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The New York Times Governo Trump

Trump deixa claro que está pronto para luta que previu há muito tempo

Presidente aposta no Senado controlado pelos republicanos e em reeleição em 2020

Peter Baker
The New York Times

Ele sabia que estava por vir. Parecia quase inevitável. Nenhum outro presidente da história americana foi seriamente ameaçado de impeachment desde antes da posse. Então, quando chegou o anúncio na terça-feira (24) de que a Câmara consideraria acusá-lo de violar a Constituição, o presidente Donald Trump deixou claro que está pronto para a luta.

O início do tão esperado confronto veio quando Trump estava em Nova York para a sessão de abertura da Assembleia Geral da ONU, criando um espetáculo surreal em tela dividida, enquanto o presidente tentava interpretar o estadista global e ao mesmo tempo se defendia de seus inimigos em Washington.

O presidente dos EUA, Donald Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump - Brendan Smialowski -20.set.2019/AFP

Num momento ele falou sobre guerra, paz e comércio com premiês e potentados. No outro, ele se envolveu em uma luta de retaguarda para salvar sua Presidência.

Pouco antes de seguir para o almoço com o secretário-geral da ONU, ele decidiu divulgar a transcrição de sua ligação telefônica em julho com o presidente da Ucrânia, que está no centro das acusações contra ele.

Na verdade, Trump estava colocando suas fichas no centro da mesa, apostando que o documento seria ambíguo o suficiente para solapar a tese democrata contra ele.

À tarde, enquanto a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, se preparava para anunciar o inquérito de impeachment, o presidente se retirou para a Trump Tower, sua antiga casa e base de operações, para contemplar o caminho a seguir.

Um telefonema entre o presidente e Pelosi não conseguiu impedir o confronto, e agora os dois estão destinados a travar uma luta épica que testará os limites da Constituição e o equilíbrio de poder no sistema americano.

Os democratas disseram que apoiar-se numa potência estrangeira para jogar sujeira em um adversário ultrapassou os limites. Trump disse que só estava preocupado com a corrupção na Ucrânia.

​Trump agora se une apenas a Andrew Johnson, Richard Nixon e Bill Clinton ao enfrentar uma séria ameaça de impeachment, o equivalente constitucional a uma acusação formal.

Nixon renunciou quando colegas republicanos o abandonaram no caso Watergate, mas Johnson e Clinton foram absolvidos em julgamentos no Senado, resultado que parece mais provável no momento, já que a condenação requer dois terços dos votos, ou seja, pelo menos 20 senadores republicanos teriam que romper com Trump.

Destemido, o presidente americano apareceu energizado pelo confronto, ávido por batalhas.

Confiante em sua posição no Senado controlado pelos republicanos, ele parecia quase assumir que a Câmara dominada por democratas provavelmente votará pelo impeachment e que ele levará seu caso ao público na eleição do próximo ano.

Até agora, pelo menos, as pesquisas mostraram que a maioria dos americanos não apoia o impeachment de Trump, assim como nunca aprovou o de Clinton. Ainda não está claro se as últimas denúncias envolvendo a Ucrânia mudarão a opinião pública da maneira como galvanizaram os deputados democratas antes resistentes.

Trump, porém, nunca foi tão popular quanto Clinton.

Durante a batalha de 13 meses, que se estendeu de 1998 a 1999, sobre se Clinton cometeu crimes graves ao mentir sob juramento sobre seu relacionamento com Monica Lewinsky, o índice de aprovação do presidente ficava geralmente na faixa dos 60% e chegou até 73% nos dias após sua impugnação.

Trump não tem o mesmo reservatório de boa vontade, já que nunca teve o apoio da maioria dos americanos nas pesquisas da Gallup por um único dia de sua Presidência. Atualmente, seu índice de aprovação é de 43%. Mas ele tem o apoio de 91% dos republicanos, o que lhe dá motivos para supor que os senadores do partido permanecerão fiéis.

Os críticos de Trump começaram a discutir o impeachment poucos dias após sua eleição por causa de várias questões éticas e da interferência da Rússia na campanha de 2016.

Nas eleições de meio de mandato do ano passado, Trump repetidamente mencionou o impeachment durante a campanha, alertando que os democratas viriam atrás dele se vencessem na Câmara.

Eles venceram, mas o impulso para o impeachment parou quando o procurador especial Robert Mueller produziu um relatório que não estabeleceu conspiração criminosa entre a campanha de Trump e a Rússia, recusando-se a assumir uma posição sobre se o presidente obstruiu a Justiça durante a investigação.

Como se viu, a Ucrânia, e não a Rússia, provou ser combustível de foguete para a iniciativa semi-adormecida. Agora, mais de dois anos e meio depois, a batalha começou.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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