Descrição de chapéu New York Times Governo Trump

Saiba o que é verdadeiro e o que é falso no discurso anual de Trump

Economia e imigração ilegal foram os principais tópicos de seu Estado da União

O presidente americano Donald Trump durante seu discurso do Estado da União no Congresso
O presidente americano Donald Trump durante seu discurso do Estado da União no Congresso - Doug Mills/AFP
Michael Tackett Eileen Sullivan

O presidente Donald Trump enfatizou muito a força da economia dos Estados Unidos em seu segundo discurso sobre o Estado da União, feito na noite desta terça-feira (5, madrugada de quarta no Brasil), mas usou uma mistura de estatísticas precisas e estimativas exageradas que são muito mais difíceis de mensurar.

Ele também retornou a um tema que dominou o seu segundo ano na Presidência —a busca por verba para a construção de um muro na fronteira com o México para enfrentar o que ele disse ser uma crise de crime e drogas nos Estados Unidos causada pela imigração ilegal.

As duas questões dominaram o seu discurso, que teve um tom mais ponderado que as declarações agressivas que ele faz no Twitter mas ainda assim com  diversas afirmações falsas ou enganosas.

Abaixo, o que Trump disse, comparado aos fatos.

 

Trump disse que avanços científicos tornaram possível "eliminar a epidemia do HIV nos Estados Unidos em prazo de dez anos".

Isso é verdade.

Muitos cientistas concordam em que esse objetivo é atingível, com medicamentos que reduzem fortemente a probabilidade de que pessoas transmitam o vírus ou sejam infectadas. O governo Trump afirmou que vai buscar verbas adicionais, no orçamento do presidente, mas não está claro se elas serão suficientes.

Trump disse que os americanos pagam muito mais que pessoas de outros países por exatamente os mesmos remédios.

Isso é verdade.

Os preços dos remédios não genéricos vendidos sob receita são muitas vezes bem inferiores em outros países do que nos Estados Unidos. Mas Trump não explicou o motivo: as autoridades de saúde de outros países negociam preços com os fabricantes de medicamentos. Trump defendeu essa ideia, como candidato, mas a abandonou ao se tornar presidente.

Trump declarou que o Acordo Estados Unidos-México-Canadá, que substitui o Nafta (o acordo de livre comércio da América do Norte), trará de volta empregos industriais, expandirá a agricultura nos Estados Unidos e permitirá que mais carros sejam produzidos no país.

Isso é um exagero.

O acordo de comércio revisado com o Canadá e o México inclui cláusulas com o objetivo de trazer empregos industriais de volta aos Estados Unidos —incluindo pontos sobre o salário mínimo em certos segmentos da produção de automóveis. Mas diversos economistas apontam que essas cláusulas poderiam na verdade remover produção industrial —e empregos— da América do Norte. O acordo permite que pecuaristas americanos vendam mais laticínios ao Canadá. Mas o acordo comercial ainda não foi aprovado pelo Congresso, e tanto os democratas quanto os republicanos dizem que é improvável que isso aconteça sem mudanças significativas.

Trump disse que "quero que pessoas venham ao nosso país em quantidade muito maior do que no passado, mas elas precisarão vir legalmente".

Isso é enganoso.

Muitas das mudanças recentes nas políticas de imigração adotadas pela Casa Branca são direcionadas a pessoas que estão tentando entrar legalmente no país —por exemplo as pessoas que buscam asilo. As mudanças na política de asilo limitaram o número diário de pessoas que podem solicitá-lo e restringiram os lugares em que elas podem fazê-lo.

Trump disse que uma em cada três mulheres emigrantes é agredida sexualmente durante sua longa jornada para a fronteira dos Estados Unidos.

Não há provas disso.

Esse número não reflete as estatísticas atuais e, embora especialistas concordem em que o problema seja sério, não existem dados definitivos que permitam estabelecer com que frequência agressões sexuais contra as mulheres emigrantes acontecem. A estatística citada parece vir de um relatório de 2010 que usava dados de um livro escrito mais de uma década antes, de acordo com o jornal The Washington Post.

Trump declarou que "recentemente impusemos tarifas sobre US$ 250 bilhões em bens chineses e o Tesouro está arrecadando bilhões e bilhões de dólares".

Isso é verdade.

Desde que Trump impôs tarifas sobre certas importações de produtos chineses —e ao aço e alumínio importados de todo o mundo—, a arrecadação federal com tarifas cresceu. A arrecadação de receitas alfandegárias —que inclui tarifas— subiu em US$ 13 bilhões no terceiro trimestre de 2018 ante o mesmo período no ano anterior, de acordo com o Departamento do Comércio americano. Tecnicamente, o dinheiro é pago pelos americanos que trazem os bens ao país, e o custo costuma ser repassado aos consumidores dos Estados Unidos na forma de preços mais altos.

Trump disse que os Estados Unidos estavam deixando claro para a China que o país já não pode roubar empregos e propriedade intelectual de empresas americanas.

Isso é verdade.

Trump impôs tarifas punitivas sobre bens chineses, e aplicou outras restrições, em um esforço para forçar Pequim a mudar suas práticas comerciais. A guerra comercial forçou a China a negociar, e os dois países estão tentando chegar a um acordo comercial até o dia 2 de março.

Trump disse que a barreira na fronteira em San Diego "bloqueou quase completamente as travessias ilegais".

Isso é enganoso.

As detenções na fronteira caíram em 91% no distrito de San Diego entre o ano fiscal de 1994, o exercício anterior ao da conclusão da cerca de fronteira original, e o ano fiscal de 2018. Mas de acordo com o Serviço de Pesquisa do Congresso, a cerca por si só "não teve impacto mensurável" sobre o número de migrantes que cruzam ilegalmente a fronteira para os Estados Unidos. Em lugar disso, uma combinação entre aumento nos efetivos de patrulha e novas tecnologias é que se provou efetiva —além da cerca. Em termos gerais, as travessias de fronteira vinham caindo há quase duas décadas mesmo em áreas sem barreiras.

Trump disse que grandes caravanas organizadas formadas por centro-americanos estão a caminho dos Estados Unidos.

Isso é um exagero.

No final de janeiro, uma nova caravana com milhares de emigrantes da América Central estava a caminho do norte, e alguns dos viajantes declararam que pretendiam tentar entrar nos Estados Unidos. Mas muita gente na caravana disse que pretendia ficar no México, graças, em parte a políticas implementadas pelo novo governo mexicano.

Trump descreveu as travessias ilegais de fronteira como "uma crise nacional urgente".

Isso é falso.

O número de travessias ilegais de fronteira vem caindo há duas décadas. O serviço de alfândega e proteção de fronteiras dos Estados Unidos deteve mais de 50 mil pessoas que estavam tentando atravessar ilegalmente a fronteira sudoeste do país a cada mês, em outubro, novembro e dezembro. Embora isso seja uma alta ante a média mensal do ano fiscal encerrado em setembro de 2017, os números são muito menores do que no início da década de 2000, quando as detenções na fronteira superavam as 100 mil por mês.

Um número recorde de famílias tentou atravessar a fronteira nos últimos meses, o que excedeu a capacidade das autoridades de fronteira para lidar com o problema e criou um tipo novo de crise humanitária.

Trump afirmou que a economia criou quase 600 mil empregos industriais novos, e que "quase todo mundo" dizia que isso era impossível.

Isso é mentira.

A economia criou 454 mil empregos industriais novos de janeiro de 2017 para cá. É um número muito próximo ao da criação mensal de empregos em certos biênios do governo Obama, e significativamente mais baixo que o de criação de empregos industriais na década de 1990.

Trump disse que "criamos 5,3 milhões de empregos novos".

Isso é falso.

O Serviço de Estatísticas do Trabalho reportou que, de janeiro de 2017, quando Trump assumiu, até aqui, a economia criou 4,9 milhões de empregos.

Trump disse que "como resultado dos esforços do meu governo, em 2018 os preços dos remédios experimentaram sua maior queda em 46 anos".

Isso é enganoso.

Sob pressão da Casa Branca, muitos fabricantes de remédios postergaram ou reverteram aumentos de preços, no ano passado. Mas dezenas deles elevaram os preços de centenas de remédios, desafiando a vontade do presidente. Alguns remédios novos contra o câncer, por exemplo, custam mais de US$ 100 mil ao ano.

Trump declarou que nenhum presidente cortou mais a regulamentação.

Isso é falso.

O governo Trump desacelerou a implementação de novas regras e agiu para cancelar algumas das regras federais existentes ou propostas, especialmente na área de proteção ambiental. A Casa Branca afirmou que, até outubro de 2018, cerca de US$ 33 bilhões em custos futuros de regulamentação haviam sido eliminados. Mas especialistas dizem que a escala da desregulamentação na era Trump não supera o corte severo na regulamentação federal que aconteceu nos governos Carter e Reagan, quando normas que regulamentavam o transporte aéreo, rodoviário e ferroviário foram revogadas, entre outras mudanças.

Trump disse que a economia dos Estados Unidos é considerada" como a mais aquecida do mundo, por larga vantagem".

Isso é falso.

A economia dos Estados Unidos cresceu em índice anualizado de 3,5% no terceiro trimestre de 2018, o período mais recente sobre o qual existem dados disponíveis. O crescimento da Letônia e da Polônia foi quase duas vezes maior. O mesmo vale para a China e a Índia. Mesmo a problemática economia da Grécia registrou crescimento mais forte. E muitos analistas econômicos estimam que o crescimento da economia dos Estados Unidos tenha se desacelerado no quarto trimestre, e que vá se desacelerar ainda mais nos primeiros meses de 2019.

 

Depois que Trump concluiu o discurso, a resposta democrata foi dada por Stacey Abrams, candidata [derrotada] ao governo da Geórgia que empolgou muitos democratas no ano passado com sua campanha.

Ao apresentar a resposta de seu partido, Abrams declarou que "o projeto de lei tributária republicano adulterou o sistema em detrimento dos trabalhadores. Em lugar de recriar empregos, ele resultou em fechamento de fábricas, em demissões iminentes e em dificuldades para que os salários acompanhem o custo de vida real".

Isso é enganoso.

É fato que algumas fábricas estão fechando nos Estados Unidos, mas o emprego industrial no país cresceu desde que Trump assinou as novas leis de impostos. O crescimento dos salários não é tão forte quanto no passado, mas eles vêm crescendo, e nos últimos meses sua alta ficou mais de 1% acima da alta da inflação.

Abrams disse que secretários da Justiça em estados governados por republicanos abriram processos para desmantelar a Lei de Acesso à Saúde.

Isso é verdade.

Uma coalizão de secretários de Justiça estaduais republicanos abriu diversos processos em tribunais federais para bloquear cláusulas do programa de saúde do governo Obama, o que inclui um processo movido em fevereiro de 2018. Em dezembro de 2018, um juiz federal do Texas considerou toda a Lei de Acesso à Saúde inválida, com base nesse processo. Mas a decisão foi alvo de recurso e por enquanto não teve aplicação nacional.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci 

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