Bolsonaro convida representante indígena para viagem à ONU

Apoiadora do presidente, Ysani Kalapalo minimiza gravidade de queimadas na Amazônia

Marina Dias Bruno Boghossian
Nova York

O presidente Jair Bolsonaro decidiu convidar uma representante indígena para compor a comitiva que o acompanhará em Nova York para a abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (24).

Ysani Kalapalo, moradora de aldeia no Parque Indígena do Xingu, é pró-Bolsonaro e defende o discurso do governo de que há notícias falsas sobre a abrangência do desmatamento e queimada na Amazônia. Ainda não se sabe se ela aceitará o convite.

Em meio à crise da floresta —com repercussão internacional— o presidente faz um movimento alegórico para tentar refutar a ideia de que conduz uma política negligente em relação ao meio ambiente, prejudicando a floresta e a população da região, inclusive indígenas.

Recém-eleito, Jair Bolsonaro recebeu no Rio a índia Ysani Kalapalo em sua casa no Rio
Recém-eleito, Jair Bolsonaro recebeu a índia Ysani Kalapalo em sua casa, no Rio - Reprodução/Verdade Política

Durante a cúpula da ONU, uma das principais organizações multilaterais do mundo, líderes, empresários e investidores estarão com olhos voltados para a maneira como o Brasil conduz a crise, agravada com o aumento de queimadas e desmatamento da floresta.

O governo Bolsonaro minimiza o tamanho dos incêndios, afirma que eles estão na média dos últimos 20 anos, e insiste no discurso de que o desenvolvimento sustentável não exclui as atividades econômicas que poderiam, na avaliação do Planalto, ajudar a população local.

Dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porém, mostram que o desmatamento na Amazônia aumentou 222% em agosto deste ano em comparação com o mesmo período em 2018. Os índices são corroborados pela Nasa, a agência espacial americana.

Bolsonaro tem tomado diversas medidas de flexibilização e afrouxamento de mecanismos de fiscalização ambiental.

Convidar uma indígena para integrar a comitiva presidencial aos EUA é mais um movimento do governo para tentar acalmar os ânimos fora do país.

Nesta semana, por exemplo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, viajou a Washington para reunião com com investidores e entrevistas a veículos da imprensa estrangeira.

Sua mensagem foi a de que é possível desenvolver a região de maneira sustentável com atividade econômica.

O ministro minimizou ainda as notícias de que fundos de investimento têm cobrado ações do governo brasileiro sobre a preservação da floresta e disse que vários outros deles apoiam Bolsonaro.

Como mostrou a Folha, 230 fundos de investimento —que juntos administram cerca de US$ 16 trilhões (R$ 65 trilhões)—pediram ao Brasil que adote medidas eficazes para proteger a região da floresta.

As queimadas têm atrasado ainda mais a aposta dos donos do dinheiro no país.

Analistas afirmam que, nas últimas semanas, dúvidas sobre as queimadas e o desmatamento na floresta -—com repercussão internacional— estavam presentes em pelo menos 70% das conversas com investidores nos EUA e na Europa.

Além da índia e de Salles, que segue para Nova York no sábado (21), estarão na comitiva do presidente seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o chanceler Ernesto Araújo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o presidente da comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, o porta-voz e o chefe da Secretaria de Comunicação do Planalto.

Bolsonaro chega aos EUA na segunda-feira (23), um dia antes de seu discurso de abertura da Assembleia Geral.

Ainda em recuperação da cirurgia que corrigiu uma hérnia decorrente da facada que levou no ano passado, o presidente terá uma agenda reduzida e deve acompanhar a primeira-dama, Michelle, em um compromisso ligado à área social. Ele deve se encontrar com Donald Trump para jantar enquanto estiver em Nova York, até quarta-feira (25).

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