Com novo maquinário, Irã promete aumentar produção de urânio enriquecido

Substância é usada na construção de armas nucleares e limitada pelo acordo nuclear de 2015

Dubai | Reuters

O Irã está cada vez mais distante do acordo nuclear internacional firmado em 2015. Nesta segunda (4), o país anunciou que está implementando novo maquinário para aumentar o enriquecimento de urânio, uma substância que pode ser usada em armas nucleares e sobre a qual recaíam limites de acordo com o pacto.

São 30 novas centrífugas do tipo IR-6, que se somam às outras 30 do mesmo modelo já existentes, informou o chefe da energia atômica do país, Ali Akbar Salehi. "Isto mostra nossa capacidade e determinação."

Foto de 2009 mostra técnicos iranianos do lado de fora da construção que abriga o reator nuclear de Bushehr, cidade 1.200 km ao sul da capital Teerã - Behrouz Mehri/AFP

As centrífugas IR-6 podem enriquecer urânio dez vezes mais rapidamente do que o modelo IR-1, do qual o Irã tem 5.000 unidades.

O acordo de 2015, firmado entre EUA, Irã, França, Alemanha, Reino Unido, China e Rússia, prevê que o país use apenas o modelo antigo nesse processo. Em troca dos limites impostos ao programa de Teerã no acerto, as sanções econômicas impostas ao país pela comunidade internacional foram aliviadas, rompendo anos de isolamento. 

Mas, no ano passado, o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo, e as tensões entre Teerã e Washington vêm crescendo. 

Desde então, os EUA renovaram e intensificaram suas sanções, reduzindo as vendas de petróleo do Irã em mais de 80%. Em resposta, o Irã vem violando passo a passo as restrições do acordo e se negando a negociar um novo pacto. 

Teerã, no entanto, deixou espaço para a diplomacia dizendo que novas negociações serão possíveis se Washington suspender todas as sanções e voltar ao acordo nuclear.

As medidas tomadas pelo Irã até agora complicam as perspectivas de salvar o acordo entre os países europeus que o assinaram —e que criticaram Trump por desistir dele.

Segundo o chefe da energia atômica do Irã, os cientistas locais estão trabalhando no desenvolvimento de um protótipo do IR-9, que tem capacidade para operar 50 vezes mais rapidamente do que o IR-1. 

A preocupação internacional é com a produção de uma bomba nuclear. Por isso, o objetivo principal do acordo de 2015 era estender o tempo que o Irã precisaria para obter material suficiente para uma bomba, caso queira produzir uma. Esse prazo, conhecido como "tempo de fuga", é de cerca de um ano com o acordo e de dois a três meses sem ele.

O país persa nega ter tentado construir uma bomba nuclear ou mesmo pensado na hipótese, dizendo que o enriquecimento será usado para gerar energia elétrica para os consumidores —uma outra serventia do urânio enriquecido.

Os Estados Unidos, no entanto, dizem que o Irã "não tem motivos críveis" para expandir seu programa de enriquecimento de urânio, de acordo com uma importante autoridade do governo. "E o que eles anunciaram é um grande passo na direção errada."

Ainda assim, após o anúncio, o governo Trump aplicou novas sanções contra nove pessoas ligadas ao líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, incluindo seu chefe de gabinete, um de seus filhos e o chefe do judiciário iraniano. O Departamento do Tesouro dos EUA disse que essas pessoas ajudam Khamenei a "implementar suas políticas desestabilizadoras".

Em resposta ao anúncio iraniano, a União Europeia (UE) pediu a Teerã que cumpra seus compromissos do acordo nuclear. "Vimos as últimas notícias. A única coisa que podemos dizer neste momento é que tomamos nota", afirmou a porta-voz da diplomacia europeia, Maja Kocijancic, acrescentando que a UE está aguardando a avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). 

A Alemanha também se pronunciou. Disse que a mudança põe o acordo nuclear em risco e pediu que Teerã volte a cumpri-lo.

O anúncio do Irã ocorreu no 40º aniversário da apreensão da Embaixada dos EUA em Teerã, quando um grupo de estudantes e ativistas manteve 52 norte-americanos reféns por mais de um ano. O episódio marcou o início da Revolução Islâmica e o rompimento diplomático com Washington.

Em um protesto, milhares de iranianos gritaram "morte à América" ​​perto da antiga embaixada, com o chefe do exército comparando Washington a um escorpião empenhado em prejudicar o Irã.

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