Descrição de chapéu The New York Times

Otan avalia reforçar defesa contra mísseis e arrisca tensões com Rússia

Moscou considera defesas como ameaças a seu arsenal nuclear e fonte de instabilidade na Europa

Bruxelas | The New York Times

Chefes militares da Otan estão avaliando se devem modernizar suas defesas, tornando-as capazes de abater mísseis nucleares de alcance intermediário russos recém-mobilizados, depois que um tratado de armas se encerrar no mês que vem, segundo três autoridades europeias.

Qualquer modificação na missão declarada do atual sistema de defesa antimísseis da Otan —que visa ameaças de fora da região, como o Irã— provavelmente dividiria os países membros da aliança ocidental e enfureceria a Rússia, que há muito tempo considera o local de defesa antimísseis da Otan na Romênia e um em construção na Polônia como ameaças ao seu arsenal nuclear e uma fonte de instabilidade na Europa.

"Seria um ponto sem retorno para os russos", disse Jim Townsend, ex-autoridade do Pentágono e especialista na aliança. "Seria uma escalada real."

Os Estados Unidos anunciaram em fevereiro a intenção de se retirar do Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance (INF), assinado em 1987 nos anos finais da Guerra Fria, citando os anos de violações de Moscou. A medida é apoiada pela Otan. 

O tratado proíbe mísseis com alcance aproximado entre 500 e 5.500 quilômetros da Europa e será encerrado em 2 de agosto, a menos que Moscou e Washington cheguem a um acordo para reanimá-lo nas próximas semanas.

Os embaixadores da Otan farão uma última tentativa de pressionar a Rússia a retirar seus novos mísseis de cruzeiro e renovar o tratado na sexta-feira (12) em Bruxelas.

As discussões sobre novas medidas de defesa antimísseis estão nas etapas iniciais, alertaram as autoridades. A principal porta-voz da Otan, Oana Lungescu, negou que estejam em andamento estudos sobre a viabilidade de melhorar as defesas contra mísseis balísticos. Segundo ela, a aliança deixou claro várias vezes que o sistema de defesa antimísseis balísticos existente "não é projetado nem dirigido contra a Rússia".

Mas a aliança está considerando novas defesas aéreas e de mísseis, anunciou o secretário-geral Jens Stoltenberg na semana passada, sem revelar detalhes. E, dada a crescente ameaça dos mísseis de cruzeiro russos, os membros da Otan devem ordenar que a aliança estude as opções de defesa, seja após a reunião dos ministros da Defesa em outubro ou a cúpula dos líderes em dezembro, afirmou um alto funcionário da aliança.

Tal ordem exigiria que os 29 aliados concordassem. Mas algumas autoridades acreditam que, se o tratado terminar, os aliados aceitarão pelo menos examinar as opções. A autoridade disse que se os aliados não conseguirem concordar em mudar a missão dos locais de defesa de mísseis balísticos talvez estejam abertos a um acordo que introduziria novos sistemas de defesa contra mísseis de cruzeiro russos.

A pressão por melhores defesas é alimentada pela mobilização pela Rússia de uma nova classe de mísseis, bem como o esperado fim do tratado —vítima da deterioração das relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Os países do Leste Europeu, especialmente a Polônia e os países bálticos, acreditam estar sob crescente ameaça de prepotência nuclear por Moscou e estão ansiosos para ver a aliança desenvolver novas defesas.

Com base em informações de várias agências aliadas, os países da Otan criaram um consenso de que os novos mísseis de cruzeiro russos com capacidade nuclear representam uma ameaça. Alguns analistas americanos e europeus temem que os mísseis possam dar vantagem significativa a Moscou, usando a ameaça de ataque para forçar outros países a se desmobilizarem ou cederem às demandas russas durante uma crise.

A relação entre a Rússia e o Ocidente caiu vertiginosamente desde a anexação da Crimeia por Moscou em 2014. A desestabilização da Ucrânia pela Rússia obrigou a aliança a reforçar seu flanco oriental com novas mobilizações de tropas e exercícios militares.

Moscou respondeu com suas próprias melhorias militares, incluindo a mobilização de uma nova classe de mísseis de cruzeiro baseados em terra que, segundo o Ocidente, violam o tratado. A interferência da Rússia na eleição americana, sua intervenção na Síria e a tentativa de envenenamento de um ex-oficial de inteligência russo na Grã-Bretanha aumentaram ainda mais as tensões.

Qualquer movimento da Otan para redirecionar suas defesas antimísseis ou expandir seu sistema com novas capacidades pode ser um ponto de inflexão. Os russos nunca acreditaram na negativa da aliança de que seu sistema interceptador não seria utilizado para derrubar mísseis russos.

O sistema continua sendo uma irritação constante para Moscou, que questionou por que a aliança ainda precisa disso depois que o Irã concordou em 2015 em suspender seu programa de enriquecimento nuclear e ameaçou direcionar mísseis aos locais de interceptação da aliança.

Membros da embaixada da Rússia na Otan não retornaram pedidos de comentários.

Na semana passada, ministros da Defesa aliados aprovaram uma análise das possíveis respostas à mobilização russa dos chamados mísseis de cruzeiro SSC-8, arma que a Otan acusa Moscou de adotar, violando o tratado, segundo três funcionários da Otan. Elas incluem expandir os exercícios de dissuasão existentes e divulgar os novos exercícios nucleares da aliança, que são altamente secretos.

Chamar mais atenção para os exercícios nucleares aliados e o arsenal ajudaria a dissuadir Moscou de usar suas próprias armas, na opinião de algumas autoridades.

A Otan provavelmente precisará examinar mais amplamente de que defesas precisa contra os mísseis de cruzeiro. Esse trabalho, se for aprovado neste ano, incluiria explorar a possibilidade de atualizar seus locais de radar e interceptador Aegis Ashore na Romênia e na Polônia, e analisar novas capacidades de radar ou defesa aérea contra os mísseis de cruzeiro.

A atualização das capacidades existentes de defesa contra mísseis balísticos, incluindo os dois locais Aegis Ashore, seria complexa. Os sistemas Aegis da Otan na Romênia e na Polônia são incapazes de disparar o interceptor usado para atacar mísseis de alcance intermediário. E, dadas as suas posições próximas à Rússia, os sistemas têm significativamente menos tempo para detectar, bloquear e tentar interceptar os mísseis.

A Agência de Defesa de Mísseis dos Estados Unidos examinou como os atuais sistemas de defesa Aegis Ashore poderiam ser atualizados com novos radares, software e interceptadores para permitir ataques a mísseis balísticos intermediários e potencialmente mísseis de cruzeiro, segundo autoridades atuais e passadas.

Tecnologias mais novas, como projéteis de alta velocidade e lasers de energia dirigida, provavelmente fornecerão uma defesa muito melhor em longo prazo, disseram especialistas. As defesas contra mísseis balísticos interceptam mísseis na atmosfera, enquanto os mísseis de cruzeiro voam relativamente baixo em relação ao solo.

Colocar novos sistemas para defender-se de uma ameaça de mísseis de cruzeiro, em vez de atualizar a defesa de mísseis balísticos existente, também pode ser politicamente mais palatável. "Se a Otan quiser modernizar seus sistemas, poderá minar sua antiga afirmação de que os lançadores não foram feitos para combater a Rússia", disse Bruno Lété, analista de defesa no escritório do Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos, em Bruxelas.

Mas muitos europeus se veem na linha de fogo com as novas implantações de mísseis de cruzeiro russos, segundo ele. "Há um claro incentivo para a Otan ver se eles podem atualizar os sistemas existentes para combater os mísseis intermediários russos", disse Lété. "Do ponto de vista militar, esse seria um passo relativamente simples, decisivo e econômico."

A doutrina militar russa, de acordo com estrategistas militares dos Estados Unidos e da Europa, concentra-se cada vez mais no uso de ataques nucleares limitados para acabar rapidamente com um potencial conflito em favor de Moscou. Tal uso de armas nucleares para um efeito de campo de batalha é impensável para os políticos europeus, e tornou algumas autoridades aliadas mais dispostas a examinar a praticidade de usar o sistema de defesa de mísseis existente para se defender da Rússia.

"Queremos ter certeza de que os russos não querem exercer chantagem nuclear, e a defesa antimísseis é o caminho para eliminar essa intimidação, para impedir a intimidação", disse Townsend.

As autoridades americanas se esforçaram para tentar impedir os mísseis russos de médio alcance ao desenvolver rapidamente seu próprio míssil de cruzeiro lançado do solo, uma classe proibida pelo tratado INF. Muitos na aliança se opõem ao emprego de novas armas ofensivas. Os planejadores da Otan não esperam que uma diretriz acrescente capacidades ofensivas, apenas amplie as medidas defensivas, disse o alto funcionário aliado.

Desde abril, o local da Aegis na Romênia passou por uma atualização. As autoridades disseram que ela estava projetada há muito tempo e não envolveu recalibrar o sistema.

Se a aliança quiser enfrentar mísseis de cruzeiro russos, talvez faça mais sentido implantar novas tecnologias como lasers de energia dirigida, microondas ou medidas de guerra eletrônica, disse Mark Gunzinger, analista do Centro de Avaliações Estratégicas e Orçamentárias.

"Investimos em defesas contra mísseis balísticos, mas, francamente, os mísseis de cruzeiro são uma ameaça crescente e nós simplesmente ainda não temos capacidade para lidar com eles", disse Gunzinger.

Mesmo que a aliança opte por não atualizar seus locais da Aegis Ashore, segundo Gunzinger, as novas armas da Rússia vão forçá-la a lançar novas defesas aéreas e de mísseis. Sem elas, seria difícil reforçar as tropas da linha de frente durante um conflito, disse ele.

"Dissuadir a Rússia vai exigir uma postura diferente na Europa", afirmou Gunzinger. "Serão necessárias defesas aéreas e mísseis para combater seus disparos, serão necessárias capacidades de guerra eletrônica, ataques de precisão com longo alcance."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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