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Brexit

Nova derrota mostra Boris acuado dentro e fora do Parlamento

Interminável processo se tornou uma máquina de moer as reputações dos primeiros-ministros

Fábio Zanini
São Paulo

Um efeito colateral da interminável saga do brexit é a desvalorização do principal emprego público do Reino Unido, o de primeiro-ministro.

Já houve chefes de governo fracos na mãe de todas as democracias, de Neville Chamberlain a John Major, mas a palavra humilhação parece ter ganho um novo significado.

O premiê britânico, Boris Johnson, durante a sessão deste sábado (19) do Parlamento
O premiê britânico, Boris Johnson, durante a sessão deste sábado (19) do Parlamento - PRU/AFP

Primeiro com Theresa May, e depois com seu sucessor, Boris Johnson, o processo de saída britânica da União Europeia se tornou uma máquina de moer reputações.

Pode-se incluir na lista também David Cameron, que era amplamente considerado um líder firme e ousado até cometer o erro de cálculo de promover um plebiscito que jogou o país em sua maior crise constitucional.

Boris, ocupante do cargo que já foi de Winston Churchill, Margaret Thatcher e mesmo Tony Blair, é hoje um político ridicularizado.

Sua derrota neste sábado (19), numa votação na qual investiu todo o capital político que lhe restava, consolida seu isolamento. As cenas da multidão do lado de fora do Parlamento reforçam a percepção de um líder cercado, e não apenas metaforicamente. 

Seres acuados agem de forma imprevisível, e Boris, que nunca foi um político conhecido pela racionalidade, tem poucas opções a partir de agora.

A mais óbvia, renunciar e tentar recompor-se politicamente aproveitando-se de pesquisas que inacreditavelmente ainda lhe são favoráveis, parece ser um caminho descartado, ao menos por enquanto.

Político de sorte, tem a seu favor a fragilidade de Jeremy Corbyn, líder trabalhista da esquerda radical, e a quase irrelevância dos liberal-democratas. Mas prefere resistir no cargo.

​Sua primeira reação à derrota foi recusar-se a pedir uma extensão do prazo de negociações aos ainda parceiros europeus e insistir no mantra de saída do bloco em 31 de outubro.

De forma birrenta, ao insistir no calendário de votações do brexit como se nada tivesse acontecido, mostra estar a reboque dos fatos, o oposto do que se espera de um primeiro-ministro.

O que o Super Sábado mostra é que o controle da situação passou definitivamente do chefe de governo para o conjunto do Parlamento.

Quem dá as cartas no momento é a gritaria dos deputados, incontroláveis apesar dos pedidos quixotescos de "ordem" do presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, talvez a segunda figura que inspira mais pena hoje na política britânica (a primeira é o próprio primeiro-ministro, claro).

A menos de duas semanas do prazo fatal para a saída britânica do bloco, e sem sinal de solução para o impasse, a perspectiva de um desligamento caótico do Reino Unido da União Europeia cresce no retrovisor.

A emenda que prolongou a agonia foi aprovada por margem de votos pequena, o que indica que lentamente algum tipo de moderação de visões poderia estar ganhando terreno.

Mas para que um acordo seja palatável ao Parlamento britânico seriam necessárias duas coisas que estão em oferta escassa no país: tempo e sangue frio. Um novo líder no comando também cairia bem.

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