Consórcio de jornalistas detalha propina da Odebrecht em 5 países da América Latina

Equador, Peru, Venezuela, Panamá e República Dominicana tiveram obras com corrupção, diz reportagem

São Paulo

Reportagem publicada nesta quarta-feira (26) pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelou mais detalhes de como funcionaria o esquema de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht na América Latina. 

As informações, que teriam sido vazadas de um setor da Odebrecht criado para administrar as propinas pagas pela empresa, foram obtidas pelo site de notícias equatoriano La Posta e publicadas no Brasil pela revista Época e pelo site Poder 360 —todos parceiros do ICIJ. 

As reportagens mostram que as propinas foram pagas em ao menos cinco países da região —Equador, Peru, Venezuela, Panamá e República Dominicana.  

O consórcio disse ter tido acesso a cerca de 13 mil documentos que faziam parte do Drousys, a plataforma secreta de comunicação da empresa e que era usada pelo Departamento de Operações Estruturadas —a divisão responsável pelo pagamento de propinas.

Em dezembro de 2016, a Odebrecht admitiu participar de um grande esquema de corrupção que o Departamento de Justiça dos EUA chamou de "o maior caso de suborno estrangeiro da história". 

Ao todo, a empreiteira brasileira pagou mais de US$ 788 milhões em propinas entre 2001 e 2016, resultando em US$ 3,3 bilhões em benefícios ilícitos, de acordo com o Departamento de Justiça.

Fachada da sede da Odebrecht, no bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo
Fachada da sede da Odebrecht, no bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo - Eduardo Anizelli - 18.dez.16/Folhapress

A Folha já havia revelado que as planilhas de pagamento de propina apresentadas pela empreiteira ao Ministério Público Federal em sua delação premiada revelavam apenas metade dos últimos sete anos de funcionamento do setor da empresa dedicado a repasses ilegais.

As lacunas compreendem o período de 2008 a 2014, no qual faltam planilhas relativas a 178 semanas. Os depoimentos e documentos da delação premiada da Odebrecht também deixaram sem explicação cerca de 600 codinomes de destinatários de propinas e repasses ilegais registrados nas planilhas.

Ao menos 15 perícias oficiais de tribunais de contas e da Polícia Federal contestam a versão da empresa e de seus executivos de que a empresa não superfaturou obras incluídas no acordo de delação assinado com o Ministério Público.

De acordo com a reportagem publicada nesta quarta-feira (26), o esquema ainda incluiria pagamentos a políticos de países da América Latina, envolvendo a realização de grandes obras que não constam dos processos criminais em andamento.

Entre os novos casos revelados pelo ICIJ estão os supostos repasses de verba a mais de uma dúzia de projetos de infraestrutura em países da região, incluindo mais de US$ 18 milhões ligados ao sistema de metrô na Cidade do Panamá e mais de US$ 34 milhões relativos à Linha 5 do metrô de Caracas.

Há ainda o pagamento de mais de US$ 39 milhões em propina em conexão com a construção da usina de energia elétrica Punta Catalina, na República Dominicana. Outras duas investigações anteriores ao caso não apontaram irregularidades e não mencionam tais repasses

A reportagem também dá detalhes de pagamentos somando mais de US$ 3 milhões relativos a um gasoduto peruano. Entre os indicados para receber o dinheiro estaria uma empresa de um político local que recentemente foi acusado de planejar o assassinato de um rival.

O texto cita ainda uma série de emails relativos a pagamentos que um banco de propriedade de operadores financeiros ligados à empreiteira teria feito a empresas fantasma ligadas à construção de uma rede de metrô de US$ 2 bilhões em Quito, capital do Equador. Os documentos não dizem quem recebeu o dinheiro.

Os arquivos vazados também revelam o papel que as offshores teriam desempenhado na divisão de propinas da Odebrecht. 

Embora os beneficiários do suborno estivessem quase todos na América Latina, os pagamentos teriam passado por empresas de fachada e contas bancárias de paraísos fiscais ao redor do mundo, incluindo bancos de Estados Unidos, China, Suíça, Holanda, Emirados Árabes Unidos, Panamá e Antígua. 

O grupo brasileiro afirmou ao ICIJ estar comprometido em cooperar com as autoridades que investigam os crimes associados à empresa. “A Odebrecht continuará empenhada em um processo de colaboração irrestrita com as autoridades competentes”, afirmou a empresa. 

Fundado em 1944, o grupo baiano —que chegou a faturar R$ 132 bilhões e contar com 193 mil funcionários— enfrenta dificuldades desde que os escândalos de corrupção foram revelados pela operação Lava JatoEm 17 de junho deste ano, a Odebrecht pediu recuperação judicial. O grupo tem dívidas que chegam a R$ 98,5 bilhões.

As investigações dos casos de corrupção da empreiteira estão em andamento em vários países, incluindo no Brasil, onde atingiu dezenas de políticos. 

No Peru, três ex-presidentes são investigados por supostamente terem participado do esquema de corrupção. Alejandro Toledo (2001-2006), que fugiu para os Estados Unidos e enfrenta um pedido de extradição; Ollanta Humala (2011-2016), que ficou preso por nove meses com sua esposa Nadine; e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), que renunciou em março de 2018.

O ex-presidente Alan García (1985-1990, 2006-2011) se suicidou em abril deste ano após ser acusado de receber propina da Odebrecht.

As propinas pagas pela empreiteira na Argentina totalizam US$ 35 milhões (R$ 120 milhões), e os repasses foram feitos entre 2007 e 2014. O principal investigado é Julio De Vido, ex-ministro da Infraestrutura e do Planejamento sob os governos de Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015).

Na Colômbia, há 28 políticos e empresários citados nas delações brasileiras e que estão sendo investigados. Alguns já receberam acusações formais e esperam julgamento. Entre os acusados de receber caixa 2 estão, além do ex-presidente e prêmio Nobel Juan Manuel Santos, seu rival na eleição de 2014, o urubista Óscar Iván Zuluaga.

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