Terraplanismo vira item da cesta básica de apoiadores da direita populista

Para professor da Universidade Columbia, defesa da teoria é 'atalho para rotular rejeição à ciência'

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Desprezo por evidências científicas é um item que não costuma faltar na cesta básica da direita populista. Não espanta, portanto, que o terraplanismo tenha lugar cativo nesse kit, lado a lado de ideologias como o ultranacionalismo.

Em declínio desde que Nicolau Copérnico (1473-1543) revolucionou a ciência ao mostrar que a Terra não é o centro do universo, o entusiasmo pela teoria de que nosso planeta é plano é catapultado pelos mesmos canais virtuais que abastecem apoiadores da direita mundo afora.

É nessa nova ordem global que terraplanista virou sinônimo de conservador, diz Christopher Sabatini, professor de relações internacionais da Universidade Columbia.

“É apenas um atalho para rotular sua rejeição à ciência. O rótulo transmite que, assim como aqueles que resistem há 600 anos a fatos científicos, a extrema direita se recusa a aceitar evidências sobre mudanças climáticas, homossexualidade etc.”

A comunidade científica pode até contabilizar uma minoria anã dentro de consensos quase absolutos, como o debate sobre o aquecimento global. Mas não se tem notícia de um cientista sério que não rechace a hipótese de uma Terra que mais parece uma panqueca do que uma laranja.


CINCO ARGUMENTOS CONTRA OS ​TERRAPLANISTAS

ECLIPSES DA LUA

O único jeito de explicar os eclipses lunares é o alinhamento entre Sol, Terra e Lua, de tal maneira que a sombra da Terra é projetada sobre o satélite natural. Essa sombra é redonda —o que só é possível se a Terra for uma esfera, não uma tábua 

CIRCUNAVEGAÇÃO

Desde o começo do século 16 os navegadores —e, desde o século passado, os aviadores— sabem que dá para sair de um ponto do planeta e avançar em linha reta toda vida até retornar ao mesmo lugar de onde vieram. Isso só é possível num planeta redondo

FUSOS HORÁRIOS

O único jeito de explicar as diferenças de horário entre lugares distantes na Terra é por meio da rotação e do formato esférico do planeta. Se o Sol iluminasse alguns lugares primeiro e outros depois, feito um holofote, seria possível vê-lo num canto do céu mesmo à noite

OUTROS PLANETAS

Não é só foto da Nasa: desde o século 17 até a mais humilde luneta mostra que outros planetas e satélites costumam ser esféricos. Por que só a Terra seria a exceção?

ESTRELAS NO CÉU

Se estivéssemos todos em cima de um tampo de mesa de proporções planetárias, todos veríamos as mesmas constelações no céu. Como a Terra é um globo, quem mora em Nova York não consegue ver nosso Cruzeiro do Sul, enquanto os moradores de São Paulo não conseguem ver a estrela Polar, da constelação da Ursa Menor


Isso não impede que um terço dos millennials dos EUA deem ao menos o benefício da dúvida para o mito da Terra plana. Em pesquisa com 8.215 entrevistados feita em 2018 pelo instituto YouGov, 66% dos que têm entre 18 e 24 anos disseram: “Sempre acreditei que o mundo é redondo”.

Será mesmo? A dúvida é esparramada pela internet por gente como Mark Sargent.

“Estamos dentro de um mundo fechado como o ‘Show de Truman’, com milhares de quilômetros de largura?” Assim inicia a descrição do canal de YouTube deste americano que começou a carreira jogando videogame profissionalmente e virou um líder no que chama de “exército terraplanista” —à Folha ele calcula que haja ao menos cem milhões como ele, isso sem considerar que “90% do nosso batalhão estão no armário”.

O Truman da ficção, interpretado em 1998 por Jim Carrey, foi adotado bebê por uma rede de TV e vivia sem desconfiar num estúdio criado artificialmente para ele. Uma bolha.

Terraplanistas se apegam ao pressuposto de que a humanidade habita uma superfície chata coberta por um domo: uma espécie de céu, onde sol e lua são astros bem menores do que imaginaríamos. Essa hipótese prega que um paredão de gelo (a Antártida) de 360 graus não deixaria os oceanos vazarem.

As imagens de uma bolota azul no espaço? Montagens. Há tempos uma conspiração global, segundo os detratores da “tese do globo”, tenta esconder isso a qualquer custo.

Reprodução de anúncio de cruzeiro até a borda da Terra; terraplanista diz que imprensa deturpou a história
Reprodução de anúncio de cruzeiro até a borda da Terra; terraplanista diz que imprensa deturpou a história - Reprodução

Se há um bom momento para deixar o armário é agora, defende Sargent. Tudo bem que Donald Trump reclamou da “pergunta estúpida” quando um repórter quis saber o que ele achava da teoria, mas Sargent vê uma contribuição do presidente americano à causa.

“Trump usa bastante a expressão ‘fake news’ para falar da mídia, que tem o poder de gerar notícias falsas para desvalidar quem quiser. Como a maioria das pessoas acredita na imprensa mainstream, isso pode causar muito dano.”

Uma linha de pensamento que não espanta Robert Shapiro, ex-chefe do Departamento de Ciências Sociais de Columbia. Para ele, “o espírito de negação dos fatos tem sido parte da ‘doutrina Trump’ e das teorias conspiratórias da extrema direita americana”.

Sargent lembra, por exemplo, das reportagens dizendo que terraplanistas embarcariam num cruzeiro até “a borda da Terra” em 2020. Falso. Eles cogitavam, isso sim, zarpar para o Caribe, “por prazer”. Um jornalista britânico teria deturpado a história, e o resto da mídia “acreditou porque ninguém checa mais nada”.

A ideia de que são as vítimas, sem serem também eles propagadores de lorotas, é comum ao presidente e aos terraplanistas. Outra semelhança: o apoio evangélico.

Nem todo terraplanista é cristão e nem todo cristão é terraplanista, mas que os grupos formam uma ótima parceria, isso eles formam, diz Sargent.

Evangélicos lotam conferências sobre o tema, e, “por motivos óbvios”, afirma: por mais de 15 séculos líderes do cristianismo só aceitavam a versão de que o homem é o umbigo de tudo, e não uma esferazinha a mais no espaço. “Sem essa comunidade o terraplanismo não seria tão poderoso.”

Se a Terra, na concepção desse grupo, fica paradinha onde está, o mundo dá voltas. A difusão do terraplanismo, antes relegado a piada, ganha terreno no eleitorado conservador mundo afora. Por aqui, uma palestra de 2012 com Olavo de Carvalho, o escritor coqueluche da família Bolsonaro, resgatou um experimento feito por dois cientistas em 1887, ainda hoje exaltado pelos amigos de Mark Sargent.

“Se de fato a Terra se move ao redor do Sol, então deve haver diferenças na velocidade da luz em vários pontos da Terra conforme as várias estações do ano. E eles mediram isso milhares e milhares de vezes e viram que não mudava nada. Então, das duas, uma. Ou a Terra não se move ou é preciso modificar a física inteira.”

O próprio Olavo reclamou no Twitter, em 2016: “Metem no YouTube e então espalham que defendo a teoria da Terra Plana. O número de idiotas universitários que acreditam é incalculável”, escreveu.

Procurado, o escritor disse que não dá entrevistas sobre tópicos que não pesquisou. Dias após a Folha o questionar, tuitou: “Não estudei o assunto da Terra Plana. Só assisti a uns vídeos de experimentos que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute”.

Há duas semanas, o ministro-astronauta de Bolsonaro, Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), reproduziu quadrinhos que tratavam a ascensão do grupo como tragicômica: cientistas haviam se dedicado a “um dos maiores desafios postos em prática”, colocar satélites no espaço, só para que alguém pudesse ter a mesma internet que propaga que a Terra é plana.

Com tantas pessoas assim no mundo, a tese entrou na pauta, quase sempre de forma zombeteira, de programas de TV e de documentário estrelado por Sargent, “A Terra É Plana” (disponível no Netflix).

O filme mostra como o movimento tem picuinhas internas. Sargent, por exemplo, é apontado por um de seus pares de ser um agente secreto a serviço do governo. Sua amiga Patricia Steere, outra youtuber terraplanista, idem. Seu próprio nome termina com “CIA”, justificam seus acusadores.

Ele odiou. Acha que o diretor foi injusto e só mostrou experimentos que deram errado. Para ele, questionar premissas estabelecidas é bê-á-bá na ciência, e se ninguém é capaz de provar sem um fiapo de dúvida que nosso planeta é esférico, então não tem por que comprar essa versão.

Cientistas são cheios de certezas que se esfarelam com o tempo, diz. Como a de que os dinossauros eram “lagartões”, enquanto hoje já se admite que eles podem ter tido penas, como pássaros.

Para o geofísico Sérgio Sacani, doutor em geociências pela Unicamp, ridiculizar os adeptos do terraplanismo é um desserviço, e não ajuda a academia viver num mundinho à parte.

“Existe até a chamada teoria da torre de marfim: os acadêmicos estão ali, numa torre, e são inatingíveis. Isso dá a chance para a propagação de pseudociências. O problema é que hoje eles sentiram a água bater na bunda: ou fazem alguma coisa ou vão se afogar.”

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