Descrição de chapéu Venezuela

Prefeitura de Manaus infla números de venezuelanos acolhidos em abrigo

Folha teve acesso negado ao local; rodoviária da cidade virou moradia para imigrantes

Fabiano Maisonnave
Manaus

Acompanhada de três filhos pequenos e do marido, a venezuelana Naileth Bolívar, 24, vive há um mês e meio acampada ao lado da rodoviária de Manaus.

A família faz parte de um amontoado de 320 imigrantes que dependem de doações para comer e vivem ali em condições insalubres —uma mulher já morreu vítima de tuberculose.

Apesar da situação caótica na rodoviária desde dezembro, a 8 km de distância dali o abrigo municipal do Coroado, criado para atender 200 venezuelanos, mantinha apenas 6 imigrantes no domingo (10), quando a Folha visitou o local, acompanhada do procurador Fernando Soave, do Ministério Público Federal (MPF).

Relatos ouvidos de funcionários e imigrantes afirmam que o Coroado opera com no máximo dez abrigados há pelo menos duas semanas —ou seja, até 5% da sua capacidade.

O local é voltado principalmente a imigrantes interiorizados pela Operação Acolhida, do governo federal, que redistribui venezuelanos que chegam a Roraima.

“É uma situação surreal”, disse Soave após inspecionar o abrigo, onde dezenas de pequenos dormitórios vazios com beliches e ventiladores acumulam pó. “Um espaço de acolhimento para 200 imigrantes, e as pessoas vivendo lá na rodoviária.”

Bolívar conta que passa a maior parte do dia sentada no meio-fio cuidando dos filhos e do barraco de lona do outro lado da rua —recentemente, furtaram o seu celular.

Por causa do calor, é impossível ficar dentro sob o sol amazônico. Recentemente, o filho mais novo, de 1 ano, sofreu uma convulsão e foi levado ao hospital.

Já o marido, um ex-funcionário terceirizado da estatal de petróleo PDVSA, faz bicos como pedreiro ou carpinteiro —o pagamento de trabalho braçal a venezuelanos em Manaus gira em torno de R$ 30 por dia, mais alimentação e transporte.

O dinheiro serve para pagar o banheiro da rodoviária, que cobra R$ 1 para a privada e R$ 2 para a ducha. 

“Fazem muitas promessas de que vão nos ajudar, nos levar a um abrigo e nada”, diz a imigrante.

“As igrejas e alguns brasileiros ajudam, mas todos brigam por comida. Aí uns doadores se assustam e não voltam mais.”

Mesmo com as dificuldades, os venezuelanos não param de chegar a Manaus.

Pesquisa de agosto do governo do Amazonas e do Acnur (agência de refugiados da ONU) estimou que, diariamente, desembarcam na rodoviária 105 venezuelanos. Desses, 42% planejam se estabelecer na cidade.

O restante quer seguir viagem, mas, na maior parte das vezes,  esses imigrantes não dispõem de recursos para uma nova passagem.

Apesar de o Coroado estar praticamente vazio há pelo menos duas semanas, a subutilização do abrigo foi negada pela administração do prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB), que assegurou que havia cem venezuelanos no local.

 “Não procede”, disse na sexta a diretora de Proteção Social Especial, Mirella Lauschner, em entrevista conjunta com a secretária municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania, Conceição Sampaio, ao ser perguntada sobre por que o abrigo tinha menos de dez pessoas.

Na semana passada, a prefeitura proibiu o acesso da Folha ao Coroado e a outros dois abrigos municipais, sob a alegação de que os venezuelanos não querem receber jornalistas.

A afirmação, no entanto, não foi confirmada por dois imigrantes que estavam no Coroado.

Procurada novamente nesta segunda-feira (11), a secretaria manteve a informação de que, sim, havia 100 abrigados na semana passada.

Para justificar o número, alegou que alguns venezuelanos saíram do abrigo por conta própria para procurar trabalho, enquanto outros estão em processo de transferência para o Coroado.

Sobre a proibição da entrada da reportagem no abrigo, o órgão da prefeitura justificou: "No passado, tivemos relatos dos acolhidos de que a imprensa só expõe a situação de vulnerabilidade social e econômica em que se encontram sem levar solução para os problemas humanitários que vivenciam essa população”.

Declínio

O abrigo vazio e a rodoviária cheia refletem o deterioro no atendimento aos venezuelanos em Manaus, que passaram a chegar em grande número a partir do final de 2016, inicialmente com indígenas da etnia warao.

A cidade, a 990 km da fronteira com a Venezuela por estrada de asfalto, logo se tornou uma alternativa aos imigrantes que não encontravam oportunidades na pequena e saturada Boa Vista (RR).

Naquele ano, a prefeitura abriu quatro casas de acolhimento para os waraos.

Essa e outras iniciativas levaram o Acnur a enviar uma carta de reconhecimento a Virgílio.

Atualmente, no entanto, os dois abrigos para os waraos em funcionamento sofrem com superlotação, segundo a própria prefeitura. No maior deles, no bairro Alfredo Nascimento, há 250 indígenas em um espaço com capacidade para 100 pessoas.

Com isso, muitos waraos voltaram a morar nas ruas de Manaus. Apenas na rodoviária de Manaus, há cerca de 90. A mulher que morreu de tuberculose pertencia à etnia. 

Ex-funcionários contratados para trabalhar com os indígenas relataram atraso de três meses no salário.

Um deles, o antropólogo Luciano Cardenes, conta que a prefeitura chegou a propor que eles fizessem as refeições num restaurante popular para pessoas em vulnerabilidade social enquanto o pagamento não fosse regularizado.

“Os waraos são um desafio para o diálogo intercultural, mas nunca se impuseram como barreira ao nosso trabalho. Por outro lado, a Secretaria de Assistência Social foi autoritária e incompetente no atendimento. Não consultou os waraos sobre os seus projetos de vida, mantendo-os socialmente vulneráveis nos espaços dos abrigos.”

Sobre o atraso nos pagamentos, a Secretaria informou: "Enfrentamos dificuldades na permanência dos prestadores de serviço, ocasionando a solicitação do desligamento dos profissionais”.

O órgão da prefeitura, porém, negou que tenha oferecido refeições em restaurantes populares para minimizar o problema.

Na sexta-feira, Lauschner disse que o repasse federal de R$ 1,92 milhão do governo federal para a prefeitura, feito em meados do ano passado, é insuficiente para atender a demanda, mas admitiu que até agora não foi enviada uma nova solicitação de recursos a Brasília.

Via assessoria de imprensa, o Ministério da Cidadania informou que "aguarda receber o plano de trabalho para definir as estratégias e ações que serão realizadas em Manaus.”

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