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Mísseis hipersônicos já são vistos como estrelas dos conflitos do futuro

Armas que voam cinco vezes ou mais a velocidade do som ganharam o protagonismo

Igor Gielow
São Paulo

A aparente defasagem dos EUA no campo dos mísseis hipersônicos pode ser um erro de avaliação durante o grande investimento no setor nos anos 1990, ou uma falsa queixa do Pentágono para obter mais fundos.

Da mesma forma, os anúncios triunfais da Rússia de Vladimir Putin na área podem ser reais ou apenas para criar tensão política, ao estilo Guerra Fria, e forçar despesas e reorientação de táticas de seus adversários.

 
Avião russo MIG-31 leva míssil hipersônico Kinjal durante celebração do aniversário da vitória na Segunda Guerra, em Moscou - Kiril Kudryatsev - 9.mai.2018/AFP
Seja qual for a realidade, essas armas que voam cinco vezes ou mais a velocidade do som ganharam o protagonismo na chamada guerra do futuro por méritos próprios.

Há dois tipos de mísseis, cada qual com um impacto diverso nas ciências militares, na definição de um dos papas da geopolítica, George Friedman, da consultoria americana Geopolitical Futures.

O primeiro é o veículo planador, caso do sistema russo Avangard. Ele é colocado na ogiva de um míssil balístico intercontinental, conhecido pela sigla ICBM —as armas do apocalipse, que em 30 minutos podem levar o fogo nuclear dos EUA à Rússia e China ou vice-versa.

Hoje, o ICBM leva uma ou várias pequenas ogivas até o espaço, e elas caem em alvos predeterminados a velocidades hipersônicas. A diferença com o veículo é que ele é solto pelo ICBM no limite da atmosfera e segue, em altíssima velocidade e com possibilidade de manobrar, rumo a seu alvo em solo.

A capacidade de manobrar esse tipo de armamento é o grande diferencial, pois teoricamente é possível furar qualquer sistema antimíssil. E os veículos podem levar cargas pesadas, armas atômicas com potência de até 2 megatons.

O outro modelo é o míssil de cruzeiro hipersônico, lançado de aviões ou navios e que voam a altitudes bem mais baixas, também manobrando.

Os russos já têm operacional o Kinjal. Ele pode levar uma ogiva nuclear menor ou até 500 kg de explosivos convencionais. E no caso de Moscou miram navios e bases de defesa antimíssil da Otan (aliança militar ocidental) na Europa.

Mas são os chineses os que mais investem em modelos do tipo, de olho em sua prioridade estratégica de dominar o Pacífico ocidental. Para tanto, precisa de mísseis hipersônicos antinavios para ameaçar os poderosos grupos de porta-aviões americanos.

O problema é que, no caso dos mísseis de cruzeiro, é preciso orientação por satélite para atingir o alvo —aviões ou drones de reconhecimento são facilmente localizáveis. Aí a guerra tem de ser transferida para o espaço, algo que já se ensaia com a criação da Força Espacial anunciada por Donald Trump.

Outro problema é que o míssil de cruzeiro não tem carga convencional suficiente para afundar um porta-aviões em um ataque solitário.

Como atingir velocidade hipersônica supõe caríssimos materiais resistentes a altas temperaturas, isso torna a empreitada economicamente duvidosa.

A alternativa é um ataque nuclear, opção claramente contemplada na opção russa de dissuasão. Mas a teoria militar vigente prevê que o uso da bomba leva a uma escalada inevitável, que no limite levaria ao fim do mundo.

Apenas por levar a essas considerações, os mísseis hipersônicos já têm lugar como estrelas dos conflitos do futuro.

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