Ataques com armas brancas explodem na Grã-Bretanha

Delitos com faca crescem desde 2015; Londres concentra 1/3 dos casos e jovens estão entre os mais afetados

Lucas Neves
Londres

No domingo (21), um homem na faixa dos 30 anos foi esfaqueado à luz do dia na principal rua de Camden Town, o bairro do norte de Londres que se tornou ponto turístico por ser o QG da cantora Amy Winehouse (1983-2011).

No fim da noite de quinta (25), dois jovens também sofreram ataques a faca no noroeste da capital, e um deles não resistiu. Na tarde daquele dia, dois homens tinham usado facões para tentar roubar o carro em que estavam os jogadores Kolasinac e Özil, do Arsenal. Não houve feridos.

Kolasinac desce do carro para brigar com bandido
O jogador Kolasinac (esq.), do Arsenal, enfrenta ladrão que usou facão para tentar roubar seu carro - Reprodução

Os incidentes, somados às quatro mortes causadas por objetos cortantes registradas em um intervalo de quatro dias de junho, pintam um quadro inquietante —e que abrange toda a Inglaterra e o País de Gales: os delitos que envolvem o uso de arma branca, principalmente faca, crescem acentuadamente desde 2015.

No período de 12 meses encerrado em março daquele ano, o total de ocorrências dessa natureza na região ficou abaixo da marca dos 25 mil. No intervalo correspondente de 2018 e 2019, o índice chegou a 43.516, segundo divulgou há alguns dias o Escritório para Estatísticas Nacionais.

A alta em relação a 2017/2018 foi de 8%. A conta inclui notificações de ataques a faca que deixam ferimentos, aqueles em que havia intenção de machucar, roubos/assaltos (que representam a maior parte dos casos, 42%), estupros e tentativas de abuso sexual.

Já o número de homicídios (que também entram no cômputo geral) recuou 9% em 2018/2019.
Londres concentra um terço de todos os casos, com 169 crimes para cada 100 mil habitantes —pouco mais de 8 milhões de pessoas vivem na capital.

policiais vasculham quintal
Agentes trabalham em rua onde mulher grávida foi esfaqueada até a morte em Londres - Simon Dawson/Reuters

Não se trata, bem entendido, de uma crise de segurança pública na proporção da que se vê no Brasil.
Os jornais britânicos que associam o encolhimento da população da cidade (diferença de 103 mil entre partidas e chegadas em 2018) à violência exageram: a motivação mais frequente para deixá-la é o valor impraticável dos aluguéis.

Dito isso, o tema está suficientemente na ordem do dia para ter sido abordado pelo novo primeiro-ministro, Boris Johnson, em seu primeiro discurso na função, na quarta (24).

O líder conservador prometeu iniciar o recrutamento de 20 mil policiais “nas próximas semanas”. Cortes de quase 20% no financiamento das forças de segurança a partir de 2010, nos governos dos correligionários David Cameron (até 2016) e Theresa May (2016-19), são apontados por alguns especialistas como o gatilho da situação atual.

Um levantamento divulgado em junho pelo jornal The Guardian mostrou que o número de investigadores criminais na Inglaterra e no País de Gales havia caído 28%, na comparação entre 2010-11 e 2017-18. Ato contínuo, a taxa de resolução de homicídios recuou mais de 10% no mesmo intervalo.

A austeridade repercutiu também nos batalhões de polícia comunitária, que têm entre seus propósitos criar elos de confiança com os moradores. Os efetivos diminuíram em média um terço e, em várias localidades, dois terços.

Além do orçamento policial mais enxuto, a professora Daniela Nadj, da Escola de Direito Público da Universidade Queen Mary (Londres), diz que pobreza e rotinas de agressões domésticas contribuem para agravar o cenário.

“Em um meio em que muitas vezes o pai está ausente e no qual faltam modelos, ter uma faca pode representar algo ‘cool’, a prova de fogo antes de ser aceito em um grupo”, diz.

Para ela, trata-se também de um problema educacional. As escolas britânicas recorrem com frequência excessiva à expulsão de alunos, avalia a professora, segundo a qual 50% dos presos no Reino Unido foram em algum momento afastados de uma instituição de ensino.

Os centros da juventude em que estudantes praticavam esportes após o colégio ou recebiam ajuda no dever de casa também entraram na tesoura dos governos conservadores.

“Muitos ficaram sem ter aonde ir, daí a atração exercida pela droga e pela possibilidade de pertencimento a uma gangue. Toda a adrenalina e as frustrações que eles canalizavam para atividades físicas nesses clubes pós-horário de aula ficaram retidas.”

O resultado disso é que subiu sensivelmente nos últimos anos o número de crianças e adolescentes admitidos em hospitais britânicos com ferimentos a faca.

Segundo o Serviço Nacional de Saúde, houve, em 2018, 1.012 atendimentos dessa natureza em que os pacientes tinham de 10 a 19 anos —um aumento de 54% em relação a apenas seis anos antes.

Nadj se mostra pouco confiante na capacidade da gestão Johnson de atacar as causas desse fenômeno. Ela diz esperar da nova ministra do Interior (responsável pela segurança pública), Priti Patel, um acirramento do perfil “lei e ordem” adotado por seu antecessor no cargo, Sajid Javid.

“Mais policiais, mais repressão e mais prisões, sem dar atenção ao social, não vão deter ninguém”, diz. “A questão é como cultivar a confiança das pessoas na polícia, especialmente de jovens negros, muito mais propensos a ter de passar por revistas arbitrárias do que outros grupos.”

A pesquisadora sugere olhar para o norte da ilha britânica em busca de soluções: a Escócia reduziu seus índices de criminalidade ao encará-la como um dilema policial, mas também de saúde pública.

Assim, médicos foram despachados para escolas a fim de narrar suas experiências pouco agradáveis no atendimento a vítimas de ferimento a faca, e movimentos sociais conseguiram emplacar uma norma que fixava um preço mínimo para a bebida alcoólica —estudos haviam estabelecido a relação desta com a irrupção da violência.

Deu certo. Se em 2004/05, quando da implantação da chamada Unidade de Redução da Violência, tinha havido na Escócia 137 homicídios, o total cairia para 59 em 2018 (uma queda de 57%).

Violência na Grã-Bretanha
Homicídios com uso de faca diminuem, mas roubos e ataques puxam alta do índice total
 
43.516*
crimes com arma branca foram registrados na Inglaterra e no País de Gales entre 2018 e 2019
 
8%
crescimento em relação ao período equivalente em 2017/18
 
25 mil
foi o número de ocorrências registradas há apenas 4 anos, no intervalo abr.2014/mar.15 
 
42%
é a porcentagem de roubos e assaltos, em 2018/19, em relação ao total de casos envolvendo uso de arma branca; trata-se do delito mais comum
 
169
para cada 100 mil habitantes é a proporção de episódios de violência com arma branca em Londres, em 2018/19
 
9%
é a queda na quantidade de homicídios perpetrados com arma branca nos dois países em 2018/19, em relação ao período anterior

Fonte: Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unido
*Os números não incluem os casos registrados em Manchester e região metropolitana

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