Com revólveres e fuzis, milhares protestam na Virgínia contra restrições a armas

Maioria eram homens brancos de meia idade; não houve episódios de violência

Richmond (Virgínia)

Milhares de pessoas armadas com revólveres e fuzis semiautomáticos cercaram nesta segunda-feira (20) a sede do governo estadual da Virgínia, em Richmond, para protestar contra uma série de leis que devem restringir o direito à compra e posse de armas. Sob temperatura negativa e um vento seco e insistente, elas cantavam o hino nacional americano e berravam “liberdade, liberdade, liberdade!”.

Não houve episódios de violência durante a manhã, mas o protesto ocorreu sob palpável tensão. Havia receio de que a situação fugisse do controle, com a presença de tantos grupos radicais.

Um protesto de supremacistas brancos em Charlottesville, uma cidade próxima de Richmond, terminou em violência em 2017—um homem atropelou intencionalmente uma multidão ali, deixando um morto e 19 feridos.

Nos dias que antecederam o protesto desta segunda-feira, o FBI (a polícia federal americana) prendeu três membros de um grupo radical de direita que tinha planos de ir a Richmond e cometer atos de violência. Nesse contexto, o governador democrata Ralph Northam decretou um estado de emergência temporário pelo qual foi proibido o porte de arma nos arredores da sede do governo até a terça-feira (21) à tarde.

Um pedaço de papel colado em diversos pontos da cidade listava, um a um, os tipos proibidos durante o estado de emergência: armas de fogo, é claro, mas também facas, tesouras, estilingues, shurikens, tchacos, tochas etc. A reportagem da Folha teve de abrir mão de seu isqueiro para entrar no recinto.

Quem levou qualquer tipo de arma precisou ficar do lado de fora da sede do governo.  Abraçados a seus fuzis e vestindo roupas camufladas, manifestantes desafiavam as autoridades com cartazes dizendo “há mais patriotas do que algemas para prendê-los”.

Era comum a bandeira amarela associada ao movimento de extrema direta Tea Party —exibindo uma cascavel com a legenda “não pise em mim”.

“Precisamos de armas para proteger o povo da tirania dos governantes”, disse David Johnson, 22, que veio da Pensilvânia até a Virgínia para apoiar os protestos. “Eu preferia estar em casa com meus amigos, mas é um momento importante”, afirmou Levi Clark, 23, que viajou mais de oito horas vindo de Ohio.

Grupos pró-armas se reúnem todos os anos em Richmond, no que chamam de “dia do lobby”, para pressionar os legisladores estaduais. O evento, porém, costuma ser de pequeno porte. As coisas ganharam outra proporção neste ano.

Uma das razões é que, após vencer as eleições de novembro e controlar o governo de Virgínia pela primeira vez desde 1994, o Partido Democrata propôs uma série de medidas para restringir a compra e posse de armas no estado.

Por exemplo, o governo deve aprovar um limite de compra de apenas uma arma ao mês. Há também propostas para retirar armas semiautomáticas de quem for considerado um risco à sociedade.

“Não é porque eles ganharam a maioria legislativa que agora podem aprovar leis inconstitucionais”, diz Phil Hart, 61, sorrindo, com seu fuzil M1 Garand de 1942. A arma, usada na Segunda Guerra (1939-1945), incluía uma baioneta —que insistia em se enroscar na bandeira amarela que ele brandia.

Dessa maneira, se antes o assunto parecia importante, agora ganhou um ar de urgência para quem milita nos Estados Unidos pelo direito de se armar como bem quiser. Esse direito, afirmam, é garantido pela segunda emenda da Constituição.

Datada de 1791, a emenda diz que o povo tem o direito de possuir e usar armas de fogo. Essa afirmação foi repetida o dia todo em Richmond, com manifestantes citando palavra por palavra do texto. 

Os diversos grupos contrários à posse de armas afirmam, no entanto, que a segunda emenda foi ratificada em um contexto histórico bastante diferente e já não vale mais.

Segundo a polícia, 22 mil pessoas participaram da marcha, informou uma rádio local. Os organizadores esperavam entre 50 mil e 100 mil. Uma pessoa foi presa por usar uma máscara que escondia sua identidade.

A maior parte dos participantes eram homens brancos de meia-idade. Mas havia alguma variedade. Anna-Marie Lewis, 22, era uma das poucas mulheres carregando armas –ela portava um fuzil de tipo AR-15. “Se deixarmos, eles vão aprovar essas leis pouco a pouco, até não termos mais nenhum direito.”

Havia também pessoas com cartazes de “o direito às armas é um direito dos transexuais”, mais raros nesses eventos. Outros carregavam placas dizendo “quero que casais gays protejam suas plantações de maconha com armas”.

“A variedade torna esse protesto particularmente confuso”, afirma Megan Squire, professora da Universidade Elon e especialista em extremismo online. “Não é apenas sobre direita ou esquerda. Há mais de dois tipos de visão de mundo.” Mesmo quem participa dos protestos tem dificuldade em saber o que apoia, ela diz.

Squire acompanha os canais subterrâneos em que radicais de extrema direita conversam na internet. Segundo ela, após a prisão dos três membros de um grupo nazista pelo FBI, o ruído diminuiu consideravelmente, em parte porque os radicais se deram conta de que o policiamento seria pesado na segunda-feira.

Os próprios organizadores do evento aparentemente se empenharam para que a situação não saísse do controle. Em instruções circuladas aos participantes, os líderes pediram que ninguém trouxesse armas de tipo militar ou tentasse comprar briga com os grupos contrários à manifestação.

Mas o fato de que o evento tomou tamanha proporção, atraindo tanta atenção, parece ter condenado os participantes a uma representação negativa, a despeito de seus esforços. “A imagem de tantas pessoas com armas assusta a maior parte dos americanos”, diz Squire. Independentemente de eles as utilizarem ou não.

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