Descrição de chapéu The New York Times

Twitter cala críticos na China e coloca a culpa em acidente

Bloqueio de contas ocorre dias antes do aniversário do massacre na Praça da Paz Celestial

Paul Mozur
Xangai | The New York Times

Três dias antes do mais delicado aniversário político do calendário chinês, o Twitter suspendeu as contas de alguns comentaristas políticos chineses, no que, segundo a companhia, foi um acidente. A medida mostrou claramente as ramificações políticas globais dos deslizes no Vale do Silício.

A ação do Twitter, que segundo um ativista de direitos humanos afetou mais de cem usuários, ocorreu durante várias horas no final da sexta-feira (31) e início de sábado (1º).

Atingiu defensores dos direitos humanos, ativistas, estudantes universitários e nacionalistas, que usam diferentes táticas para ter acesso ao Twitter, que é proibido na China. Praticamente todo o pequeno e ruidoso mundo do Twitter em chinês foi afetado.

Logo do Twitter na sede da empresa em San Francisco, nos EUA
Logo do Twitter na sede da empresa em San Francisco, nos EUA - Josh Edelson - 4.nov.16/AFP

As contas começaram a desaparecer rapidamente dias antes do 30º aniversário da repressão à manifestação pró-democracia comandada por estudantes na Praça da Paz Celestial em Pequim.

Muitos que estavam online supuseram o pior: um ataque coordenado de Pequim para proteger sua censura sufocante na internet fora de suas fronteiras digitais. O senador americano Marco Rubio (republicano da Flórida) tuitou sua preocupação.

Mas o culpado não foram os censores chineses, e sim os próprios filtros supereficientes do Twitter.

Em um comunicado, a plataforma disse que como parte de seus esforços habituais para conter o spam e comportamentos fraudulentos ela cancelou por descuido um certo número de contas chinesas legítimas.

"Essas contas não foram denunciadas em grupo pelas autoridades chinesas —foi uma ação rotineira de nossa parte", disse a empresa em um comunicado no Twitter. "Às vezes nossas ações rotineiras podem pegar falsos positivos, ou nós cometemos erros. Pedimos desculpas."

Muitos usuários disseram não acreditar que a declaração da rede social contou a história toda. Um defensor dos direitos humanos, cuja conta foi fechada, disse que em protesto ele tuitou uma imagem do pássaro mascote do Twitter pintado de vermelho com estrelas amarelas, para lembrar a bandeira chinesa.

A ação rotineira provocou temores reais. Na China, o aniversário de da Paz Celestial, em 4 de junho, provoca uma dose extra de censura num dos recantos mais controlados da internet mundial.

Ferramentas que ajudam os usuários a driblar a censura estatal para acessar o mundo online mais amplo muitas vezes falham inexplicavelmente.

Na China, os usuários do Twitter enfrentam pressões cada vez maiores. No final de 2018, o Ministério da Segurança Pública começou a visar usuários chineses do Twitter. Embora a plataforma seja bloqueada, muitos usam software de rede virtual privada que permitem o acesso.

Em uma campanha realizada em todo o país e coordenada por uma divisão conhecida como polícia da internet, as autoridades locais detiveram usuários do Twitter e os obrigaram a deletar suas postagens, que muitas vezes incluíam anos de discussão online, e depois as próprias contas. A campanha continua, segundo grupos de direitos humanos.

No passado, o Twitter sofreu ataques por sua surdez política, especialmente no exterior. Depois que a ONU descobriu que a manipulação deliberada da rede social ajudou a incentivar um genocídio em Mianmar, o fundador do Twitter, Jack Dorsey, escolheu o país como destino para um retiro de meditação.

Enquanto esteve lá, ele não quis se reunir com organizadores que combatiam propaganda violenta e rumores perigosos disseminados na plataforma.

O Twitter disse que todos os usuários na China que tiveram suas contas suspensas recentemente deveriam poder recuperá-las, mas um dia depois algumas contas continuavam bloqueadas, segundo Yaxue Cao, editor do ChinaChange.org, site da web dedicado a textos sobre a sociedade civil e direitos humanos.

"Acredito que o Twitter está tentando agir direito", disse Cao. "Não questiono isso. Mas os resultados são duvidosos."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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