Em cena rara, egípcios fazem protestos e acusam presidente de corrupção

Manifestações tornaram-se incomuns sob Abdel Fattah el-Sisi, que promove ampla repressão

Cairo | Reuters

As imagens das ruas do Cairo tomadas por veículos, mas também por uma turba de manifestantes na noite desta sexta (20) contrastaram com a repressão estatal que prevalece sobre o Egito.

Enquanto os canais de notícias, controlados pelo governo, anunciavam que a população se reunia no centro da capital para fazer vídeos e selfies, as centenas de pessoas presentes entoavam palavras de rejeição ao presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, e cuspiam e pisavam em um cartaz que trazia seu rosto.

Grupos de manifestantes se reúnem no centro do Cairo, no Egito, gritando palavras de ordem contra o presidente Abdel Fattah el-Sisi - Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Os protestos tornaram-se raros no Egito após ampla repressão promovida por Sisi, que assumiu o poder após a derrubada do ex-presidente Mohamed Mursi, em 2013.

A queda de Mursi, primeiro e único presidente democraticamente eleito do país, se deu após protestos em massa contra seu governo e um golpe militar liderado pelo então general Sisi.

 

A tomada das ruas nesta sexta teria sido motivada por vídeos publicados por Mohamed Ali, ator e empreiteiro egípcio de 45 anos que reside na Espanha, nos quais o presidente e as Forças Armadas do país são acusados de corrupção.

No último sábado (14), Sisi classificou as alegações como "mentiras e calúnias". 

Pequenos protestos também foram realizados em Alexandria, na costa do Mediterrâneo, em Suez, no Mar Vermelho, e na cidade de Mahalla el-Kubra, no delta do Nilo, a cerca de 110 km ao norte da capital. 

No Cairo, forças de segurança tentaram dispersar a multidão com gás lacrimogêneo, mas muitos jovens permaneceram nas ruas gritando "fora, Sisi". Segundo testemunhas, alguns manifestantes foram presos.

Abdel Fattah el-Sisi foi eleito pela primeira vez em 2014 com 97% dos votos.

Quatro anos depois, foi reeleito com a mesma porcentagem em um pleito no qual o único outro concorrente era um fervoroso apoiador do presidente.

Recentemente, sua popularidade foi prejudicada por medidas de austeridade econômica.


EGITO MODERNO TEM HISTÓRIA MARCADA POR PODER DOS MILITARES 

1922 Egito oficialmente se torna independente e vira uma monarquia; o Reino Unido, porém,  mantém o controle militar e diplomático

1952 Revolta contra a influência britânica derruba o rei e país se transforma em uma república; o general Mohamed Naguib assume como presidente

1954 Líder da Revolução de 1952 e figura mais popular do país, o coronel Gamal Abdel Nasser força Naguib a renunciar após este se recusar a banir a Irmandade Muçulmana

1956 Nasser é eleito presidente e nacionaliza o canal de Suez; com discurso contra Israel e defensor do pan-arabismo, ele aproxima o Egito da União Soviética

1970 Nasser morre em setembro após sofrer um ataque cardíaco e uma multidão acompanha seu funeral; seu vice, o coronel Anwar Sadat, assume a Presidência e aproxima o país dos EUA

1981 Sadat é assassinado por fundamentalistas islâmicos que estavam insatisfeitos com o acordo feito por ele com Israel; ele é substituído por seu vice, o marechal do ar Hosni Mubarak

2011 Em meio a Primavera Árabe, milhões vão às ruas protestar contra o regime e Mubarak renuncia, cedendo o poder para uma junta militar, que permite a volta dos partidos e da Irmandade Muçulmana

2012 Nas primeiras eleições livres da história do Egito moderno, Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, é eleito presidente

2013 Mursi é derrubado por um golpe militar liderado pelo general Abdel Fattah el-Sisi, que nomeia o presidente da Suprema Corte, Adly Mansour, como presidente interino

2014 Com opositores barrados e a Irmandade Muçulmana impedida de concorrer, Sisi vence a eleição com 96,9% dos votos e se torna presidente; em 2018 ele é reeleito com 97% de apoio

 
 
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