Descrição de chapéu Governo Trump

Estados Unidos puxam crescimento global de gastos militares

Alta sob Trump em 2018 gera dilatação de gastos bélicos de países como Rússia

Igor Gielow
São Paulo

Donald Trump retira os Estados Unidos de um importante tratado de redução de armas. Acusado de violar o acordo, Vladimir Putin anuncia estar pronto para apontar novos e perigosos mísseis contra seus inimigos.

Índia e Paquistão, potências nucleares, enfrentam-se nos céus da Caxemira. Chineses transformam ilhotas em bases militares e investem em aviões sofisticados. 

A Ucrânia prevê gastar o que não tem para conter atividades da Rússia em seu território. Até na morosa América do Sul o Brasil é obrigado a negar que vá ajudar militarmente norte-americanos e colombianos a derrubar a ditadura da Venezuela.

O noticiário de 2019 confirma uma tendência na dinâmica das atividades militares no mundo: a volta da perspectiva do conflito entre Estados nacionais, algo que vinha em declínio com o fim da Guerra Fria e a ascensão dos conflitos irregulares como a guerra contra o terror.

Publicado pelo respeitado Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla inglesa), o “Balanço Militar 2019” coloca em números essa perspectiva de um mundo mais perigoso.

 

Referência na quantificação de gastos militares e avaliação do estado de Forças Armadas, a publicação mostra que em 2018 os EUA iniciaram uma alta expressiva na despesa bélica, puxando consigo países da aliança que lidera na Europa, a Otan.

Isso é resultado da chegada de Trump ao poder em 2017 e a publicação, em janeiro do ano passado, da sua nova Estratégia de Defesa Nacional, na qual propõe que os inimigos a serem combatidos são a China e a Rússia, e não grupos obscuros terroristas escondidos em cavernas.

Com efeito, se em 2016 o gasto com defesa de EUA e Canadá contabilizado pelo IISS caiu quase 2%, ele sobe quase 4% em 2018. A reversão ocorre também na Europa e no bloco Rússia/Eurásia, dominado pelo país de Putin —que havia reduzido os gastos após um pico de 16% de aumento em 2015.

Os EUA seguem como líderes incontestes no campo militar. Alocaram em 2018 US$ 643 bilhões para defesa —contra US$ 734 bilhões dos próximos 15 maiores países no campo, e US$ 310 bilhões do resto do mundo.

É o único país capaz de projetar força de forma coordenada em várias frentes, com seus 11 grupos de porta-aviões. É imbatível em mobilidade: tem 530 aviões-tanque para reabastecer sua frota mundo afora, contra 68 dos próximos cinco países na categoria de potência: Rússia, China, França e Reino Unido, companheiros de Conselho de Segurança da ONU, além da Índia.

 

Apesar de ter sido bem recebida pelos militares, a estratégia de Trump esbarrou na imprevisibilidade do presidente, que determinou retiradas de tropas do Afeganistão e da Síria sem consultar seu secretário de Defesa, Jim Mattis —que deixou o posto.

Ele foi substituído por Patrick Shanahan, um ex-executivo da Boeing entusiasta do programa de militarização do espaço defendido por Trump, não por acaso um campo em que sua ex-empregadora investe.

Apesar de toda a capacidade instalada, anos de desgaste em guerras no Iraque e Afeganistão cobraram um preço no planejamento, conforme a própria estratégia publicada por Trump admite. Seus rivais estratégicos melhoraram sua posição para desafiar Washington.

A China tem as maiores Forças Armadas do mundo: 2 milhões de militares —​algo até natural dada a demografia do país. Isso em si não significaria tanto não fosse a grande variedade de equipamentos e, como ressalta o IISS, o acelerado programa de modernização visando tornar o país a potência dominante no oeste do Pacífico.

Não por acaso, o turbulento Oriente Médio viu em 2018 a menor atividade de porta-aviões no golfo Pérsico na história recente, enquanto o Pacífico recebeu a visita de dois desses gigantes.

A ditadura comunista chinesa está militarizando dois conjuntos de ilhotas e atóis no mar do Sul da China, que considera suas águas territoriais. Isso é contestado pelos EUA, e não são poucos os analistas que preveem a região como um campo de batalha naval futuro.

Pequim ganhou relevância estratégica nas três últimas décadas, mas Moscou é ainda a grande rival de Washington. Putin aproveitou-se, mais do que qualquer outro líder, da fraqueza relativa dos EUA pós-2001.

A anexação da Crimeia em 2014 e a intervenção que salvou a ditadura de Bashar al-Assad na Síria em 2015 foram pontos altos desse desafio.

A relação com a Ucrânia é mais um exemplo do embate entre entes nacionais. Além de ter patrocinado o plebiscito que reintegrou a Crimeia à Rússia, o governo Putin fomenta o separatismo pró-russo no leste do país.

Com isso, buscando a reeleição, o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, promete elevar seus gastos militares para a casa dos 5% do PIB —embora apenas uma virtualmente impossível adesão à Otan pudesse de fato lhe dar garantias.

Os russos têm reformulado doutrina e ampliado o investimento em formas modernas de combate, como a guerra cibernética.

Mas é na dissuasão nuclear que mora sua força: além de ter um arsenal comparável ao dos EUA, o que garantiria vários apocalipses caso tudo fosse usado, o Kremlin avançou muito em novas tecnologias de mísseis.

Naturalmente, assim como no caso chinês, há diversas fraquezas militares e principalmente econômicas que são escamoteadas pelos números brutos.

Porém, com um gasto militar na casa dos 4% do PIB e o quarto maior investimento nominal do mundo, a Rússia tem ainda muitos anos de protagonismo pela frente.

Os países do Oriente Médio e do Norte da África registraram uma queda brutal na variação de investimento — 12% a menos do que em 2017.

É uma área de conflito, contudo, então registra campeões no gasto militar em proporção do PIB: Omã e Arábia Saudita, com 11% cada um, lideram a lista. Israel despende enormes 5,9% —os Estados Unidos, que são a maior economia do mundo, gastam 3,14%.

 

O Brasil, de acordo com o IISS, gastou em 2018 1,4% de seu PIB com defesa (1,51% segundo o governo), mas 89% do valor vão para pagamento de pessoal e inativos.

Ainda assim, tem uma força militar grande para manter: 334.500 uniformizados, e incorporou um importante meio à sua frota naval, o porta-helicópteros britânico Ocean, rebatizado Atlântico.

A América Latina e o Caribe, indica o IISS, também seguiram a tendência puxada por Trump e tiveram um aumento de quase 2% no seu investimento militar em 2018.

Mas isso não reflete a situação venezuelana, pois o país do ditador Nicolás Maduro não tem números auditáveis pelo IISS. O que se sabe é sobre a boa capacidade de defesa aérea do país, a melhor do continente e um problema para os adversários.

Erramos: o texto foi alterado

Por erro de montagem, os números de porta-aviões e caças táticos no infográfico foram publicados incorretamente. Na verdade, China, França, Rússia e Reino Unido possuem, cada um, um porta-aviões. Os Estados Unidos possuem 11 porta-aviões, e não 32. Os EUA também contam com 3.421 caças táticos, e não 157. A China, por sua vez, possui 1.932 caças táticos, e não 193. Já a Rússia tem 1.146 caças táticos, e não 2. As informações foram corrigidas.

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