Captura de piloto indiano após ataque pelo Paquistão acirra tensão com Índia

Aviões paquistaneses revidam ataque indiano na Caxemira, no primeiro embate aéreo entre os rivais em quase 50 anos

Patrícia Campos Mello
São Paulo

O destino do piloto indiano Abhi Nandan, capturado pelas forças paquistanesas, deve determinar se Índia e Paquistão, dois países nucleares, continuam se aproximando do precipício. 

Nesta quarta-feira (27), aviões paquistaneses fizeram ataques na região da Caxemira, abateram dois caças indianos e aprisionaram um dos pilotos, Abhi Nandan, enquanto a Índia afirmou ter derrubado um caça paquistanês. 

É a primeira vez em quase 50 anos que os arqui-inimigos Índia e Paquistão travam um embate aéreo. 

Soldado fotografa destroços de jatos, em Srinagar, na Caxemira indiana  - Javed Dar/Xinhua

Um dia antes, aeronaves indianas haviam feito bombardeios dentro do território paquistanês e a Índia afirmou ter destruído o maior campo de treinamento de terroristas no Paquistão, matando centenas de militantes da facção Jaish-e-Mohammad. 

A facção assumiu a autoria de um atentado no dia 14 de fevereiro que matou 40 soldados indianos na Caxemira. 

O Paquistão contesta a versão indiana e afirma que nenhum centro de treinamento de jihadistas foi atingido.

Na quarta-feira, vídeos começaram a circular pelas redes sociais e aumentaram o clamor popular por mais uma retaliação indiana. 

Um dos vídeos mostra o piloto indiano ferido sendo esmurrado por uma turba de paquistaneses enfurecidos. Em outro, ele está visivelmente machucado, com uma venda nos olhos, sendo interrogado. 

Após reações raivosas, Islamabad veiculou imagens do piloto tomando chá e dizendo ser bem tratado. 

Mas a fúria já tinha tomado as redes sociais e o piloto se transformara em um herói.

A Chancelaria indiana condenou o Paquistão por sua “exibição vulgar de um membro da Força Aérea da Índia ferido, em violação às normas da Convenção de Genebra”, que versa sobre prisioneiros de guerra. A Índia exige a devolução do militar, ileso.

O primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, deu mostras de que não tem interesse em prolongar o conflito . O Paquistão vive  crise financeira e negocia pacote  com o FMI. 

Mas, a pressão popular sobre o premiê Narendra Modi é muito grande. Se o piloto não chegar logo em casa, são e salvo, o indiano pode se ver compelido a fazer uma retaliação.

As eleições gerais na Índia se realizam em menos de três meses. Modi ainda é o líder mais popular da Índia, mas seu partido, o BJP, sofreu derrotas em eleições estaduais em 2018 e está sob pressão por causa do alto índice de desemprego no país. 

A disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, que remonta à Partição da Índia, em 1947, e o apoio do governo paquistanês a extremistas que fazem ataques terroristas dentro do território indiano são questões explosivas para o eleitorado indiano. 

A onda de patriotismo que tomou a Índia desde o atentado na Caxemira ajuda a popularidade de Modi, que teme ser punido nas urnas se não responder à agressão paquistanesa. Mas há grandes riscos.

“Se as tensões entre os dois países aumentarem, vai sair do controle de Modi e do meu”, disse o premiê paquistanês. “Todas as guerras envolvem erros de cálculo. Eu pergunto à Índia: com as armas que vocês e nós temos, podemos nos dar ao luxo de cometer erros de cálculo?” indagou. 

A Índia tem 110 ogivas nucleares e o Paquistão, 130. A Coreia do Norte, foco das negociações do presidente Donald Trump, tem um arsenal de 20 a 60 armas nucleares. 

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