Egípcio tenta retomar vida enquanto é investigado pelo FBI por terrorismo

No Brasil há 1 ano, Mohamed Ibrahim viu conhecidos cogitarem entregar endereço por recompensa

Flávia Mantovani
São Paulo

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"Não reparem na bagunça. Faz tempo que não entramos aqui”, diz Hajar, ao entrar em seu apartamento em um condomínio de Guarulhos. Em meados deste mês, ela e o marido deixaram o pequeno imóvel recém-reformado, onde moram de aluguel, para viver temporariamente na casa de parentes e amigos.

“Os vizinhos exigiram nossa expulsão”, diz ela, que usa um vestido preto longo e os cabelos cobertos por um lenço marrom. “O síndico nos apoiou, mas preferi sair porque não me sinto bem. Nossa vida virou um inferno.”

Mohamed Ibrahim, 42, no apartamento onde mora em Guarulhos; vizinhos pediram a expulsão do casal após acusação do FBI - Zanone Fraissat/Folhapress

Hajar, 25, é casada com Mohamed Ahmed Elsayed Ahmed Ibrahim, egípcio de 42 anos que vive no Brasil e teve seu nome incluído na lista de procurados do FBI (a polícia federal americana), que o investiga por suposta ligação com a rede terrorista Al Qaeda

A brasileira, que foi criada em uma família evangélica na região do ABC paulista e se converteu à religião muçulmana em 2017, aceitou dar entrevista pela primeira vez, com a condição de ter apenas seu nome islâmico divulgado.

O casal se conheceu numa mesquita de São Paulo em abril de 2018 e se casou dois meses depois —o pouco tempo de compromisso é comum entre praticantes da religião. Após a divulgação do nome de Ibrahim nos noticiários, no último dia 12, eles tiveram a rotina transformada.

Além de deixarem a casa onde moravam, dizem que Ibrahim passou a tomar remédios para dormir e a apresentar problemas de saúde: os vômitos constantes, segundo o casal, o fizeram perder 17 kg em três semanas —pesava 84 kg, agora está com 67 kg.

“Lembro do exato momento em que apareceu o rosto dele no Jornal Nacional”, conta Hajar. “Olhei para a TV e vi o brasão do FBI, a reportagem dizendo que é armado e perigoso. Eu me sentia flutuando.”

Dali em diante, o celular dos dois não parou mais de tocar. Conhecidos perguntavam para amigos deles se receberiam recompensa caso entregassem o endereço dele, conta Hajar.

No dia seguinte, Ibrahim entrou em contato com a Polícia Federal e marcou de depor dois dias depois. Na verdade, ele havia estado na PF no próprio dia 12, pouco antes da divulgação da lista do FBI, para protocolar um recurso ao pedido negado de refúgio no Brasil.

 

No dia 19, o egípcio foi ouvido pelo FBI na sede do Ministério Público Federal. Depois disso, seu nome foi retirado da lista de procurados, já que ele não estava foragido. A investigação na polícia americana continua e é sigilosa.

Também há um inquérito sob sigilo na PF brasileira desde o início do ano. De acordo com fonte ligada ao caso, essa investigação foi aberta a pedido do FBI e até o momento se mostrou inconclusiva.

Para a polícia americana, Ibrahim é suspeito de ter auxiliado no planejamento de ataques contra os EUA e de oferecer apoio material à Al Qaeda. A lista de procurados não explicava de quais ataques o egípcio teria participado.

No depoimento, o FBI deu a entender que suspeita que uma empresa de transporte da qual é proprietário na Turquia, onde morou antes de vir para o Brasil, levasse terroristas para áreas de conflito, como a Síria. Ibrahim nega, e o advogado dele diz que não foram apresentadas provas.

“Mostraram fotos de suspeitos dizendo que foram encontradas no celular do meu cliente, mas eram fotos impressas. Como saber se vieram do celular dele?”, diz Musslim Ronaldo Vaz. “Também apresentaram comprovantes de transferências, dizendo que ele recebeu dinheiro de terroristas. Mas apagaram os nomes de quem enviou e de quem recebeu. Não havia nenhuma vinculação com o Mohamed.”

Ibrahim diz que tem contas no Egito, na Turquia e no Brasil. “Disse a eles: ‘Me mostrem US$ 1 de transferências minhas para pessoas más’. Me mostraram uma foto do Osama bin Laden e perguntaram se eu o conhecia. Eu ri: ‘Qualquer criança conhece esse homem. Eu o conheço, mas nunca o encontrei’.”

Na semana passada, o FBI confirmou à Folha que retirou o nome do egípcio da lista de procurados, mas informou que não faria mais comentários sobre o caso.

A Folha também questionou Ibrahim sobre quatro imagens compartilhadas em um post no Twitter que mostrariam ele com um fuzil AK-47 e uma pistola ao lado de um homem encapuzado.

A conta, anônima e criada neste mês, marcou no post esta repórter, além de outros jornalistas e políticos como o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro.

​Ibrahim afirma que uma das imagens foi mostrada pelo FBI em seu depoimento e que são montagens com seu rosto retirado de fotos pessoais. Segundo ele, as originais foram tiradas na Malásia, onde ele caçou patos com balas de festim, e estão no celular que foi apreendido pela PF. Seu advogado afirma que vai pedir acesso a esses registros.

“Nunca machuquei nenhuma pessoa, até porque minha religião diz que você não pode ferir ninguém. Esses grupos [terroristas] matam muçulmanos, poderiam me matar, matar a minha família. Transportei muitos turistas americanos e nunca tive problema com ninguém”, diz Ibrahim.

Ele teme ser alvo da portaria nº 666, publicada no mês passado pelo governo brasileiro e que prevê a deportação sumária de estrangeiros considerados “perigosos”, mesmo quando não há condenação na justiça. 

Ibrahim diz não saber por que o FBI está atrás dele, mas afirma acreditar que o governo do Egito o delatou aos EUA devido a seu ativismo político. Ele é membro do Al-Banna’ wa al-Tanmiyya, partido que apoia o ex-presidente Mohamed Mursi, que assumiu após a queda do ditador Hosni Mubarak na Primavera Árabe, em 2012. 

“Naquela época começou uma nova era de liberdade, democracia. Muita gente se filiou a partidos porque queríamos ter voz, mostrar para nossos filhos que fomos parte desse momento”, diz Ibrahim.

A Folha procurou a Embaixada do Egito para esclarecer, entre outras questões, se Ibrahim cometeu crimes no país, mas não recebeu resposta até a conclusão desta reportagem.

Após a divulgação de seu nome pelo FBI, Ibrahim perdeu contato com a família no Egito e disse que parentes foram presos por alguns dias. Uma das detidas seria sua ex-mulher, que ele afirma ter sido pressionada a se divorciar dele anos atrás, quando estava grávida.

Na fábrica de colchões em Guarulhos da qual é sócio, Ibrahim é chamado de Abu Mariam (pai de Mariam) em homenagem à filha, que só conhece por fotos. Tímido e sempre com um sorriso discreto no canto da boca, ele é descrito pelos colegas como uma pessoa doce e gentil.

“Ele é o chefe, mas é mais fácil a gente brigar com ele do que o contrário”, diz uma das funcionárias, Jakeline Alves, 20. 

A esposa de Ibrahim diz que confia “100%” nele e não pretende deixá-lo. “Ele mesmo falou: ‘Se você quiser se divorciar, eu fico com o problema sozinho, não te arrasto para isso’. Mas eu acredito nele, acredito em nós dois. É impossível alguém fingir 24 horas por dia. Quem limpa a casa sou eu. Se ele tivesse arma ou algo escondido, eu saberia”, afirma.

Ela também foi ouvida pelo FBI e diz que teve seu casamento questionando. “Se o casamento fosse só para ele conseguir o visto, na primeira vez que a cara dele aparecesse na TV eu já teria ido embora.”

Hajar conversa com o marido em inglês. Ele está aprendendo português em um curso para imigrantes: “Profeta de casa não faz milagre”, brinca ela. E completa. “Eu era tão feliz com nossa vida simples. Queria voltar a me preocupar só com as contas a pagar.”

O FBI deve ouvir Ibrahim outra vez. “Não vou fugir. Só quero que o governo do Egito me deixe em paz. Mas tenho certeza de que o governo brasileiro vai me salvar. Estou disposto a começar de novo.”

Egito teve apenas um ano de democracia após Primavera Árabe

Em 2012, na esteira da Primavera Árabe, o ditador Hosni Mubarak foi derrubado e Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito do país. 

Um ano depois, em meio a protestos contra seu governo, Mursi foi deposto por um golpe militar liderado por Abdel Fatah al-Sissi, que segue no poder e, segundo organismos internacionais de direitos humanos, reprime cruelmente a oposição.

Os EUA são aliados do Egito, e Donald Trump já elogiou Sisi publicamente. Mursi, que estava preso, morreu em junho deste ano.

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