Tradicional avenida de Buenos Aires ganha trecho para pedestres

Av. Corrientes ficará fechada para carros todos os dias à noite

Trecho da avenida Corrientes, uma das principais de Buenos Aires, que virou via para pedestres
Trecho da avenida Corrientes, uma das principais de Buenos Aires, que virou via para pedestres - Marcelo Carrol/Clarin
Buenos Aires

Crianças saindo correndo da tradicional El Vesuvio, com um sorriso no rosto e um sorvete na mão, para encontrar os pais sentados do outro lado da calçada. 

Grupos de turistas tirando selfies no meio da avenida com o Obelisco ao fundo, filas para os antigos cinemas, como o Lorca, se estendendo sobre a via. 

Casais e idosos andando onde pouco antes transitavam carros, apenas a passeio ou a caminho de teatros, como o San Martín, ou de restaurantes históricos, como o Güerrin, o Palacio de la Papa Frita e Los Inmortales.

Cenas que seriam impossíveis até pouco tempo atrás agora são realidade. Para recuperar a boemia que sempre marcou a avenida Corrientes, com seus teatros, cafés antigos, livrarias abertas até a madrugada, cinemas e pizzarias, a prefeitura de Buenos Aires resolveu tomar uma decisão.

Entre 19h e 2h da manhã, diariamente, o trecho mais culturalmente relevante da Corrientes —da esquina da avenida Callao até a 9 de Julio— tem parte das faixas reservada apenas para pedestres. Na outra, só podem transitar ônibus e táxis.

O objetivo é incentivar as pessoas a voltar a frequentar a avenida, hábito portenho e dos turistas e que vinha sendo deixado de lado nos últimos anos devido à falta de segurança —era comum a atividade de batedores de carteiras— e ao fato de que bairros como Palermo Soho, Puerto Madero e Villa Crespo vinham roubando público.

Os serviços de filmes e séries por streaming, que podem ser vistos em casa, e redes multiplex espalhadas pela cidade também estavam esvaziando os cinemas de rua tradicionais da Corrientes. Já os teatros sempre tiveram público. 

“Mas nos últimos anos, a gente vinha, via a peça e pegava o carro para ir comer em outro lugar, aqui tinha muito assalto”, diz Lucila Sánchez, 52. Agora, a coisa parece estar mudando. Na última quinta (18) à noite, as pizzarias e restaurantes estavam cheios e havia muito policiamento.

“Acho que a medida vai trazer o público de volta, sim. Só precisa resolver o acesso para quem vem de carro, porque estacionar aqui ficou difícil, e nem todo mundo gosta de pegar ônibus ou metrô muito tarde”, diz o garçom Adrian Pergollini, 62.

As dificuldades, porém, parecem pequenas perto dos efeitos positivos.

“[O passeio] é agradável e barato. Aqui, dá para comer uma pizza, caminhar, gastar um bilhete de metrô e o programa está feito. Em tempos de crise como agora, é perfeito”, diz Mariluz Salcedo, 49, que passeava com o marido e o filho.

Ela se refere à alta inflação, que apenas no mês de março bateu um novo recorde histórico: 4,7%.

A prefeitura avalia se estenderá a experiência para outros trechos da longa avenida, que tem 9 km e atravessa cinco bairros da cidade: San Nicolás, Balvanera, Almagro, Villa Crespo e Chacarita.

Na Corrientes, estão 24 teatros e cinemas, 28 livrarias, 37 hotéis e 58 restaurantes, pizzarias e cafés.

Até a medida ser tomada, muitos sofriam risco de serem fechados. Agora, se o passeio voltar mesmo a ser um programa da moda, a história pode mudar.

As reformas incluíram uma separação entre as vias com um pequeno jardim. Durante o dia, veículos particulares podem transitar uma delas, enquanto a outra é apenas para o transporte público. 

A partir das 19h, carros são proibidos, e entram em cena os pedestres. Como na avenida Paulista, em São Paulo, aos domingos, há funcionários da prefeitura sinalizando e orientando o público.

Na primeira semana, a iniciativa foi um sucesso, e a Corrientes recuperou seu brilho histórico.

A ver se o entusiasmo pela novidade volta a ser um hábito portenho.

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