Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Governo confirma indígena em comitiva de Bolsonaro na ONU

Associação contesta representatividade de convidada do presidente e acusa Planalto de desrespeito

Marina Dias Bruno Boghossian
Nova York e Brasília

O governo Jair Bolsonaro confirmou a presença da índia Ysani Kalapalo na comitiva que acompanhará o presidente a Nova York para a abertura da Assembleia-Geral da ONU, na terça-feira (24). 

A participação da índia na viagem aos EUA, porém, é alvo de contestação de um grupo de defesa de direitos indígenas.

A Atix (Associação Terra Indígena Xingu) afirma em nota divulgada neste sábado (21) que Ysani não foi indicada por nenhuma entidade representativa para compor a comitiva do governo e acusa o Planalto de desrespeitar "povos e lideranças indígenas renomados do Xingu."

Apoiadora de Bolsonaro desde a campanha eleitoral, Ysani diz ser da aldeia no Parque Indígena do Xingu, mas a Atix declara que a índia é "residente e domiciliada em Embu das Artes", na Grande São Paulo.

No texto assinado por 14 caciques, a associação diz que a índia "vem atuando nas redes sociais para ofender e desmoralizar as lideranças e o movimento indígena no Brasil".

Recém-eleito, Jair Bolsonaro recebeu no Rio a índia Ysani Kalapalo em sua casa no Rio
Recém-eleito, Jair Bolsonaro recebeu a índia Ysani Kalapalo em sua casa, no Rio - Reprodução/Verdade Política

"Não aceitamos e nunca aceitaremos que o governo brasileiro indique por conta própria nossa representação indígena sem nos consultar através de nossas organizações e lideranças reconhecidas e respaldadas por nós."

Ysani defende o discurso do governo de que há notícias falsas sobre a abrangência do desmatamento e queimadas na Amazônia.

Em meio à crise da floresta —com repercussão internacional—, o presidente faz um movimento alegórico para tentar refutar a ideia de que tem uma política negligente em relação ao meio ambiente, prejudicando a floresta e a população da região, inclusive indígenas.

A intenção inicial era que Ysani assistisse ao discurso de Bolsonaro de dentro do plenário, diante de todas as delegações internacionais.

O Brasil, porém, terá direito a seis lugares no salão principal da ONU, e a previsão é que eles sejam ocupados, além de Bolsonaro, por Michelle Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo, o general Augusto Heleno (GSI), o deputado Eduardo Bolsonaro e o senador Nelsinho Trad, os dois últimos presidentes das comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado, respectivamente.

Durante a cúpula da ONU, uma das principais organizações multilaterais do mundo, líderes, empresários e investidores estarão com os olhos voltados para a maneira como o Brasil conduz a crise, agravada com o aumento de queimadas e desmatamento da floresta.

O governo Bolsonaro minimiza o tamanho dos incêndios, afirma que eles estão na média dos últimos 20 anos e insiste no discurso de que o desenvolvimento sustentável não exclui as atividades econômicas que poderiam, na avaliação do Planalto, ajudar a população local.

Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porém, mostram que o desmatamento na Amazônia aumentou 222% em agosto deste ano em comparação com o mesmo período em 2018.

Os índices são corroborados pela Nasa, a agência espacial americana.

Bolsonaro tem tomado diversas medidas de flexibilização e afrouxamento de mecanismos de fiscalização ambiental.

Levar uma índia na comitiva presidencial aos EUA é mais um movimento do governo para tentar acalmar os ânimos fora do país.

Nesta semana, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, viajou a Washington para se reunir com investidores e conceder entrevistas a veículos da imprensa estrangeira.

No sábado (21), ele chegou a Nova York para novas rodadas de conversas, com a mensagem de que é possível desenvolver a região de maneira sustentável com atividade econômica.

Bolsonaro vai aos EUA na segunda-feira (23), um dia antes de seu discurso de abertura da Assembleia-Geral.

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