Manifestantes de Hong Kong tatuam seus corpos com símbolos de protestos

Guarda-chuvas e flor da bandeira do território representam movimento pró-democracia

João Perassolo
São Paulo

Além de marchar pelas ruas do centro financeiro do território ou ocupar o aeroporto local, uma parte dos manifestantes de Hong Kong escolheu uma maneira definitiva de protestar contra o governo: tatuar o corpo.

Os desenhos que adornam braços, costas, ombros e tornozelos são símbolos dos atos que convulsionaram a cidade desde junho, primeiro devido a um projeto de lei que permitiria extraditar honcongueses para serem julgados na China continental, e que depois se ampliaram para uma pauta pró-democracia.

Segundo o tatuador Zada Lam, 27, os ativistas tatuam guarda-chuvas, máscaras de gás, olhos chorando sangue e a flor da bandeira do território para celebrar os protestos e "porque amam Hong Kong". 

Ele, que já marcou cerca de 80 pessoas com seus desenhos geométricos e coloridos relacionados às manifestações, afirma que o conjunto de tatuagens semelhantes forma uma "memória coletiva".

Uma de suas clientes, a cantora e escritora Weeze, tatuou na parte superior do braço direito uma sombrinha ao lado de uma bauhinia, a flor da bandeira local. 

Em fotos sorridentes no Instagram, nas quais aparece com a pele ainda vermelha das agulhas da tatuagem, escreveu: "Sinto que meu coração foi tatuado no meu braço".

Durante os protestos, guarda-chuvas são usados pelos manifestantes para defesa contra bombas de gás lacrimogêneo e para ocultar os rostos. Além da função prática, também serve como referência ao Movimento dos Guarda-Chuvas, de 2014, quando milhares de pessoas foram às ruas por mais democracia.

Já a flor foi apropriada pelos ativistas como um emblema de determinação: na bandeira de Hong Kong, ela é branca contra um fundo vermelho, em alusão ao Partido Comunista chinês. Os manifestantes então a transformaram em branca sobre fundo preto, uma espécie de "declaração de independência" em relação à dominação chinesa.

Outro símbolo bastante requisitado nos estúdios locais de tatuagem são dois caracteres chineses que significam "Hong Kong" quando lidos de cima para baixo e "adicione combustível" (add oil, em inglês) quando lidos da esquerda para a direita.

A expressão —surgida em 1964, quando o território ainda era controlado pelo Reino Unido— é empregada tanto em inglês quanto em chinês para demonstrar apoio e encorajamento. Sua popularidade fez com que fosse adicionada ao dicionário Oxford em 2018.

Vincent Yau, artista especializado em caligrafia chinesa, conta ter recebido mais de cem pedidos para tatuar seus clientes com o símbolo. "Este desenho mostra que as pessoas têm coesão quando se levantam contra o governo."

Tanto ele quanto Lam não cobram para tatuar símbolos ligados aos protestos, o que explica em parte a alta demanda. Embora a repressão policial aos atos esteja aumentando com o passar do tempo —só no último fim de semana 36 pessoas foram presas—, Yau conta que os ativistas não têm medo de exibir as tatuagens em público.

Assim como aconteceu em países do Ocidente, a tatuagem em Hong Kong deixou de ser associada a detentos, marinheiros e gângsteres a partir dos anos 1980 para se tornar tendência entre os jovens de hoje, segundo um estudo da Universidade de Hong Kong.

Contudo, alerta o tatuador, algumas pessoas escondem o corpo para não correrem o risco de serem reconhecidas pelas forças de segurança a partir de suas tatuagens durante as manifestações.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.