Descrição de chapéu The New York Times

Ex-ditador Omar al-Bashir abrigou Bin Laden e criou rede de milícias no Sudão

Ditador foi retirado do poder nesta semana, após 30 anos no cargo

O ex-ditador Hassan al-Bashir, em Cartum, capital do Sudão - Lynsey Addario - 5.mar.2019/The New York Times
Declan Walsh
The New York Times

O ex-ditador Omar al-Bashir adorava contar a história de seu dente quebrado. Quando ele era estudante e trabalhava numa obra, segundo disse a apoiadores em janeiro, caiu e quebrou um dente enquanto carregava um objeto pesado. Em vez de procurar tratamento, lavou a boca com água salgada e continuou trabalhando.

Mais tarde, depois que entrou para o Exército, ele recusou um implante de dente prateado porque queria se lembrar de suas dificuldades. "Esta", disse ele, apontando para a brecha na boca, enquanto os seguidores davam gargalhadas.

A história era uma forma de Bashir, que foi deposto na quinta-feira (11) depois de governar o Sudão com pulso de ferro durante 30 anos, exaltar suas origens humildes —de mostrar que continuava sendo um homem do povo, oriundo das aldeias agrícolas empoeiradas à margem do Nilo.

A imagem folclórica era um contraste marcante com a imagem de Bashir no Ocidente, onde era comumente considerado um guerreiro impiedoso, que abrigava terroristas como Osama bin Laden, e como o acusado de arquitetar um expurgo genocida em Darfur que matou centenas de milhares de pessoas.

Desde 2009, o Tribunal Penal Internacional (TPI) tenta prendê-lo sob a acusação de crimes de guerra que incluem assassinato, estupro e extermínio.

Mas a notoriedade global nunca foi um grande problema para Bashir, 75, no Sudão, vasto país africano com uma longa história de guerra e sofrimento. Ele superou adversários que o subestimaram, conduziu um boom do petróleo durante uma década, que fez crescer a classe média sudanesa, e forjou uma rede de forças de segurança e milícias armadas para lutar suas guerras que alguns compararam a uma teia de aranha com Bashir no centro.

Esse edifício de poder cuidadosamente construído desmoronou nesta semana enquanto milhares de manifestantes se aglomeraram diante de sua residência em Cartum, gritando slogans e enfrentando tiros disparados por bandos rivais de soldados.

O dinheiro do petróleo estava acabando, a economia estava em frangalhos e os sudaneses, especialmente os jovens, estavam fartos. A aranha tinha de sair.

"Apenas saia, só isso!", entoavam.

Na manhã de quinta, os militares o depuseram, pondo fim a seu regime de 30 anos diante das amplas manifestações. Informaram que tinham levado Bashir sob custódia, dissolvido o governo e suspendido a Constituição.

Representantes do principal grupo de protesto, a Associação de Profissionais Sudaneses, que esperavam uma declaração dos militares e se preparavam para negociar uma transição para um regime civil, receberam o anúncio com decepção. 

"O que acaba de ser declarado é para nós um golpe, não é aceitável", disse Sara Abdelgalil, porta-voz do grupo. "Nosso pedido de um governo de transição civil foi ignorado."

Nascido numa família de agricultores em uma aldeia empoeirada a 160 km ao norte de Cartum, a capital, Bashir serviu como comandante de paraquedistas no Exército. Em 1989, chefiou uma junta islâmica que depôs o primeiro-ministro Sadiq al-Mahdi em um golpe sangrento, o quarto levante militar no Sudão desde sua independência em 1956.

Durante a primeira década de seu governo, porém, Bashir foi visto como fachada de uma força mais poderosa, o religioso Hassan al-Turabi, ideólogo de fala suave, educado na Sorbonne, com ideias amplas sobre inserir a lei islâmica sharia na sociedade diversificada do Sudão e em suas instituições.

Jihadistas internacionais afluíram ao país nesse período, entre eles Bin Laden, que comprou uma casa em um bairro caro de Cartum e investiu em agricultura e construção. Em 1993, os EUA puseram o governo de Bashir na lista negra como patrocinador internacional do terrorismo e impuseram sanções quatro anos depois. 

Em 1999, depois de um desacordo, Bashir manobrou Turabi e o levou à prisão. Ele recorreu ao Exército para apoiar sua autoridade, forjando relações que promoveram os militares, as forças de segurança e a liderança tribal do país. 

Bashir frequentou assiduamente os enterros e casamentos de oficiais militares, muitas vezes enviando a suas famílias presentes como açúcar, chá ou produtos desidratados. Ele oferecia uma festa semanal em que oficiais podiam se encontrar com ele, segundo Alex de Waal, professor na Escola de Direito e Diplomacia Fletcher na Universidade Tufts (EUA), um especialista em Sudão. 

"Ele é como a aranha no centro da teia —podia captar o menor tremor, então usar habilmente suas técnicas políticas pessoais para gerenciar a política do Exército", disse de Waal. 

Bashir usava uma abordagem parecida para manipular os líderes provincianos e chefes tribais, acrescentou o estudioso. "A maioria deles se militarizou e se misturou às forças populares de defesa. Ele tem essa rede extraordinária, e está tudo em sua cabeça." 

Esse estilo de autocracia personalista foi posta em ação no combate à insurgência no Sudão do Sul, onde rebeldes de diferentes grupos étnicos com crenças cristãs ou animistas lutavam pela independência.

Durante a guerra de 21 anos, a Força Aérea sudanesa despejou bombas de fragmentação sobre aldeias remotas no sul e se aliou a cruéis milícias locais recrutadas por Bashir e seus oficiais.

Ao mesmo tempo, o Sudão descobriu petróleo. Depois que os primeiros barris foram bombeados em 1999, os padrões de vida subiram gradualmente em um dos países mais desesperadamente pobres da África.

Novas estradas surgiram, aldeias distantes ganharam água e eletricidade e prédios brilhantes se ergueram em Cartum.

"Foram os anos gordos", disse Magdi el-Gizouli, professor no Instituto Vale do Rift.

Em 2005, sob pressão internacional, Bashir assinou um acordo de paz com os rebeldes do sul, superando a oposição da linha-dura que queria continuar lutando. Mas então surgiu outra rebelião no oeste de Darfur que definiria seu legado.

Uma milícia pró-governo conhecida como Janjaweed cortou uma trilha sangrenta em aldeias remotas, sufocando uma insurgência liderada por rebeldes. Pelo menos 300 mil pessoas teriam morrido, segundo estimativas, e em 2009 o Tribunal Penal Internacional emitiu o primeiro de dois indiciamentos contra al-Bashir, que se tornou o primeiro chefe de Estado em exercício a ter um mandado de prisão emitido pelo tribunal. 

"Esse foi o seu maior erro", disse Gizouli. "Ele terceirizou a guerra para essas milícias, os pastoralistas de Darfur. E criou um aparelho de segurança extremamente inchado, com estruturas concorrentes."

Bashir foi acusado de crimes que incluem assassinato, estupro, tortura e extermínio, e sua reputação de vilão foi amplificada por celebridades em campanha como o ator George Clooney, que o denunciou como a personificação de um regime sectário impiedoso. Mas as previsões de que ele se tornaria "um fugitivo, um homem em um cartaz de procurado" foram apenas parcialmente confirmadas.

Desafiando o tribunal, Bashir viajou para Quênia, Egito, Nigéria e Arábia Saudita, embora uma visita à África do Sul em 2015 foi interrompida quando um tribunal considerou prendê-lo, alguns especialistas criticaram os indiciamentos como legalmente falhos e politicamente contraproducentes.

Bashir se pintou como a vítima de uma caça às bruxas internacional liderada por um Ocidente ingrato. Ele se queixou de que os Estados Unidos tinham renegado suas promessas de levantar as sanções em troca da paz no sul.

Animado pela riqueza do petróleo, Bashir venceu com folga a eleição de 2010, com cartazes que o mostravam orgulhoso em novas estradas, barragens e fábricas —mesmo que 40% da população do Sudão continuasse abaixo da linha de pobreza. 

Em 2011, o Sudão do Sul votou pela separação, tornando-se um país independente e levando consigo três quartos das reservas de petróleo do Sudão. Conforme as reservas secaram, a economia sudanesa enfraqueceu muito, e Bashir começou a enfrentar séria oposição. 

A suspensão das sanções americanas em 2017 poderia ter ajudado Bashir. Mas o Departamento de Estado manteve o país na lista de patrocinadores do terrorismo, impedindo qualquer influxo de investimento estrangeiro.

Em 2018 a economia do Sudão estava em queda livre, com um índice de inflação de 72%, longas filas nos postos de gasolina e até falta de notas bancárias. As classes médias urbanas, decepcionadas por ver seus padrões de vida despencarem, revoltaram-se.

Um protesto contra o aumento do preço do pão em Atbara em 19 de dezembro rapidamente se espalhou por cidades de todo o país, liderado por médicos e outros profissionais. A revolta pública cresceu conforme jovens médicos, alguns de famílias ricas, foram mortos.

Em janeiro, Bashir desdenhou dos manifestantes, dizendo que "os ratos voltem para seus buracos" e que ele só deixaria o cargo para outro oficial do Exército, ou pelas urnas.

Mas em geral suas forças reagiram com relativa contenção, matando dezenas e não centenas de manifestantes. Os protestos, muitas vezes casos isolados em bairros diferentes da capital, transformaram-se em ocorrências diárias.

Em 6 de abril, no maior protesto já realizado, os manifestantes chegaram aos portões da casa de Bashir no quartel-general do Exército sudanês. O protesto coincidiu com o aniversário do levante de 1985 que derrubou o regime de outro líder impopular, o ditador Gaafar Nimeiry.

Foi o início do empurrão final que levou a sua demissão na quinta-feira. Seu toque supostamente popular o havia abandonado completamente. Os militares e líderes de segurança que ele promoveu durante anos lhe disseram que era hora de partir.

Assim como muitos governantes militares, Bashir gostava de afirmar que o poder lhe foi imposto, e que ele o aceitou com relutância. "Este país não incentiva ninguém a desfrutar o poder", disse ele depois que tomou o controle em 1989. "Este país está exausto. Ele desmoronou e caiu."

Os críticos dizem que ele deixou o Sudão praticamente na mesma situação. Menos claro, porém, é se seus sucessores poderão modificá-lo rapidamente. A economia arruinada precisa de uma enorme injeção de dinheiro, e os conflitos atuais nas regiões sudanesas do Nilo Azul ou do Cordofão do Sul não deverão diminuir. As rebeliões passadas, nos anos 1960 e 1980, viram rapidamente a reversão ao controle militar depois de alguns anos de regime civil errático. 

"A população quer mudança, mas os problemas do Sudão são estruturais, e não uma questão de personalidade", disse Aly Verjee, analista no Instituto da Paz dos Estados Unidos. "Mesmo sem Bashir, o Sudão não vai se curar da noite para o dia."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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