Descrição de chapéu The New York Times

Primeira presidente toma posse em uma Eslováquia dividida

Zuzana Caputova chegou ao poder depois de onda de rejeição pública à corrupção

Marc Santora
PEZINOK (ESLOVÁQUIA) | The New York Times

Zuzana Caputova lutava para fechar um aterro sanitário tóxico em sua cidade natal, Pezinok, na Eslováquia, havia anos, quando soube que a esposa de seu colega de trabalho estava com uma forma agressiva de câncer.

Na mesma semana, seu padrinho também descobriu que tinha câncer.

“Parte de minha motivação pessoal para me envolver neste caso foi o medo que tenho de câncer”, ela disse. “E, de repente, na mesma semana, a primeira semana de junho de 2006, esses dois papéis, o pessoal e o profissional, se uniram.”

Essa experiência convenceu Caputova que o mais importante era fazer todo o possível para ganhar o processo e não se preocupar com o resultado, que estava fora de seu controle. 

Zuzana Caputova, primeira presidente mulher da Eslováquia, faz discurso
Zuzana Caputova, primeira presidente mulher da Eslováquia, faz discurso - Radovan Stoklasa/Reuters

Em 2013 ela acabou levando o caso à Corte Europeia de Justiça. Agora ela diz que pretende abordar seu novo cargo com essa mesma atitude.

No sábado (15), Caputova, advogada de 45 anos e novata na política sem nunca antes exercer um cargo público, tornou-se a primeira mulher a tomar posse como presidente da Eslováquia.

Na cerimônia de posse, na capital, Bratislava, ela prometeu continuar a trabalhar pelos marginalizados e despossuídos.

“Ofereço meus conhecimentos, minha emoção e meu ativismo”, ela disse. “Ofereço minha mente, meu coração e minhas mãos. Quero ser a voz daqueles que não são ouvidos.”

Caputova chegou ao poder graças a uma onda de rejeição pública por um sistema político corrupto, alcançando uma vitória vista por muitos como uma crítica ao populismo de viés nativista e iliberal que vem se alastrando pelo continente europeu nos últimos anos.

“Estou feliz não apenas pelo resultado, mas principalmente porque é possível não sucumbir diante do populismo; é possível dizer a verdade e despertar o interesse das pessoas sem lançar mão de um vocabulário agressivo”, disse a seus partidários no discurso de vitória, em março.

Caputova se orgulha de ser pró-europeia. Defende direitos das minorias e não se esquiva de assumir posturas controversas, como seu apoio aos direitos dos gays, incluindo o direito de casais homoafetivos de adotar filhos.

Fato importante, ela pôde defender essas posições de uma maneira que muitos neste país ainda profundamente conservador não sentiram como uma ameaça. Desse modo, é possível que ofereça um modelo a ser seguido por outros.

“Quando falei sobre esses temas, para mim essa atitude é baseada em um valor que acredito ser muito conservador e cristão: a empatia e o respeito por outras pessoas”, disse. “E para mim esse valor conduz à tolerância e ao respeito.”

Por qualquer critério que se possa avaliar, este vem sendo um ano notável neste pequeno país centro-europeu, que emergiu do governo comunista em 1989 e tornou-se independente em 1993, depois de uma separação pacífica da República Tcheca.

A revolta contra o partido governista, o Smer-S.D., começou após o assassinato de um jovem repórter investigativo, Jan Kuciak, e sua noiva, Martina Kusnirova, em fevereiro de 2018. 

Kuciak estava investigando as ligações entre políticos e a máfia italiana ‘Ndrangheta. O empresário Marian Kocner seria acusado mais tarde de ser o mandante de seu assassinato.

Mas isso só aconteceu depois de centenas de milhares de pessoas terem lotado ruas e praças de todo o país nos maiores protestos públicos desde a Revolução de Veludo, de 1989.

Os protestos levaram à queda do governo do primeiro-ministro Roberto Fico e abriram caminho para a eleição de Caputova, um ano mais tarde. Mas a ascensão dela promete ser tudo menos tranquila. 

A nova presidente está prestes a mergulhar em um turbilhão político que colocará sua habilidade e determinação à prova.

O partido de Fico, o Smer-S.D, ainda é a força política dominante no país, e a indignação com o governo que levou muitos eleitores a abraçar a visão reformista de Caputova também fortaleceu a extrema direita nacional, tanto que neonazistas declarados ganharam cadeiras no Parlamento.

Um partidário improvável de Caputova é Ivan Kocner, irmão do empresário acusado de ter ordenado a morte de Jan Kuciak. 

Marian Kocner também possui uma participação no aterro sanitário que Caputova lutou para fechar e no passado chegara a ameaçá-la, não muito sutilmente.

“Me lembro da primeira vez que nos vimos, e ela arregalou os olhos”, recordou Ivan Kocner, 48. “Ela sabia que eu sou irmão de Marian Kocner. E não tinha tido experiências positivas com os Kocner no passado.”

Naquela época, por volta de 2009, Caputova ganhara a reputação de ajudar as pessoas a enfrentar autoridades. 

Ivan Kocner a procurara porque o prefeito de seu pequeno povoado estava tentando vender terrenos públicos a um patrono público. Ele e outras pessoas do povoado queriam barrar a ação do prefeito.

“Éramos um grupo de homens furiosos, muito emotivos”, recordou. “Caputova nos ouviu com calma, captou as informações essenciais e então se concentrou sobre o que precisaria ser feito para resolver o problema.”

Eles ganharam a causa.

Zuzana Caputova caminha ao lado da guarda de honra no palácio presidencial na Eslováquia
Zuzana Caputova caminha ao lado da guarda de honra no palácio presidencial na Eslováquia - Vladimir Simicek/AFP

“Caputova não se deixa influenciar facilmente nem se distrair por coisas externas”, disse. “Vai ser preciso um esforço grande para ela conservar essa característica.”

Quando Ivan Kocner se tornou cineasta documental, seu irmão se cercou de pessoas que encaravam a transição democrática da Eslováquia como uma oportunidade de enriquecer em pouco tempo. Muitas dessas pessoas acabariam se tornando figuras centrais no mundo do crime organizado.

Caputova, que nasceu em 1973, cresceu pensando que o país não poderia ser governado para sempre por um regime comunista.

“Lembro-me de como o ambiente era esquizofrênico”, diz ela. “Um momento você estava conversando francamente com seus amigos e no instante seguinte tinha que esconder suas opiniões de outros grupos.”

Então tudo isso mudou. Podendo viajar sem autorização governamental pela primeira vez, no Natal de 1989 a família de Caputova foi a Viena. “Ainda me recordo das luzes deslumbrantes”, disse.

Ela entrou na faculdade com a intenção de estudar psicologia. Mas esqueceu de levar sua documentação e foi rejeitada pelo departamento de psicologia. Acabou se matriculando no curso de direito.

Ainda na faculdade, ela trabalhou como assistente jurídica no gabinete do prefeito de Pezinok. “Achávamos que precisávamos nos preocupar com algo mais, não apenas com nós mesmos e nossos estudos”, disse. 

Caputova se ofereceu para trabalhar como voluntária com crianças vítimas de negligência e maus-tratos.

Ela deixou a prefeitura em 1998, juntamente com os diretores de vários outros departamentos, após um desentendimento com a administração.

Jaroslav Pavlovic, que conhece Caputova desde que ela era criança, iria trabalhar com ela na prefeitura. Ele conta que, mais tarde, quando participou com ela da luta pelo fechamento do aterro sanitário, Caputova estava enfurecida com a injustiça da situação.

“O modo como o poder público ignorava a vontade da população era simplesmente brutal”, comentou.

Caputova contou que estava grávida quando participou da luta contra o aterro. “O fato de que seria mãe me inspirou a me envolver”, explicou. 

O processo não tardaria a tomar conta de sua vida. No mesmo dia em que entrou em trabalho de parto ela estava completando um documento legal sobre o processo.

Pavlovic disse que Caputova é obstinada e forte. Houve muitos momentos antes de vencerem o processo contra o aterro em que tudo parecia difícil demais e que uma vitória parecia impossível. 

“Caputova era a pessoa que motivava todo mundo”, contou. “E ela própria assumiu boa parte do trabalho.”

Pavlovic disse que Caputova o ajudou a suportar a pressão, ensinando-o a praticar meditação, algo que ela própria vinha fazendo havia algum tempo para lidar com o estresse.

“Procuro meditar diariamente”, disse Caputova. Ela encontrou livros sobre meditação zen pela primeira vez na adolescência e medita regularmente há 13 anos. “Não sei bem como vou conseguir agora”, acrescentou. “Mas a prática regular é importante para mim.”

Pavlovic recorda que Caputova aventou a ideia de se candidatar à Presidência pela primeira vez após uma sessão de meditação, no início do ano passado.

“Ela me perguntou o que eu achava”, disse ele. “Lembro que ela não tinha a menor certeza quanto à ideia de entrar para a política.”

“Minha primeira reação foi dizer ‘isso é fantástico’, é claro”, prosseguiu. “Mas ela me pediu para refletir um pouco.”

Depois de pensar no assunto, ele enviou a Caputova um trecho de seu livro favorito que fala que há dois caminhos que podemos escolher. O caminho do dragão, que voa em direção ao céu. E o do verme, que vai mais fundo na terra.

Para fazer o trabalho de presidente bem, ele disse, Caputova teria que fazer a escolha mais difícil: ser um verme.

“Mas no final do dia da eleição, falei a ela que ela tinha finalmente conseguido juntar os dois caminhos em um só.”

Tradução de Clara Allain

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