Não confiamos nos militares do Sudão, diz porta-voz de protestos

Para Samahir Elmubarak, resistência pacífica reduz risco de país ter guerra como as da Primavera Árabe

Daniel Avelar
Amsterdã

Os manifestantes que tomaram as ruas do Sudão nos últimos meses esperam que a transição para a democracia ocorra de maneira pacífica, ao contrário dos levantes da Primavera Árabe que mergulharam países da região em conflitos sangrentos.

É o que diz a farmacêutica Samahir Elmubarak, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses (SPA, na sigla em inglês), uma das principais organizações à frente da revolta popular no país norte-africano.

Samahir Elmubarak, porta-voz da SPA, um dos principais grupos à frente da revolta no Sudão
Samahir Elmubarak, porta-voz da SPA, um dos principais grupos à frente da revolta no Sudão - Arquivo pessoal

Descrita pela revista The Economist como “ponta de lança da revolta” no Sudão, a SPA reúne as maiores organizações profissionais do país, incluindo os sindicatos de médicos, jornalistas e advogados. Além disso, é um dos principais grupos dentro da Forces for Freedom and Change, coalizão oposicionista que negocia com as autoridades militares.

 

“Sabemos que os custos de uma guerra são muito altos. O povo fez uma escolha bastante consciente sobre a resistência não violenta”, disse Elmubarak, 29, por telefone.

Iniciada em dezembro, a onda de protestos no Sudão levou à derrubada do ditador Omar al-Bashir em 11 de abril, encerrando 30 anos de regime autoritário. As manifestações seguem acontecendo para exigir que as Forças Armadas, encarregadas da transição de poder, transfiram o poder para um governo civil. Um acordo sobre o tema foi alcançado na última quinta-feira (4).

Como a revolução afetou sua vida até agora? 

A revolução mudou minha perspectiva sobre o conceito de liberdade. Por muito tempo acreditamos que a possibilidade de transformação fosse algo distante, mas começamos a perceber que a mudança está ao nosso alcance. Apenas precisamos de força de vontade, força e resiliência para nos organizar.

As pessoas têm medo de dar o primeiro passo e pensam que sozinhas não podem fazer a diferença. Mas quando um grupo pequeno começa a ver que a mudança pode acontecer, outras pessoas se juntam. Os locais de protesto são um caldeirão onde compartilhamos nossas histórias, experiências e nossos sonhos para um novo Sudão. É como uma utopia.

Injustiça, corrupção e ditadura não são as regras da vida. Merecemos mais do que isso.

Por que a população apoia as demandas da SPA? 

Sindicatos têm longa história no Sudão. Além de defender os direitos dos trabalhadores, esses grupos cumpriram papel importante na resistência contra o sistema colonial e a ditadura. 

Os 30 anos do regime de Omar al-Bashir quebraram os principais sindicatos, e suas lideranças foram perseguidas, presas e torturadas. No passado, houve outras ondas de protesto, mas elas eram desorganizadas. A última revolta, em setembro de 2013, terminou com mais de 200 mortos.

Desta vez, a SPA encontrou grande aceitação por parte da população, que via com desconfiança as lideranças tradicionais após tantos anos de ditadura. Quem começou o movimento foi o povo, a SPA só buscou organizá-lo: protestos espontâneos, greves e outros atos de desobediência civil.

Que papel as redes sociais tiveram nos protestos?

No começo, as redes ajudaram a garantir o anonimato dos integrantes da SPA devido aos riscos a nossa segurança. Muita gente foi presa nos primeiros dias de protesto. Além disso, a mídia tradicional vinha divulgando apenas a mensagem do regime, e a mídia internacional demorou meses para prestar atenção no que estava acontecendo aqui.

Depois do massacre do dia 3 de junho, o regime derrubou o acesso à internet. Muita gente achava que seria difícil organizar novos protestos, mas as pessoas recorreram a meios tradicionais de mobilização, distribuindo panfletos e mandando mensagens de texto pelo celular para convocar o povo para novas manifestações.

Mesmo sem a ajuda da internet, conseguimos reunir multidões em todo o país em 30 de junho, no maior protesto da história do Sudão. As pessoas sabiam que havia o risco de não saírem vivas, mas resistiram e mostraram sua força ao tomarem as ruas pacificamente.

Em que medida você acredita que os militares irão cumprir sua parte no acordo e transferir o poder para um governo civil nos próximos anos? 

Confiança é algo muito difícil, principalmente desde o massacre de 3 de junho. As atrocidades cometidas ali são incomparáveis. Agora, é importante que as pessoas sigam em frente. Nossa revolução não termina por causa de um acordo, ela só estará completa quando um governo democrático for eleito pelo povo.

Não confiamos nas Forças Armadas, confiamos que o povo do Sudão protegerá a revolução. Para nós, este período de transição é importante para reconstruirmos nossas instituições e nossa sociedade civil. 
Ao fim deste período de transição de três anos, estaremos prontos para eleger um governo civil e democrático. Será um resultado justo independentemente de quem ganhar.

O que deveria acontecer com Omar al-Bashir, acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional?

Agora que está fora do poder, Bashir está sendo julgado por corrupção e lavagem de dinheiro. Isso é um absurdo, ele não deveria ser julgado apenas por estes crimes menores, que não são nada perto dos crimes de guerra e das atrocidades que cometeu.

Um dos elementos importantes do acordo de transição é a garantia de que as pessoas que sucederam Bashir sejam julgadas pelo que fizeram após sua deposição. Qualquer um que tenha cometido qualquer atrocidade contra os manifestantes deverá ser julgado de maneira imparcial.

O Sudão participa da intervenção liderada pela Arábia Saudita no Iêmen, contribuindo para o sofrimento de milhões de civis. Na sua opinião, qual deveria ser o papel do Sudão nesse conflito?

 

É claro que o que está acontecendo no Iêmen é inaceitável, nós não aceitamos nenhuma forma de atrocidade. Mas não cabe a nós agora decidir sobre isso agora.

Esta questão deverá ser abordada pelo novo governo. Os ministérios de Relações Exteriores e da Defesa deverão trabalhar diplomaticamente para corrigir quaisquer erros cometidos pelo regime anterior. 

Durante a Primavera Árabe, levantes parecidos aos do Sudão desaguaram em guerras sangrentas. Qual é o risco de as manifestações desembocarem em um conflito armado? 

Acredito que há poucas chances de algo deste tipo acontecer no Sudão, pois os manifestantes adotaram estratégia pacífica desde o início.

Se fosse haver uma escalada, isso teria acontecido logo após o massacre de 3 de junho. Recuperar-se deste trauma é um processo árduo, mas sabemos que os custos de uma guerra são muito altos. O povo fez uma escolha bastante consciente sobre a resistência não violenta.

Qual deve ser o papel da comunidade internacional? 

Deve haver pressão para que nenhuma forma de regime militar seja reconhecida. Vários países têm democracia apenas no papel, nos quais eleições são só uma formalidade para manter certas pessoas no poder. 

A comunidade internacional pode ajudar a proteger a democracia ao monitorar desvios que venham a ocorrer. Isso serve para todas as democracias sob ameaça, não apenas no Sudão.

Cronologia dos protestos no Sudão

19.dez.18 
Manifestações têm início na cidade de Atbara, bastião oposicionista no nordeste do país, e se espalham para outros locais

11.abr.19 
Em meio à pressão das ruas, Forças Armadas depõem o ditador Omar al-Bashir, pondo fim a 30 anos de regime autoritário

3.jun.19 
Militares abrem fogo contra acampamento de manifestantes em Cartum. Oposição conta mais de cem mortos, e as autoridades bloqueiam acesso à internet

30.jun.19 
Multidões tomam as ruas na ‘marcha dos milhões’ em diferentes partes do país

4.jul.19 
Governo e líderes da oposição chegam a um acordo que prevê transição completa para governo civil em até três anos

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