Descrição de chapéu The New York Times

Massacre na Nova Zelândia foi feito para viralizar

Vídeo de 17 minutos de uma parte do ataque percorreu a internet mais depressa do que os censores

The New York Times

Na sexta-feira (15), um homem na casa dos 20 anos vestiu um capacete com câmera, carregou seu carro de armas, dirigiu até uma mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia, e começou a atirar contra qualquer pessoa que entrasse em seu campo de visão. Ele transmitiu o ato de terror em massa para o mundo assistir nas redes sociais.

Quarenta e nove pessoas foram mortas no ataque, que ocorreu em duas mesquitas diferentes na cidade. 

Um vídeo de 17 minutos de uma parte do ataque, que percorreu a internet mais depressa do que os censores das redes sociais pudessem retirá-lo, é um dos registros mais perturbadores, em alta definição, de um ataque maciço com vítimas fatais na era digital —um registro grotesco do atirador em primeira pessoa sobre a capacidade de desumanidade de um ser humano.

Vídeos de ataques se destinam a ampliar o terror, é claro. Mas o que torna esta atrocidade "um ato de violência extraordinário e sem precedentes", como o descreveu a primeira-ministra Jacinda Ardern, é ao mesmo tempo a natureza metódica com que o massacre foi realizado e como ele foi aparentemente produzido para ter viralidade máxima.

Plataformas como Facebook, Twitter e YouTube se esforçaram para retirar a gravação e um manifesto do atirador, mas não conseguiram acompanhar a velocidade dos usuários; novas ferramentas de inteligência artificial criadas para limpar as plataformas de conteúdo terrorista não conseguiram derrotar a engenhosidade humana e a curiosidade para observar.

Em minutos, o vídeo foi baixado e copiado para plataformas adicionais onde percorreu o mundo. Imagens fixas dos corpos foram registradas e enviadas para sites como Reddit, 4chan e Twitter, onde foram compartilhadas e reenviadas.

Alguns usuários do Twitter descreveram como tentaram freneticamente conter os vídeos que se autorreproduziam em suas páginas, para não serem bombardeados pelas cenas da chacina que vinham do mundo todo. 

Usuários da internet descobriram a história digital do suposto atirador, preservando e compartilhando imagens de suas armas e armadura corporal.

A pegada digital do atirador —das arengas de seu manifesto racista a suas postagens no 8chan antes dos crimes— foi desenterrada e, por algum tempo, distribuída em recantos longínquos da web.

O matador queria chamar a atenção do mundo, e ao cometer um ato de terror em massa, conseguiu.
Não foi o primeiro ato de violência a ser transmitido em tempo real. 

Em 2015, dois repórteres em Roanoke, na Virgínia (EUA), foram assassinados por um atirador que postou a gravação no Twitter. Pouco depois, o aplicativo de streaming ao vivo Periscope foi criticado depois que uma adolescente transmitiu ao vivo seu suicídio. 

Outros assassinatos foram divulgados ao vivo no Facebook, como o de Robert Godwin, aparentemente aleatório, em 2017. Também houve diversos registros de choques com a polícia, às vezes fatais.

Desde a estreia da ferramenta de vídeos ao vivo, no final de 2015, usuários transmitiram estupros e abusos de crianças —uma pesquisa de 2017 de BuzzFeed News descobriu "pelo menos 45 casos de violência" na plataforma. 

Mas o ataque em Christchurch parece diferente, em parte devido à aparente familiaridade de seu perpetrador com os recantos mais sombrios da internet.

A gravação contém numerosas referências à cultura online e de memes, incluindo a checagem do nome de uma importante personalidade do YouTube pouco antes de iniciar o ataque. 

O rastro digital que o atirador deixou parece mostrar uma motivação racista para o ataque. Há muito neste momento que ainda não se sabe, apesar do que foi publicado online.

O manifesto de 87 páginas, por exemplo, é cheio de camadas de comentários irônicos e autorreferentes, aparentemente escritos para enfurecer especificamente as comunidades que parecem ter ajudado a radicalizar o atirador.

Parece que o atirador de Christchurch —que por sua pegada digital parece ser nativo da internet— compreende ao mesmo tempo a dinâmica da plataforma que permite que desinformação e conteúdo divisor se espalhe, mas também como semear discórdia. 

Tão terrível quanto a violência em si, é como a comunidade online trabalhou a favor do atirador. Esta talvez seja nossa nova realidade. Não só o ódio conspiratório se espalhou da internet para a vida real, como também se armou para se tornar viral. 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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