Marcado por envenenamentos, caso Odebrecht na Colômbia avança a passos lentos

Três pessoas envolvidas nas investigações morreram após ingestão de cianureto

Manifestante usa máscara de Nestor Martinez, procurador-geral da Colômbia, durante protesto - Luisa Gonzalez - 29.jan.2019/Reuters
Sylvia Colombo
Cartagena

“O caso Odebrecht na Colômbia parece ser o único na região que requer a presença da Agatha Christie (1890-1976)”, disse à Folha, ironicamente, o jornalista peruano Gustavo Gorriti, em referência à escritora britânica de histórias de detetive. 

Isso porque, durante a lenta investigação da Justiça colombiana, três pessoas envolvidas no caso morreram após ingestão de cianureto.

O jornalista peruano, um dos mais ativos da região ao formar elos entre as investigações dos escândalos da Odebrecht em outros países, disse que cada um tem seu ritmo. 

“Em alguns, começa com a Justiça, como no Brasil, em outros, é o jornalismo que expõe, pressiona, até que exista uma iniciativa da procuradoria local, como ocorreu no Peru.”

Em seu país, manifestações de rua exigiram recentemente a renúncia do então procurador-geral Pedro Chávarry, acusado de favorecer os fujimoristas nas investigações.

Entre os pagamentos admitidos pela Odebrecht na América Latina em forma de subornos ou caixa 2, estão US$ 11 milhões (R$ 41 milhões) na Colômbia e US$ 29 milhões (R$ 107 milhões) no Peru. 

Porém, enquanto este último tem quatro ex-presidentes e outros políticos sob investigação, a Colômbia tem apenas dois condenados: um funcionário de segundo escalão, o ex-ministro de transporte, Gabriel García Morales, responsável pela distribuição de concessões públicas, e um ex-senador, Otto Bula, que expôs um sistema de caixa 2 em campanhas políticas como as do então presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) e do ex-candidato Óscar Iván Zuluaga. 

Santos e Zuluaga teriam recebido mais de US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões) cada um.

García Morales recebeu uma pena de prisão de mais de seis anos e Bulla está em prisão preventiva.

A Colômbia tem 78 pessoas sob investigação, sendo dez delas parlamentares atualmente com cargo e foro privilegiado. 

“A investigação é muito lenta. O que esperamos é que a sociedade se contamine dessa preocupação e saia às ruas como ocorreu no Peru”, diz María Jimena Duzán, jornalista da revista Semana, que acompanha o caso na Colômbia.

Manifestantes protestam pela saída do procurador-geral da Colômbia Nestor Martinez, em Bogotá - Daniel Munoz - 29.jan.2019/AFP

​Gorriti e Duzán falaram com a Folha durante o Hay Festival de Cartagena, após uma mesa dedicada a discutir o avanço das investigações da Lava Jato na América Latina.

A participação da sociedade colombiana se tornou mais ativa nas últimas semanas.

Depois de uma grande manifestação em dezembro, agora há protestos semanais pela renúncia do procurador-geral do país, Néstor Humberto Martínez. As cidades colombianas estão empapeladas com cartazes tipo lambe-lambe pedindo seu afastamento do caso.

Martínez trabalhou junto ao grupo Aval, principal sócio da Odebrecht na Colômbia, e escondeu o fato quando era cotado para o cargo.  Com relação ao caso Odebrecht, tem minimizado a importância do principal escândalo, o superfaturamento das obras da Rota do Sol 2, uma estrada que ligaria o interior do país ao Caribe, ganho pela Odebrecht com o grupo Aval.

Ele tem preferido apontar para rivais políticos, como o ex-presidente Juan Manuel Santos, que negou ter tido conhecimento dos pagamentos ilícitos e entregou seus chefes de campanha, que agora respondem a processo.

Segundo os advogados de acusação, as provas mais concretas da relação de Martínez com o grupo Aval constam de gravações de suas conversas com um dos auditores do projeto Rota do Sol 2, Jorge Henrique Pizano, o primeiro a morrer na série de mortes misteriosas. 

Seu filho, Alejandro, morreu em seguida. Exames revelaram que ambos haviam tomado cianureto. 

Semanas depois, outra testemunha chave do caso, Jorge Merchán, que foi secretário de transparência durante o governo Santos e deporia sobre o caso, também morreu após ingestão de cianureto.

Ainda com as fortes pressões pela renúncia de Martínez, as investigações continuam, a passo lento. 

Nesta semana, depõem por teleconferência ex-diretores da Odebrecht na Colômbia, os brasileiros Luiz Antonio Bueno Júnior, Luiz Antonio Mameri e Luiz Eduardo Da Rocha Soares. 

Os três fizeram um acordo com a procuradoria local. A Odebrecht se comprometeu a devolver US$ 6,5 milhões (R$ 24 milhões), em troca de que seus executivos não sejam investigados judicialmente no país. 

 
 
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