Descrição de chapéu The New York Times

Comandantes tentaram resistir ao uso de armas para expulsar manifestantes, diz militar chinesa

Para ex-tenente do Exército, massacre na praça da Paz Celestial nunca deve ser esquecido

Chris Buckley
Pequim | The New York Times

Por três décadas, Jiang Lin fez silêncio sobre a carnificina à qual assistiu na noite em que o Exército chinês entrou em Pequim para esmagar protestos estudantis na praça da Paz Celestial.

Mas as memórias a atormentavam —memórias de soldados atirando contra multidões no escuro, de corpos caídos em poças de sangue, do som dos golpes de cassetetes de soldados que a jogaram ao chão perto da praça.

Jiang era tenente do Exército de Libertação popular na época. Ela assistiu de perto tanto ao massacre quanto ao esforço fracassado de comandantes seniores para dissuadir os líderes chineses de recorrer à força militar para esmagar os protestos pró-democracia.

Mais tarde, quando as autoridades prenderam manifestantes e eliminaram memórias do massacre, ela não disse nada, mas sua consciência não a deixou em paz.

Agora, no trigésimo aniversário do massacre de 4 de junho de 1989, Jiang, hoje com 66 anos, decidiu  contar sua história.

Ela disse que se sentiu na obrigação de pedir uma prestação pública de contas, porque gerações de líderes do Partido Comunista chinês, incluindo o dirigente Xi Jinping, não expressaram nenhum remorso pela violência.

Jiang deixou a China recentemente. “Esta dor me consome há 30 anos”, disse em entrevista que deu em Pequim. “Todos que participaram dos acontecimentos precisam falar publicamente sobre o que sabem que aconteceu. É nosso dever para com os mortos, os sobreviventes e os jovens do futuro.”

O relato de Jiang tem um significado mais amplo: ela lança nova luz sobre como comandantes militares tentaram resistir às ordens de usar força armada para expulsar manifestantes da praça que eles ocupavam havia sete semanas, chamando a atenção do mundo.

O idealismo intenso dos estudantes, suas greves de fome, as críticas das autoridades e gestos grandiosos como a construção de uma “Deusa da Democracia” na praça, tudo isso atraiu enormes manifestações de apoio público e deixou os líderes chineses divididos em relação a como reagir.

Jiang descreveu como divulgou a notícia de uma carta escrita por generais seniores manifestando sua oposição à lei marcial e deu detalhes sobre outras cartas de comandantes aconselhando os líderes nacionais a não colocar tropas na rua em Pequim.

E ela viu nas ruas soldados que obedeceram as ordens do partido atirando indiscriminadamente na corrida para retomar a praça da Paz Celestial.

Mesmo hoje, 30 anos mais tarde, o massacre ainda é um dos tópicos mais espinhosos da política chinesa, sujeito a um esforço prolongado e em boa parte bem-sucedido das autoridades para apagá-lo da história.

O Partido ignorou muitos chamados para reconhecer que errou ao abrir fogo sobre os estudantes e moradores e resistiu às reivindicações de uma contagem do total de mortos.

As autoridades regularmente prendem ex-líderes dos protestos e os pais de estudantes e moradores mortos na repressão.

Neste ano um tribunal no sudoeste da China condenou quatro homens por venderem garrafas de bebida alcoólica cujo rótulo fazia alusão à repressão na praça.

Ao longo dos anos, um grupo pequeno de historiadores, escritores, fotógrafos e artistas chineses vem tentando registrar os capítulos da história chinesa que o partido quer que sejam esquecidos.

Mas a decisão de Jiang de desafiar o silêncio carrega um peso político adicional porque ela não apenas é veterana do exército, mas também filha da elite militar.

Seu pai era um general; Jiang nasceu e foi criada em complexos militares. Ela sentiu orgulho quando se alistou no Exército de Libertação Popular, cerca de 50 anos atrás.

Nas fotos de seu tempo de jornalista militar ela é vista sorridente em seu uniforme verde, com um bloco de anotações na mão e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço.

Jiang disse que nunca imaginou que o Exército pudesse disparar contra pessoas desarmadas em Pequim.

“Como é possível a situação virar a tal ponto que se voltassem tanques e metralhadoras contra pessoas comuns?”, disse. “Para mim, aquilo foi uma insanidade.”

Qian Gang, seu antigo supervisor no “Diário do Exército de Libertação”, hoje vive fora da China e corroborou detalhes do relato de Jiang, que compartilhou centenas de páginas de diários e um livro de memórias que escreveu enquanto estava tentando encontrar sentido no massacre.

“Mais de uma vez me imaginei visitando a praça da Paz Celestial em roupas de luto e deixando um buquê de lírios branco”, escreveu em 1990.

Jiang sentiu medo em maio de 1989, quando a rádio e a televisão divulgaram um anúncio de que o governo chinês ia impor a lei marcial em boa parte de Pequim, em um esforço para tirar os manifestantes estudantis da praça.

Os protestos tinham começado em abril, quando estudantes fizeram uma passeata para homenagear a morte repentina do líder reformista popular Hu Yaobang e reivindicar um governo mais transparente.

Ao declarar lei marcial em Pequim, o líder Deng Xiaoping assinalou que a força armada seria uma opção do governo.

Pesquisadores já mostraram anteriormente que vários comandantes de alto nível resistiram à decisão de usar força militar contra manifestantes, mas Jiang deu novos detalhes sobre a extensão da resistência entre os militares e de como vários oficiais tentaram deixar de cumprir as ordens.

O general Xu Qinxian, líder do temível 38º Grupo do Exército, recusou-se a levar suas tropas a Pequim sem ordens claras por escrito e se internou em um hospital. Sete comandantes firmaram uma carta expressão sua oposição à lei marcial e enviaram a carta à Comissão Militar Central.

“A mensagem era muito simples”, disse Jiang, descrevendo a carta. “O Exército de Libertação Popular é um exército do povo e não deve entrar na cidade nem disparar contra civis.”

O Exército recebeu ordens de esvaziar a praça até a manhã de 4 de junho, usando quaisquer meios necessários. Foram feitos anúncios avisando os habitantes de Pequim a não saírem de suas casas.

Mas Jiang não ficou dentro de casa.

Ela se lembrou das pessoas que vira na praça mais cedo e se perguntou se elas seriam mortas.

Ela partiu para o centro da cidade de bicicleta para assistir à chegada das tropas, ciente de que o confronto representava um momento divisor de águas na história chinesa.

Ela sabia que corria o risco de ser confundida com uma manifestante, porque trajava roupas civis. Mas naquela noite ela não quis se identificar como militar.

“Era minha responsabilidade”, disse Jiang. “Meu trabalho era divulgar as últimas notícias mais importantes.”

Ela seguiu os soldados e tanques em seu avanço para o coração da cidade, derrubando barreiras improvisadas construídas com ônibus e disparando furiosamente contra multidões de moradores revoltados com seu governo por estar usando força armada.

Jiang se abaixou para se esquivar das balas. Saraivadas de tiros e explosões de tanques de gasolina se sucediam, e seu rosto estava ardendo ao calor dos ônibus incendiados.

Perto da meia-noite, Jiang se aproximou da praça da Paz Celestial, onde o brilho dos incêndios destacava as silhuetas de soldados.

Um idoso implorou a ela para não seguir adiante, mas Jiang disse que queria ver o que ia acontecer. De repente, mais de uma dúzia de policiais armados avançaram sobre ela. Alguns a atingiram com cassetetes elétricos. Jiang caiu ao chão com sangue jorrando de sua cabeça.

Mesmo assim, ela não mostrou seu cartão que a identificava como jornalista militar.

“Hoje não faço parte do Exército de Libertação”, pensou. “Sou uma civil como os outros.”

Durante muito tempo ela hesitou em contar sua história. O ferimento que sofreu na cabeça em 1989 deixou uma cicatriz e dores de cabeça recorrentes.

Nos meses seguintes ao massacre ela foi interrogada, e anos depois foi detida e investigada duas vezes devido ao livro de memórias que escreveu.

Jiang deixou as Forças Armadas formalmente em 1996 e desde então viveu discretamente, em grande medida ignorada pelas autoridades.

Em diversas entrevistas que concedeu nas últimas semanas, recordando tudo o que aconteceu, várias vezes sua voz foi perdendo força, e sua personalidade otimista pareceu recuar sob a sombra de suas recordações.

Jiang contou que ao longo dos anos ficou aguardando um líder chinês ir a público dizer ao país que a repressão armada foi um erro catastrófico. Mas esse dia nunca chegou.

Jiang acha que a estabilidade e prosperidade da China serão frágeis enquanto o partido não fizer reparações pelo sangue derramado.

“Tudo isso foi construído sobre uma base de areia”, afirma. “Não há um alicerce sólido. Se podemos negar que aquelas pessoas foram massacradas, então qualquer mentira é possível.”

Tradução de Clara Allain 

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