Descrição de chapéu The Washington Post

Família suspeita que Coreia do Norte tenha participado de sumiço de jovem americano

Parentes esperam que Trump tenha tratado do assunto durante reunião com Kim Jong-un no Vietnã

David Sneddon, rapaz desaparecido, em foto de arquivo
David Sneddon, em retrato de 1999 - Arquivo Pessoal/The Washington Post
Anna Fifield
Pequim | The Washington Post

Onde está David Sneddon? É uma pergunta que a família Sneddon faz há mais de 14 anos, desde que o estudante da Universidade Brigham Young, de 24 anos, desapareceu quando viajava a pé pela China. 

E é uma pergunta que eles esperam que o presidente americano, Donald Trump, tenha feito ao líder norte-coreano Kim Jong-un nesta semana, quando os dois realizam sua segunda cúpula, encerrada abruptamente nesta quinta-feira (28). Uma teoria é que a Coreia do Norte teria participado do desaparecimento do então estudante. 

"É claro que eu quero uma resposta para o que aconteceu", disse Jenny Sneddon Reuel, irmã mais jovem de David. Eles são os dois filhos mais novos dos 11 da família, e eram muito achegados.

"Perdi um confidente e um melhor amigo. Essa saudade não vai embora. Há momentos em que faço alguma coisa ou escuto uma música e me lembro de Dave", disse ela. 

No verão de 2004, depois de completar seu terceiro ano na Universidade Brigham Young, David foi para Pequim para fazer um curso relâmpago de chinês, que ele pretendia estudar no último ano. Ele já havia completado uma missão de dois anos como mórmon na Coreia do Sul e aprendido coreano.

Com o fim das aulas de verão, David e um colega, George Bailey, decidiram conhecer alguns lugares turísticos da China. 

Depois que Bailey voltou para os EUA, David seguiu para a garganta do Salto do Tigre, um local cênico em Yunnan, no sul da China. Ele caminhou pela garganta e comeu várias vezes em um restaurante coreano em Xangrilá. Então simplesmente desapareceu.

Sua família o procurou, mas nada encontrou. O Departamento de Estado americano e as autoridades chinesas afinal concluíram que ele devia ter escorregado na garganta e caído no rio. Mas seu corpo nunca foi encontrado. 

"Nós nos sentíamos tão seguros na China", disse Bailey, narrando as perguntas que ele fez a si mesmo durante anos. "Eu passei pela culpa do sobrevivente. Nos anos que se passaram aprendi a me perdoar. Eu não poderia saber que ele correria perigo, e certamente não sabia que os norte-coreanos pudessem capturá-lo."

Em 2011, Chuck Downs, ex-oficial do Pentágono que trabalhou na Coreia do Norte e depois chefiou o Comitê por Direitos Humanos na Coreia do Norte, sediado em Washington, ouviu o caso de David.

Downs tinha trabalhado em questões ligadas a sequestros —a Coreia do Norte tinha o hábito de sequestrar pessoas, especialmente japoneses, durante os anos 1970 e 80— e se convenceu de que David havia sido sequestrado pela Coreia do Norte. 

Ele desapareceu quase um mês depois que Pyongyang libertou Charles Jenkins, soldado americano que havia desertado para o Norte durante a Guerra da Coreia e era um dos poucos americanos naquele país fechado.

No ano seguinte, um grupo japonês que trabalha em casos de sequestro disse que tinha documentos chineses provando que um americano de 23 ou 24 anos tinha sido preso em Yunnan. Depois, segundo eles, fora levado por agentes norte-coreanos. 

Mais tarde, a União de Famílias de Sequestrados na Coreia do Sul disse ter informações de Pyongyang de que David estava lá, casado e com dois filhos, e que ensinava inglês a Kim Jong-un.

Quando David desapareceu na China, Kim era o herdeiro presumível, com 20 anos, e estudava na Universidade Militar Kim il-sung em Pyongyang. 

Pouco depois que surgiram os relatos sul-coreanos, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma resolução pedindo que o Departamento de Estado e a comunidade de inteligência continuassem investigando o que aconteceu com David, inclusive a possibilidade de que tivesse sido sequestrado pela Coreia do Norte. 

O Senado aprovou em novembro uma resolução equivalente, patrocinada pelo senador republicano Mike Lee, de Utah. 

Uma porta-voz do Departamento de Estado, Katina Adams, disse que estava em contato com autoridades dos governos sul-coreano e japonês sobre essas alegações e as organizações que as faziam, e também havia se comunicado com a Coreia do Norte. 

"Embora não tenhamos recebido uma resposta oficial, o governo da República Popular da Coreia do Norte negou publicamente denúncias de que Sneddon esteja vivendo em Pyongyang", disse ela. 

"Até agora, não pudemos verificar qualquer informação sugerindo que David Sneddon foi sequestrado da China por autoridades norte-coreanas ou que esteja vivo na Coreia do Norte, mas continuaremos nossos esforços para buscar qualquer informação verificável", disse ela. 

Adams não respondeu a perguntas sobre se Trump foi informado do caso. 

Mas agora, com o presidente americano no meio de uma comunicação sem precedentes com a Coreia do Norte, os parentes e amigos de David esperam que Trump use a oportunidade para pelo menos mencionar o assunto. 

Enquanto os esforços diplomáticos começavam a ganhar força no ano passado, Trump pediu —e conseguiu— a libertação de três cidadãos americanos que estavam detidos na Coreia do Norte. Mas ele não citou David.

"Compreendemos que esta talvez não seja a maior prioridade dos EUA. Reconhecemos que as negociações sobre desnuclearização são de primeira importância", disse Bailey de sua casa em St. Louis, onde ele trabalha no setor financeiro. 

"Mas se Trump se encontrar com Kim Jong-un, há uma dúvida real sobre se ele vai mencionar o caso.

Ninguém sabe se Trump ouviu falar no caso. Não tenho certeza se as pessoas se importam", disse Bailey, acrescentando que se sente impotente. 

"Alguém está realmente tentando descobrir o que aconteceu? Trump vai mesmo perguntar?", indagou ele, antes do encontro entre os dois líderes. 

A irmã de David, Reuel, disse entender que nenhuma das teorias foi verificada, mas ela se pergunta se o presidente levantará a questão. 

"Penso que é uma pergunta justa de se fazer", disse ela, comentando que Jenkins, depois de libertado na Coreia do Norte, escreveu que "qualquer coisa é possível" naquele país. 

"Ainda não tenho a resposta sobre o que aconteceu com meu irmão", disse ela. "Sei que não há nada verificável, mas por que não havia cadáver, roupas ou alguma coisa? Se alguém me mostrasse apenas uma camiseta, já seria importante."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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