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Mulher trans funda mesquita para acolher muçulmanos LGBTQ

Grupo em Chicago defende direito de exercer fé fora do armário e sem medo

Fernanda Mena
Chicago

Em uma pequena sala de reuniões compartilhada num edifício de escritórios no centro de Chicago, nos EUA, Mahdia Lynn, 31, afasta mesas e cadeiras para estender no chão tapetes coloridos com motivos orientais.

Ela prepara o espaço para a tradicional oração muçulmana de sexta-feira: a jummah.

Boa parte do Islã dispensa mulheres desta importante cerimônia.

 
retrato de mahdia lynn, mulher branca, de casaco preto e lenço preto que cobre a cabeça e os cabelos
Mahdia Lynn, 30, fundadora da mesquita Al-Rabia, que abriga pessoas LGBTQ muçulmanas - Eric Strom/Folhapress

Nesta mesquita, no entanto, mulheres não só participam do ritual, sem nenhum tipo de segregação espacial, como assumem posições de liderança nada usuais.

Quem faz a chamada para a reza é uma médica e, no lugar do habitual sermão do imã, todos se sentam em roda para debater o Alcorão. 

Não é só a jummah da mesquita Al-Rabia que é extraordinária.

Sua liturgia é centrada no protagonismo feminino, e sua fundadora, Mahdia Lynn, é uma mulher trans, nascida menino em Detroit, a 450 quilômetros dali.

Fundada em 2016, a mesquita Al-Rabia é a primeira das Américas a garantir espaço físico para que muçulmanos LGBTQ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer) possam exercer a sua fé fora do armário sem medo de discriminação ou violência. 

“O Islã é muito importante para deixar qualquer um para trás”, diz Lynn.

A mesquita foi batizada em homenagem à poeta e mestra sufi Rabia Al-Adawiyya (713-801 d.C.), liderança feminina do Islã que, segundo Lynn, “queria remover ideias de punição e recompensa, e celebrar Deus apenas por seu amor a Ele”.

A mesquita LGBTQ, ou “mesquita trans”, como já foi chamada, faz parte de um grupo de organizações transgressoras que buscam acolher muçulmanos rejeitados em comunidades islâmicas convencionais, nas quais sair do armário é sinônimo de abandono (ou expurgo) de espaços de convivência e prática religiosa. 

Essa rejeição cria um conflito aparentemente incontornável entre fé e identidade que Lynn pretende reconciliar. 

“A espiritualidade é uma parte muito importante e íntima da vida, e todos têm direito a expressá-la”, afirma. “Negar ao indivíduo a sua fé é crueldade. Queremos um Islã que funcione para todos.”

Lynn sabe bem o que é isso.

Ela passou a viver como mulher trans aos 18 anos, quando abraçou também o ativismo feminista e gay. “Ser uma mulher trans torna você muito vulnerável a violências cotidianas.”

Ela conta que só conseguia aliviar o peso dessa hostilidade na embriaguez do álcool. “Eu batalhava, mas já estava no fundo do poço. Até que resolvi, do nada, ler o Alcorão. E isso mudou a minha vida.”

Para ela, a leitura das escrituras sagradas foi uma revelação. “Eu me identifiquei tanto que parecia que já sabia de tudo aquilo. Comecei a seguir a rotina de orações. E o Islã me devolveu a minha vida”, conta.

Para frequentar uma comunidade muçulmana de Tulsa, resolveu esconder sua transgeneridade. Viveu assim, “de volta ao armário”, como costuma dizer, por dois anos. “Fiz por uma questão de sobrevivência.”

Nesse período, ela conviveu intimamente com mulheres da comunidade. “Os espaços femininos no Islã foram essenciais para mim. Pertencer a eles precisa ser uma opção. Quando o isolamento é algo imposto pelos homens, é inaceitável”, diz.

Por mais contraditório que possa parecer a certos grupos feministas, cobrir o corpo e os cabelos, para Lynn, foi um jeito de retomar o poder sobre seu próprio corpo.

Menos exposto, seu corpo estaria menos sujeito a abordagens invasivas. 

“O corpo feminino é considerado propriedade pública ou objeto de discursos. No caso de mulheres trans, isso é ainda mais intenso”, explica.

Ela admite, no entanto, que nem sempre é assim. “Muitas mulheres na comunidade islâmica são coagidas a usarem o véu e as roupas, num movimento contrário, que aponta para o fato de seus corpos não pertencerem a elas, mas a seus pais ou maridos.” 

Depois de dois anos passando-se por mulher, Lynn começou a questionar o modelo de liderança religiosa das mesquitas tradicionais: centrado nos homens e numa hierarquia de cima para baixo. 

Quando descobriu outras pessoas gays e trans em comunidades muçulmanas nas redes sociais, a ficha caiu: ela não estava sozinha, mas vivia uma situação bem mais confortável que seus pares.

“Reconheci meu privilégio de mulher trans jovem e branca, que podia facilmente se passar por uma cisgênero [aquela que se reconhece no sexo biológico] e se camuflar nessas comunidades para ter uma vida espiritual dentro da tradição. Mas e os outros gays e trans?”

Como sabia que seria difícil colocar uma bandeira arco-íris em instituições pautadas pela rigidez nos costumes, Lynn se uniu a grupos como Third Coast Queer Muslims, criado em 2014, e Transgender Muslim Support Network, para fundar a Al-Rabia sem a bênção de mais ninguém. 

“Como o Islã havia me devolvido minha vida, era minha responsabilidade dedicá-la ao Islã, tornando-o acessível e seguro para todos os que nele depositam sua fé.”

Em três anos de existência, a mesquita conquistou “haters”, que enviam mensagens de ódio a Lynn e sua comunidade.

Ao mesmo tempo, a Al-Rabia conquistou o respeito de lideranças mais arejadas da comunidade islâmica norte-americana. 

“Parte da nossa missão é tornar espaços como estes obsoletos à medida que todo o Islã se torne seguro para todos aqueles que abraçam seus preceitos. Espero, um dia, não sermos mais necessários.”

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