Ex-presidente da Colômbia conta bastidores de acordo com as Farc em livro

Juan Manuel Santos ganhou o Nobel da paz pelo fim do conflito no país

O então presidente, Santos, e Timochenko, líder das Farc, celebram acordo
O então presidente, Santos, e Timochenko, líder das Farc, celebram acordo - Luis Acosta - 26.set.2016/AFP
Sylvia Colombo
Buenos Aires

“Não havia plano B”, conta o ex-presidente da Colômbia Juan Manuel Santos (2010-2018), ao ver, em um estado de frustração, seus familiares e assessores mais próximos se abraçando e chorando a sua volta, enquanto a televisão transmitia os resultados eleitorais.

Era a noite de 2 de outubro de 2016, e acabava de ser anunciado que o “não” havia vencido o plebiscito que definiria se os colombianos aceitavam ou não o acordo de paz que o governo negociou com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Com baixo comparecimento (37% dos votantes), o “não”, cuja campanha havia sido feita por seu arquirrival e ex-padrinho político, o ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), havia se imposto por 50,21% contra 49,48% do “sim”.

Nunca imaginei que isso aconteceria. Pensei em renunciar”, conta Santos em seu livro recém-lançado “La Batalla por la Paz”.

Logo depois, porém, o então mandatário se recompôs.

Montou um discurso com sua equipe e logo o proferiu em rede nacional.

Transmitia frustração, mas serenidade, e reafirmava que não desistiria de tentar a paz com a guerrilha mais antiga e mais letal da Colômbia —foram cerca de  250 mil mortos em mais de 50 anos de atividade.

No livro, Santos diz ter se arrependido de ter convocado o plebiscito, pois a Constituição garantia que o acordo poderia ser feito e aprovado apenas pelo parlamento.

“Só que eu tinha feito uma promessa aos colombianos de que esse seria consultado e estava absolutamente convencido de que ganharíamos”, conta.

Após reuniões com líderes políticos e religiosos que se opuseram ao acordo, Santos pediu que sua equipe de negociadores modificasse alguns trechos

Encorajado pela comunidade internacional ao receber o Nobel da Paz apenas alguns dias depois da derrota nas urnas, Santos juntou capital político. Enviou o novo acordo direto para o Congresso, que o aprovou.

Um dos aspectos mais envolventes do livro é o modo como o ex-mandatário mostra suas reações pessoais em episódios delicados.

Conta como passou de estar incomodado a indignado e daí a abertamente nervoso com as intromissões de Uribe, até o ponto em que diz ter desenvolvido “uma pele de crocodilo” contra seus insultos e dos opositores. Envolver-se com as vítimas da guerrilha, ouvir suas histórias, o comoveram muito.

O ex-presidente também responde às críticas de ter se calado, durante a campanha de 2010, sobre sua intenção de levar adiante um então impopular acordo de paz —o que poderia ter comprometido sua vitória. 

“Eu só podia anunciar que tinha de fato a solução quando todos os itens de que necessitava estivessem em minha mão”. Um deles, diz, eram os contatos com lideranças da guerrilha, que já tinham ocorrido, mas deveriam permanecer em segredo. 

Outro, mais delicado, era que seria necessário o apoio do venezuelano Hugo Chávez (1954-2013) e do equatoriano Rafael Correa, pois as Farc tinham operações logísticas e atuavam nos territórios dos dois países. E, isso, justifica Santos, ele só obteria se já tivesse ganho a eleição. 

Com Uribe, que transformou-se em seu pior inimigo já nos primeiros meses de gestão, Santos narra inúmeros episódios de rusgas. Um deles foi quando ele se negou, como ministro de Defesa de Uribe, a colocar escutas no telefone de uma senadora de esquerda, Piedad Córdoba.

Em outro trecho, chama Uribe de caudilho. “O problema dos caudilhos é que sempre terminam caindo na tentação de perpetuar-se no poder”, escreve. 

O livro oferece bons bastidores do poder em uma Colômbia altamente polarizada. Afastado da política, Santos não dá dicas nem recomendações a seu sucessor, Iván Duque, colocando-se a uma distância saudável do que está sendo feito com seu legado.

Desde que deixou o cargo, em agosto de 2018, Santos, que então tinha cerca de 20% de aprovação popular, subiu a marca para 54%. Já Uribe, que segue na política e já começa a ter rusgas com seu novo afilhado, Iván Duque, vem caindo em popularidade —hoje em torno de 40% (era 55% há um ano atrás).

La Batalla por la Paz

  • Preço R$ 25
  • Autor Juan Manuel Santos
  • Editora Planeta
  • Formato Ebook
  • Idioma Espanhol
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