Descrição de chapéu The New York Times

Imigrantes recebem multas de centenas de milhares de dólares nos EUA

Funcionários afirmam que governo pode impor sanções a imigrantes com ordem de deportação

The New York Times

Edith Espinal passa os dias rezando, lendo e, quando se sente corajosa, fazendo pequenos passeios acompanhados perto da igreja menonita em Columbus, em Ohio, onde vive há 21 meses.

Líderes da igreja têm protegido Espinal, que entrou ilegalmente nos Estados Unidos há mais de duas décadas, enquanto ela luta contra uma ordem de deportação.

Mas no início desta semana a secretária da igreja entregou a Espinal uma carta da Polícia de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), dizendo que ela havia "voluntariamente" se recusado a deixar o país, "conspirado" para impedir sua deportação e devia ao governo quase US$ 500 mil (cerca de R$ 1,9 milhão).

"Não temos tanto dinheiro", disse Espinal, 42, na quarta-feira (3), sobre a conta de US$ 497.777. "Nunca imaginei que eles nos enviariam isso."

A mexicana Edith Espinal na igreja menonita Columbus, em Ohio
A mexicana Edith Espinal na igreja menonita Columbus, em Ohio - Maddie McGarvey/The New York Times

Espinal está entre vários imigrantes que vivem em locais de culto religioso que receberam avisos semelhantes nesta semana —a mais recente medida tomada pelo governo Donald Trump para reprimir a imigração ilegal.

Citando a Lei de Imigração e Nacionalidade, os funcionários da ICE disseram que a agência tem o direito de impor multas civis, de até US$ 799 por dia, aos imigrantes que receberam ordem de remoção ou que não deixaram o país.

Autoridades disseram que o órgão começou a emitir esses avisos em dezembro, embora não tenha ficado claro na quinta-feira (4) quantos já foram enviados.

"A ICE está comprometida a usar vários métodos de aplicação da lei —incluindo prisão, detenção, monitoramento tecnológico e penalidades financeiras— para fazer cumprir a lei de imigração dos Estados Unidos e manter a integridade das ordens emitidas pelos juízes", disse Carol Danko, porta-voz do órgão.

No início desta semana, o presidente Donald Trump —que assinou logo após sua posse uma ordem executiva para que o Departamento de Segurança Interna cobrasse todas as multas e penalidades de qualquer pessoa que tivesse entrado ilegalmente no país— disse que seu governo iniciaria batidas anti-imigração depois do 4 de Julho [feriado da independência].

O lote de cartas desta semana pegou de surpresa pastores e ativistas de imigração, já que casas de culto, assim como hospitais e escolas, geralmente foram excluídas das incursões.

Na Igreja Presbiteriana de St. Andrew, em Austin, Texas, Hilda Ramirez Mendez também recebeu um aviso nesta semana dizendo que estava sob ordem final de remoção e que seria multada em US$ 303.620.

Ela mora há algum tempo na igreja com seu filho de 13 anos, cujo pedido de situação especial para imigrantes juvenis está pendente.

Ela teve o asilo negado em 2015, e, embora a ICE tenha inicialmente permitido que ficasse, seu status de ação proposta não foi prorrogado em março, segundo sua advogada, Stephanie Taylor.

"O governo Trump está tentando encontrar uma maneira de tirá-los da igreja, algo de que nunca ouvi falar", disse Taylor, acrescentando que Ramirez não tem antecedentes criminais. "Ela está apavorada."

Em Charlottesville, na Virgínia, na Igreja Metodista Unida Wesley Memorial, Maria Chavalan recebeu um aviso de que seria multada em US$ 214.132.

Ela mora na igreja desde setembro, na esperança de obter asilo como membro de uma comunidade étnica protegida na Guatemala.

O reverendo Isaac Collins, pastor da igreja, disse que as autoridades alfandegárias haviam recentemente aumentado a "pressão psicológica" na tentativa de forçar Chavalan a deixar a igreja.

Ela não tem antecedentes criminais e teve a deportação decretada depois de perder uma audiência no tribunal.

Collins disse que Chavalan usa uma tornozeleira eletrônica que as autoridades fazem zumbir tarde da noite e que ela frequentemente recebe ligações para perguntar onde está, embora seja rastreada por GPS.

"A ideia é fazê-la se sentir insegura, vigiada", disse. "É isso o que o aviso de intenção de multa deve fazer."

Na Carolina do Norte, na Capela Menonita Fellowship de Chapel Hill, Rosa Ortez Cruz, mãe de quatro filhos, recebeu uma carta dizendo que seria multada em US$ 314.007.

Ortez Cruz, 38, está em processo de remoção depois que uma briga com seu filho então adolescente levou a uma acusação de contravenção criminal, na qual entrou com um pedido Alford, o que significa que se declarou culpada, mas mantinha a inocência, segundo seus advogados. Ela vive em uma igreja desde a última primavera.

"Ainda estamos em choque", disse o pastor da igreja, Isaac Villegas.

Os imigrantes têm 30 dias para responder às cartas da ICE. Advogados e ativistas em cerca de sete estados, de Utah ao Texas e Virgínia, disseram que estão lutando para colaborar em uma resposta coordenada e trabalham para confirmar quantos outros imigrantes que vivem em locais de culto receberam avisos.

Em todo o país, mais de 40 imigrantes estão vivendo em locais de culto, de acordo com o Serviço Mundial de Igrejas, organização que monitora os casos.

Alguns advogados disseram estar preocupados que as multas fizessem parte de uma estratégia do governo Trump para atingir os sistemas de apoio aos imigrantes.

No início deste ano, um voluntário do No More Deaths [Chega de Mortes], um ministério da Igreja Unitária Universalista de Tucson, no Arizona, enfrentou acusações criminais por oferecer água e comida aos migrantes.

O caso terminou em um julgamento suspenso, mas promotores federais anunciaram nesta semana que pretendem repetir a ação em novembro.

Outros estão examinando uma estratégia legal que consideraria as multas como "multas excessivas", proibidas pela Oitava Emenda da Constituição.

A deputada democrata Joyce Beatty, de Ohio, que representa a área de Espinal, chamou as multas de "mesquinhas e impiedosas".

Ela disse que enviou cartas a Trump e ao Departamento de Segurança Interna na quarta-feira, pedindo-lhes para rescindir a multa de Espinal e permitir que ela fique em Columbus.

O senador republicano Rob Portman, de Ohio, disse que seu gabinete está "garantindo que os fatos de seu caso fossem ouvidos pelas agências federais relevantes".

Por enquanto, o caso de deportação contra Espinal, cujo pedido de asilo foi negado em 2017, foi para o Tribunal de Apelações do 6º Circuito dos EUA, em Cincinnati.

Quando Espinal deixou o México com seu pai, em 1995, na adolescência, ela estava fugindo da violência e do abuso, segundo sua advogada, Lizbeth Mateo.

"Se ela for removida, voltará a um lugar onde estará sujeita a abuso de novo, sua vida estará em perigo", disse Mateo, acrescentando que Espinal não tem antecedentes criminais.

Dentro da Igreja Menonita de Colombo, Espinal, que é católica, disse que reza à Virgem de Guadalupe, santa padroeira do México, para ter força e coragem para continuar lutando.

Ela disse que faz parte de um grupo de mulheres em todo o país que vivem em locais de culto e se comunicam regularmente, perguntando sobre seus filhos e como eles estão se saindo enquanto permanecem confinados.

Espinal diz que aguarda ansiosamente os finais de semana, quando seus filhos vêm passar a noite e assistem a filmes juntos.

Dois de seus três filhos são cidadãos americanos, e o marido e o terceiro filho também têm pedidos de asilo pendentes, disse.

"Estamos prontos para fazer o que for preciso para manter a família unida", disse na quarta-feira, acrescentando: "Não sei se posso fazer isso sozinha. Quando a comunidade me apoia, sinto-me mais forte".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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