Descrição de chapéu The New York Times

Vítimas de Christchurch dizem que governo da Nova Zelândia não cumpriu promessas

Feridos no massacre reclamam de burocracia para parentes e de dificuldades em receber indenização

Charlotte Graham-Mclay
Christchurch (Nova Zelândia) | The New York Times

Temel Atacocugu está aborrecido. Obrigado a passar a maioria dos dias no sofá de sua casa em Christchurch, ele está começando uma longa recuperação dos nove ferimentos de bala que sofreu em março, quando um terrorista atirou contra fiéis muçulmanos nesta cidade da Nova Zelândia.

Por diversas vezes Atacocugu perguntou quando a agência de imigração da Nova Zelândia permitiria que sua mãe e seu sobrinho se juntassem a ele em Christchurch, vindos da Turquia.

Ele precisa que o ajudem a cuidar dele enquanto se adapta à sua nova vida. Mas um mês se passou desde que seus pedidos de visto foram apresentados, e não houve resposta.

Temel Atacocugu, um dos feridos no ataque a duas mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia
Temel Atacocugu, um dos feridos no ataque a duas mesquita em Christchurch, na Nova Zelândia - Matthew Abbott/The New York Times

Roubado do que ele mais gosta de fazer —caminhadas, pesca, esportes, trabalhar em sua lanchonete de kebab— ele começou a se sentir deprimido e desesperadamente solitário. "Isso realmente está me machucando", disse Atacocugu, que vive no país há uma década e tem a cidadania. "Eu sou neozelandês também."

Atacocugu é uma das várias vítimas dos ataques —além das 51 pessoas mortas, mais de 40 ficaram feridas, algumas permanentemente— que dizem que o governo da Nova Zelândia não cumpriu o alto nível estabelecido para ajudá-los a reparar suas vidas.

Três dias depois dos ataques de 15 de março, a primeira-ministra Jacinda Ardern fez um discurso emocionado no Parlamento, enfatizando a obrigação do governo para com os afetados. "Nós sentimos um enorme dever de cuidar deles", disse ela. "Tanto que sentimos a necessidade de dizer e fazer."

Três dias depois, ela proibiu o tipo de armas semiautomáticas que foram usadas no massacre de Christchurch.

Essas palavras e ações provocaram elogios globais ao governo da Nova Zelândia pelo que foi visto como uma resposta rápida e atenciosa ao massacre. Elas também criaram expectativas entre as vítimas —um otimismo que elas dizem estar evaporando diante da burocracia do governo.

Assim como Atacocugu, 43, muitos dizem que o sistema de imigração da Nova Zelândia está se esforçando para responder ao desejo das vítimas de trazer seus parentes ao país, para lhes dar apoio físico e emocional.

Em abril, o governo anunciou o que chamou de oferta "significativa" de vistos de residência permanente para parentes próximos das vítimas e dos sobreviventes, mas os defensores dizem que as regras que regem quem se qualifica são muito rígidas.

As vítimas também criticaram o que chamam de um processo opaco para alocar os fundos arrecadados para os sobreviventes e as famílias dos mortos. O dinheiro está sendo distribuído por uma organização chamada Victim Support [Apoio às Vítimas], que ofereceu seus serviços após os ataques. 

Alguns sobreviventes disseram que as quantias que receberam foram menores do que o esperado, e que o governo deveria ter aumentado o valor.

Talvez o mais frustrante seja o sentimento entre alguns sobreviventes, incluindo Atacocugu, de que as autoridades simplesmente não entendem a escala dos desafios que eles enfrentam: o trauma, os ferimentos, a incapacidade de se sustentar financeiramente.

"Pela primeira vez, comecei a realmente sentir raiva ontem à noite", disse ele na semana passada, lembrando de uma conversa com o funcionário do governo designado para ajudá-lo, que, apesar de bem-intencionado, não tinha as respostas de que precisava.

Enquanto isso, Atacocugu está enfrentando uma espera de quase um ano para que o homem acusado de atirar nele seja levado a julgamento. Em uma audiência em tribunal do réu Brenton Tarrant em abril, Atacocugu foi levado à galeria pública em uma cadeira de rodas, pálido e sem expressão.

Ele estava de volta ao tribunal na sexta-feira passada, caminhando com uma muleta, quando Tarrant se declarou inocente de 92 acusações, incluindo assassinato e terrorismo.

O governo da Nova Zelândia tomou uma série de medidas para ajudar as vítimas e as famílias dos mortos.

O governo designou gestores de casos para cada um dos afetados e cobriu os custos dos funerais dos que foram mortos. Os policiais estão oferecendo aulas de direção para as mulheres cujos maridos morreram. E um programa financiado pelo Estado paga 80% dos ganhos anteriores dos que foram fisicamente feridos.

Isso, no entanto, também tem sido um ponto de discórdia: alguns sobreviventes que não foram feridos e não se qualificam para receber o dinheiro dizem estar muito traumatizados mentalmente para trabalhar e precisam de assistência financeira.

Parte do problema é que o governo, que nunca antes lidou com tal acontecimento na história geralmente pacífica da Nova Zelândia, não foi específico sobre seus planos de longo prazo para garantir o bem-estar das famílias.

Kate Gilmore, vice-comissária de direitos humanos da ONU, que visitou Christchurch em abril, disse que a liderança da Nova Zelândia "se destacaria por algum tempo" no cenário mundial. Mas ela questionou a decisão do governo de priorizar a reforma da lei de armas e uma investigação sobre possíveis falhas de inteligência antes de deixar claro para as famílias como elas seriam cuidadas.

"É fantástico ter a sensação de 'não vamos odiar, vamos amar', mas como isso está acontecendo materialmente para os sobreviventes?", indagou Gilmore.

Megan Woods, legisladora que coordena a resposta do governo aos ataques, disse em um comunicado que a perspectiva de vítimas percorrendo "um emaranhado de diversas agências do governo" foi o motivo de ela defender a atribuição de "gestores de casos individuais para trabalhar com cada uma das famílias afetadas". O governo se recusou a comentar além da declaração.

Os gestores de casos ajudaram, segundo algumas vítimas, mas os profissionais não podem fazer muito diante de obstáculos sistêmicos.

Enquanto o governo agia rapidamente para oferecer vistos de residência permanente aos parentes imediatos das vítimas e dos sobreviventes, Zhiyan Basharati, uma organizadora comunitária, disse que pelo menos a metade dos afetados queria trazer parentes que não se encaixavam nos critérios.

"As categorias são muito estreitas, e cada pessoa tem uma história própria", disse ela. "Se você está incapacitado por causa do tiroteio e seu irmão veio aqui para ajudá-lo, seu irmão também tem uma família."

Muitas das famílias afetadas também questionaram o método pelo qual os mais de US$ 7 milhões arrecadados de doações públicas estão sendo distribuídos.

Os feridos nas mesquitas e as famílias dos que morreram receberam três pagamentos fixos. Mas a organização Apoio às Vítimas só começou recentemente a consultar os afetados sobre como os fundos deveriam ser divididos e quem deveria receber o quê. Resta um pagamento a ser distribuído.

Kenneth R. Feinberg, advogado que administra muitos dos maiores fundos de desastre dos Estados Unidos desde o 11 de Setembro, disse que os problemas são evitáveis.

Ele disse que rapidez, transparência e comunicação são cruciais para fazer que as vítimas se sintam ouvidas. Mas a Nova Zelândia, diferentemente dos Estados Unidos depois de desastres recentes, não nomeou publicamente uma pessoa como a ser responsável pelas decisões de indenização e por garantir que as prioridades sejam cumpridas.

Abdul Aziz, que é originário do Afeganistão, está entre os sobreviventes dos ataques que disseram que está faltando transparência na Nova Zelândia.

"Essas pessoas sentadas em Auckland, ou Wellington, não viram nada; não passaram por nada", disse Aziz, referindo-se aos funcionários da capital e da maior cidade. "E agora estão decidindo pelas vítimas quem são as vítimas reais e quem não são vítimas reais."

Aziz não foi baleado nos ataques, mas foi acreditado por conduzir o atirador para longe da mesquita de Linwood, jogando uma das armas do terrorista no pára-brisa de seu carro. Ele havia atraído o atirador de volta ao estacionamento enquanto seus quatro filhos gritavam por ele dentro da mesquita.

"Durmo duas, três horas por dia desde o incidente", disse. Mas ele recebeu uma pequena fração da indenização que aqueles com lesões físicas receberam, porque ele não sofreu nenhuma.

Atacocugu, por sua vez, disse que não quer ficar em Christchurch por muito tempo. Ele quer comprar uma pequena propriedade em algum lugar tranquilo. Esperava que as promessas do governo se estendessem a ajudar as vítimas a comprar suas primeiras casas.

"Já tive o suficiente, não quero mais isso. Estou tão cansado, mental e fisicamente", disse ele. "Espero que um dia eu possa começar uma vida pacífica novamente."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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