Em dia de greve geral, Catalunha vê grandes marchas e focos de violência

Mais de 50 voos são cancelados; partida entre Barcelona e Real Madrid é adiada

Madri e Barcelona | Reuters e AFP

No quinto dia de manifestações na Catalunha contra a condenação de líderes separatistas, Barcelona foi tomada nesta sexta (18) por uma marcha pacífica com mais de 500 mil pessoas, segundo a polícia.

Com fitas amarelas, em sinal de protesto contra as sentenças emitidas nesta semana pela Suprema Corte espanhola, manifestantes saíram de vários municípios da região mais rica da Espanha —com língua própria e cerca de 7,5 milhões de habitantes— numa caminhada em direção à capital catalã.  

Ao chegarem à cidade, na parte da tarde, os ativistas encontraram lojas fechadas e metrô funcionando apenas parcialmente, devido à greve geral. A basílica da Sagrada Família, uma das principais atrações turísticas da cidade, foi fechada após ter a entrada bloqueada pelos ativistas.

Já o aeroporto internacional de El Prat cancelou 57 voos, e a partida entre Barcelona e Real Madrid, agendada para o dia 26 na capital catalã, foi adiada pela federação espanhola de futebol por questões de segurança. A nova data deve ser anunciada na semana que vem.

O clima do ato foi pacífico até o momento em que parte dos manifestantes da caminhada, ao passar pelo bairro de Santa Coloma de Gramenet, foi alvejada por pedras. 

No centro, confrontos explodiram entre a polícia e grupos de mascarados, que atiraram pedras e atearam fogo em grandes latas de lixo arrastadas para o meio de uma avenida.

Em resposta, veículos das forças de segurança tentaram, mas não conseguiram, empurrar as pessoas de volta para as calçadas. Houve uso de bombas de gás lacrimogêneo.

Fernando Grande-Marlaska, ministro interino do Interior, disse a jornalistas que cerca de 400 pessoas se envolveram em confrontos na sede da polícia de Barcelona. Esses "grupos organizados", segundo o ministro, podem enfrentar "até seis anos de prisão sob o código penal espanhol".

A série de manifestações ocorre dois anos após o governo da Catalunha realizar um plebiscito sobre a independência da região. O processo, porém, foi considerado ilegal por Madri com base em um artigo da Constituição que veta a secessão de regiões do país.

Manifestante em Barcelona durante confronto com a polícia em uma greve geral - Juan Medina/Reuters

O comparecimento às urnas em 2017 foi de menos de 50%, mas 90% dos que foram votar optaram pelo sim. Houve forte repressão policial à época, com violência e recolhimento de urnas, em um episódio que marcou a imagem internacional da Espanha.

Os líderes catalães separatistas foram então removidos do poder pelo governo nacional, que assumiu o controle direto da região. Alguns deles foram presos preventivamente, enquanto outros fugiram para não serem detidos.

Um deles, o ex-presidente da Catalunha Carles Puigdemont, exilou-se na Bélgica, onde um juiz decidiu nesta sexta mantê-lo em liberdade condicional.

A sentença é concedida enquanto um novo pedido de extradição, emitido pela corte espanhola pelos crimes de sedição e apropriação indevida de fundos públicos, é analisado. A audiência que decidirá se ele vai ou fica está marcada para o dia 29.

Puigdemont não teve que pagar fiança, mas fica obrigado a comunicar às autoridades belgas suas viagens e atividades. Ele pode deixar o país com autorização da Justiça.

O ex-presidente da Catalunha é um dos separatistas condenados no julgamento que durou oito meses e cujo resultado foi anunciado na segunda (14). Nove líderes foram sentenciados a até 13 anos de prisão pelos crimes de sedição e mau uso de dinheiro público.

A conclusão do processo jogou o país em um caos poucas vezes visto em sua história

Apesar das tensões dos últimos dias, o presidente regional da Catalunha, Quim Torra, sugeriu que outro referendo pela independência seja realizado unilateralmente.

"Se tivéssemos sido sentenciados a cem anos de prisão por colocar as urnas na rua, a resposta é clara: teremos que colocá-las novamente por autodeterminação", disse ele ao Parlamento regional na quinta-feira (17).

Torra, um independentista, tem sido criticado pela lentidão em condenar a violência que tomou as ruas, ao passo em que aciona a polícia para conter as manifestações.

O saldo desde o início dos protestos é de 128 presos, incluindo 16 na noite de quinta-feira, segundo a polícia. Só na sexta, 62 pessoas ficaram feridas, de acordo com os serviços de emergência.

O Ministério do Interior ainda informou que mais de 200 policiais ficaram feridos desde o início das manifestações, que também provocaram o cancelamento de 200 voos no aeroporto de El​ Prat e a queima de 700 contêineres de lixo na cidade. O movimento no mercado atacadista MercaBarna, uma espécie de Ceagesp local, caiu cerca de 90%.


POR QUAIS CRIMES OS LÍDERES CATALÃES FORAM CONDENADOS?

Nove separatistas foram condenados por sedição, definida pela constituição espanhola como "se levantar publicamente e tumultuosamente para prevenir, com o uso da força ou além de meios legais, a aplicação da lei". Em outras palavras, seria um ato de insubordinação por parte de um grupo que tenta evitar a aplicação da lei. A sentença máxima é de 15 anos de prisão.

Três foram condenados por desobediência, uma ilegalidade mais branda, penalizada com multa e proibição de ocupar cargos públicos.

E quatro foram condenados por mau uso de dinheiro público, que leva a prisões de dois a seis anos. Como estas mesmas quatro pessoas também foram culpadas de sedição, a pena combinada é menor do que a soma das penas individuais.

Todos foram absolvidos da acusação de rebelião, que envolve uma revolta necessariamente violenta contra o governo estabelecido, como em um levante armado que pretenda alterar a estrutura do Estado. As penas vão de 15 a 25 anos de prisão.

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