Paraguaios foram da tensão do impeachment à normalidade em poucas horas

Área para jornalistas se tornou centro propagador de rumores devido à paranoia dos próprios repórteres

Sylvia Colombo
Assunção

“Ninguém dormiu, passamos a madrugada fazendo contas. Tomamos café da manhã apreensivos porque o impeachment parecia coisa certa”, diz o advogado Fabrizio Centurión, 42, encostado no balcão de uma padaria no centro de Assunção. “E, agora, no meio da manhã, já acabou tudo.”

A reportagem da Folha chegou à capital paraguaia nem bem havia amanhecido o dia.

Ao passar próximo ao suntuoso Palácio de los López, sede do governo e que antes era a residência de Francisco Solano López (1827-1870), comandante do país na Guerra do Paraguai, já era possível ver uma pequena multidão ali, dividida em dois grupos desiguais. 

O maior era de manifestantes em favor da renúncia do presidente Mario Abdo Benítez, envolvido em uma crise política detonada pela assinatura de um acordo energético com o Brasil. 

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, faz pronunciamento ao lado da mulher, Silvana Lopez Moreira, no Palácio de los López, em Assunção
O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, faz pronunciamento ao lado da mulher, Silvana Lopez Moreira, no Palácio de los López, em Assunção - Jorge Adorno/Reuters

O menor, de apoiadores. Alguns deles não tinham saído dali desde o começo dos rumores de impeachment. Ao longo da manhã, o grupo pró-Abdo foi crescendo, carregando bandeiras nacionais e gritando “imperialismo não, pátria, sim” e “Marito é a democracia”.

Os corredores do palácio a que a imprensa teve acesso era uma área muito restrita, convertida pela paranoia dos próprios jornalistas em centro propagador de rumores. 

Uma hora circulava a história de que Abdo Benítez havia renunciado. Depois, que o vice-presidente Hugo Velázquez teria sido demitido. Na sequência, que ele iria deixar o cargo voluntariamente. 

Repórteres veteranos iam apontando o que estava acontecendo “igual ao que ocorreu com Lugo”, em referência ao impeachment do esquerdista Fernando Lugo, em 2012.

Parecia um sinal de que o afastamento eram favas contadas.

Quando enfim Abdo Benítez apareceu para se pronunciar, com aspecto cansado como o de todos os presentes, já se sabia que o acordo com o Brasil havia sido cancelado e que seu principal rival dentro do partido Honor Colorado, Horacio Cartes, recuado da ideia de votar a favor da abertura do julgamento político do presidente

Havia alívio em suas palavras, mas também ressentimento. Falou de conciliação, de ouvir os críticos. Prometeu não errar novamente. Por outro lado, afirmou que vai perseguir e expulsar do governo os que haviam “jogado contra a pátria”. 

A declaração “caia quem caia”, aplaudida dentro e fora do palácio, soou como gesto de um autoritário. Logo, ele se rendeu ao espetáculo midiático, jogando-se sem terno nos braços da multidão.

Se a crise não tiver servido para conciliar rivais, pelo menos serviu para que os paraguaios conhecessem melhor as mudanças de estado de espírito de seu presidente.

A saída do palácio parecia a de um concerto de rock ou de um jogo importante de futebol. Várias quadras em torno do local estavam cercadas e vigiadas pela polícia, e tanques do Exército se posicionavam nos cantos do enorme jardim. 

Os oficiais, porém, pareciam também mais relaxados do que pelo início da manhã. Antes estavam de pé e com a postura ereta, de prontidão. Agora, muitos buscavam a sombra das árvores, porque o calor intenso da capital paraguaia havia chegado ao pico.

Mario Abdo Benítez, cercado de apoiadores, após fazer pronunciamento em Assunção
Mario Abdo Benítez, cercado de apoiadores, após fazer pronunciamento em Assunção - Norberto Duarte/AFP

Para conseguir um táxi ou uma condução, era preciso andar muito. A situação alguns quarteirões fora da área restringida, no entanto, era diferente. Não parecia um país no qual o governo balançava tão fortemente. Havia comércio intenso nas ruas com as galerias de lojas de roupas e de eletrônicos, pessoas lotando restaurantes para almoçar.

Uma senhora se aproxima da reportagem da Folha e pergunta em portunhol onde ficava uma boa casa de câmbio. Era uma turista gaúcha, no país com o marido para fazer compras. Estavam atrás de celulares e uma televisão. 

Nas telas das TVs, nos bares, os noticiários foram mudando de assunto. As aparições dos analistas políticos ou de repórteres diante do Congresso começavam a rarear. 

Eram substituídas pelas imagens do jogo em que a equipe paraguaia Cerro Porteño venceu o time argentino San Lorenzo na Libertadores. Os heróis do jogo davam entrevistas, e as cores das arquibancadas vibrando atraíam a atenção de quem fazia sua refeição na rua.

Uma aparente normalidade voltou à cidade, até a próxima crise política, algo a que os paraguaios também se acostumaram nos últimos anos.

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