Descrição de chapéu The New York Times

Taleban e EUA iniciam discussões de alto nível para encerrar guerra no Afeganistão

Conversas são realizadas em Doha, no Qatar, e buscam impedir que país seja refúgio para terroristas

Mujib Mashal
Cabul | The New York Times

As negociações de mais alto nível até hoje entre diplomatas americanos e o Taleban começaram na segunda-feira (25) na capital do Qatar, com a presença do vice-líder dos insurgentes afegãos, suscitando esperanças de progresso em direção ao fim do longo conflito que vem provocando números recordes de mortos.

A previsão era que as negociações em Doha, no quarto encontro entre líderes do Taleban e negociadores dos EUA nos últimos meses, enfoquem detalhes de duas questões sobre as quais os dois lados disseram ter alcançado um acordo em princípio no mês passado.

Sob esse acordo provisório, o Taleban se comprometeria a não permitir que o território afegão se torne refúgio seguro para terroristas, abrindo a porta para a retirada das tropas americanas.

Abdul Salam Hanafi, um dos representantes do Taleban, durante coletiva em Moscou - Maxim Shemetov - 5.fev.2019/Reuters

Após a última rodada de discussões, representantes americanos disseram que qualquer acordo para a retirada de tropas precisa incluir um compromisso do Taleban com um cessar-fogo e sua participação em negociações com o governo afegão.

Os representantes americanos disseram que os negociadores do Taleban não tinham autoridade para discutir um cessar-fogo ou negociações com os afegãos e pediram tempo para consultarem seus líderes.

Agora a presença nas negociações do mulá Abdul Ghani Baradar, vice-chefe do Taleban e líder de sua comissão política que orienta os negociadores, pode conferir à equipe do Taleban a autoridade decisória que lhe faltava antes.

O porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, confirmou que Baradar está presente às discussões com diplomatas dos EUA em Doha.

“A pauta da reunião será composta pelas questões de sempre de encerrar a ocupação e proteger todos do Afeganistão”, disse Mujahid.

Antes do início das discussões, Zalmay Khalilzad, o enviado especial dos EUA que comanda as negociações, disse no Twitter na tarde de segunda-feira (25) que havia chegado a Doha “para se reunir com uma delegação do Taleban dotada de mais autoridade”.

“Pode ser um momento significativo”, ele disse. “Apreciamos o Qatar por sediar as discussões e o Paquistão por facilitar os deslocamentos. Agora o trabalho começa para valer.”

Após a última rodada de discussões, negociadores do Taleban disseram que os americanos iniciariam uma retirada parcial de suas forças ainda em fevereiro e que os detalhes da retirada completa seriam traçados por equipes técnicas dos dois lados.

Representantes dos EUA rejeitaram a sugestão de que uma retirada de suas tropas já estaria em curso. Autoridades afegãs e analistas aconselharam os EUA a não concordarem com tal medida imediatamente.

Disseram que isso eliminaria o fator mais forte de influência dos americanos sobre o Taleban antes de os insurgentes terem feito qualquer concessão para um acordo futuro que seja aceitável para o governo afegão e que preserve avanços nos direitos de mulheres e membros de minorias.

Durante seu tempo no poder, o Taleban proibiu as mulheres de participar da vida pública e governou segundo sua própria interpretação intransigente da lei islâmica, que inclui a proibição de música e televisão.

Embora o Taleban tenha dito recentemente que vai respeitar os direitos das mulheres segundo o islã, incluindo seu direito à educação, ao trabalho e de possuir e herdar bens, muitas pessoas ainda duvidam que os insurgentes consigam tolerar os avanços conquistados no Afeganistão nos últimos 17 anos.

Em grande parte do país as mulheres passaram a ser uma parte integral da vida pública e política, e o crescimento de uma mídia independente é saudada como uma das maiores conquistas.

“Céticos se apressaram a julgar com base em apenas a primeira parte de um esforço muito maior, como se já estivéssemos com um pacto completado”, disse Khalilzad, o negociador chefe dos EUA, após uma maratona de discussões em Doha no mês passado.

“Mas não se devora um elefante em uma só bocada. E uma guerra que dura 40 anos não se encerra com uma reunião, mesmo que essa reunião se prolongue por quase uma semana.”

A viagem a Doha de Baradar e vários outros líderes do Taleban residentes no Paquistão, integrantes de uma equipe negociadora ampliada anunciada pelos insurgentes recentemente, parece ter respondido a duas dúvidas importantes que pesaram sobre as negociações nas semanas recentes: se membros do Taleban, que integram listas de pessoas submetidas a sanções dos EUA, podem viajar para participar de negociações, e se o Paquistão tinha realmente libertado Baradar da prisão para permitir que ele participasse de negociações políticas.

Líder fundador do Taleban que foi instrumental no reagrupamento da entidade como insurgência obstinada depois de a invasão americana em 2001 ter derrubado seu governo, Baradar incorreu no desagrado das autoridades paquistanesas, que apoiam o Taleban como representante afegão e garantem abrigo a alguns de seus líderes, quando começou a dialogar com Cabul para discutir opções de paz.

Ele foi detido em uma operação conjunta paquistanesa e americana e encarcerado por anos, até Khalilzad pedir que fosse libertado, na esperança de que pudesse participar das negociações.

Autoridades governamentais afegãs, frustradas ao ver membros do Taleban viajando ao exterior para reuniões fora do país enquanto a violência em seu país apenas se intensifica, se queixaram recentemente ao Conselho de Segurança da ONU, dizendo que o fato de eles viajarem viola as sanções.

Porém, em um sinal de que os EUA e o governo afegão discordam nesse ponto, Khalilzad, após uma reunião recente com representantes russos, disse que os EUA buscariam maneiras de facilitar os deslocamentos de líderes do Taleban.

“Vamos explorar maneiras de obter salvos-condutos da ONU para negociadores do Taleban participarem de negociações de paz”, disse Khalizad.

Uma coisa que pode complicar um próximo passo em negociações de paz é a ausência de um consenso entre o governo do presidente Ashraf Ghani e uma série de agentes políticos afegãos críticos da liderança dele.

Os dois lados já discordaram publicamente sobre questões que incluem como enfrentar a recusa do Taleban em reunir-se com o governo e a composição de qualquer equipe de negociação, no caso de o Taleban eventualmente vir a concordar com negociações formais.

Tradução de Clara Allain

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