereiro, tropas americanas mataram talvez cem mercenários. Isso só não virou uma crise maior porque não eram soldados regulares.

Nesse sentido, a retirada americana reduz o risco de algo sair do controle. Mas é um novo degrau para baixo na antes toda-poderosa influência de Washington na região.

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