Descrição de chapéu The New York Times

Entenda os desdobramentos das eleições em Israel e a possível derrota de Netanyahu

Como se esperava, nem premiê nem rival Benny Gantz conquistaram maioria absoluta no Parlamento

Megan Specia
The New York Times

Um dia após a eleição geral em Israel —a segunda em cinco meses—, o resultado final ainda é incerto, mas parece que o longo reinado do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu pode estar chegando ao fim.

Como se esperava, nem Netanyahu nem seu principal rival, o ex-chefe do Exército Benny Gantz, um centrista, conquistaram votos suficientes para reivindicar maioria absoluta no Parlamento israelense.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em reunião do partido Likud, em Jerusalém, nesta quarta (18) - Menahem Kahana/AFP

Além disso, nenhum deles parece ter um caminho direto para formar uma coalizão governante com pelo menos 61 dos 120 membros do Parlamento.

Isso significa que a disputa para primeiro-ministro será decidida não pela contagem de votos, mas por negociações de coalizão, e Gantz e seu partido Azul e Branco parecem ter a primeira chance de formar um governo.

O apoio de um terceiro partido menor, Israel Nossa Casa, poderá ser essencial, o que colocará o poder de decidir o futuro do governo israelense nas mãos de seu líder, Avigdor Lieberman. Aqui está o que você precisa saber.

O reinado de Netanyahu parece estar terminando

Netanyahu, que liderou Israel na última década, buscava um quinto mandato recorde, mas suas chances parecem cada vez menores com base nos primeiros resultados da votação nesta terça (18).

Os partidos nacionalistas e ultraortodoxos de direita de seu suposto bloco não conseguiram assentos suficientes para lhe dar a maioria, e Lieberman não está inclinado a colocar Bibi no cargo.

Netanyahu, que neste ano se tornou o líder de Israel há mais tempo no poder, possivelmente enfrentará um julgamento baseado em acusações de suborno, fraude e quebra de confiança, denúncias que apareceram tanto na eleição de abril quanto na desta semana.

O premiê não conseguiu formar uma coalizão no Parlamento após as eleições de abril e, em vez de repassar a outra pessoa a oportunidade de tentar um acordo, optou por convocar os israelenses às urnas novamente.

Desta vez, ele esperava conseguir um mandato com o apoio de partidos menores da direita religiosa, mas até agora parece não ter conseguido avanço.

De qualquer modo, o apoio desses grupos parece que não seria suficiente para formar uma coalizão governante.

O que acontece agora?

Uma vitória eleitoral não significa necessariamente um novo governo bem-sucedido.

O presidente de Israel, Reuven Rivlin, tem o poder de escolher, em 28 dias, quem tem as melhores chances de formar uma coalizão majoritária. O prazo ainda pode ser prorrogado por duas semanas.

Normalmente, mas nem sempre, a primeira oportunidade de formar um governo vai para o líder do partido que obteve mais votos. Essa chance pode recair sobre Gantz, cujo bloco mais amplo de partidos de centro-esquerda pode lhe dar o apoio necessário, desde que conte com a aprovação de Lieberman.

Lista Árabe Unida, que teve um desempenho melhor que o esperado, também poderá ser um fator decisivo. Ela não descartou a ideia de ingressar em uma coalizão com o partido de Gantz.

O que Lieberman fará?

O partido ultranacionalista secular Israel Nossa Casa, que deverá ganhar nove assentos no Knesset (o Parlamento), pode ter o potencial de formar ou romper uma coalizão. Seu líder, Lieberman, parece ter o poder de "nomear reis".

Um ex-aliado importante de Netanyahu, Lieberman minou a possibilidade de uma coalizão após as eleições de abril, quando se recusou a ingressar em uma parceria com partidos ultraortodoxos.

O principal ponto de tensão entre os dois foi uma disputa sobre um projeto de lei que permitiria que mais estudantes de seminários fossem convocados para o Exército.

Na terça (17), quando saíram os resultados das eleições, Lieberman disse a seus apoiadores que havia apenas uma opção para um governo: "Um governo nacional amplo, liberal, composto por Israel Nossa Casa, Likud e Azul e Branco".

Gantz prometeu que não participaria de um governo com Netanyahu por causa das denúncias de corrupção. Mas se o primeiro-ministro deixar a liderança de seu partido, o Likud, existe a possibilidade de ele aderir.

Há também a possibilidade de que o Azul e Branco possa formar maioria em parcerias com o partido de Lieberman e outros grupos de centro-esquerda, incluindo potencialmente a Lista Árabe Unida —embora Lieberman provavelmente se recuse a se unir a partidos árabes.

Eleitores árabes vieram com força

Os árabes-israelenses representam cerca de 20% da população votante, e eles compareceram em números maiores do que se esperava —uma grande diferença em comparação a cinco meses atrás.

Em abril, menos de 50% dos eleitores árabes-israelenses qualificados votaram —um comparecimento historicamente baixo—, em parte por causa de um boicote devido à aprovação de leis consideradas discriminatórias e à falta de uma representação robusta.

Os árabes há muito se sentem excluídos do sistema político de Israel.

Mas políticos árabes —e até alguns partidos judeus de centro-esquerda— se esforçaram para atrair os eleitores árabes na recente campanha, com promessas de combater o crime, a falta de moradias e outras questões.

A Lista Árabe Unida —uma coalizão dos quatro maiores partidos de maioria árabe— recuperou a influência que perdeu em abril e parece ser o terceiro maior partido do Parlamento, segundo os resultados iniciais.

O líder do partido, Ay Odeh, comemorou tanto a fraqueza de Netanyahu quanto o fracasso do partido de extrema-direita Otzma Yehudit em conquistar assentos, informou The Times of Israel.

Netanyahu recebeu duras críticas no início deste ano, quando disse que estava disposto a fazer parceria com Otzma Yehudit, apesar de suas políticas extremistas anti-árabes.

Odeh disse a repórteres em frente à sua casa nesta quarta (18) que poderia recomendar Gantz como próximo primeiro-ministro.

Ele também indicou a disposição de ingressar em uma coalizão sob certas condições, mas disse que seu partido não estaria disposto a entrar num governo de união como o proposto por Lieberman.

Ele também sinalizou que queria liderar a oposição.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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