Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Exposição nos Arquivos Nacionais dos EUA altera fotos críticas a Trump

Registros da Marcha das Mulheres de 2017 foram adulterados para omitir cartazes contra presidente

Washington | The Washington Post

A grande fotografia colorida que recebe os visitantes de uma exposição nos Arquivos Nacionais em comemoração ao centenário do sufrágio feminino mostra uma enorme multidão ocupando a Avenida Pennsylvania na Marcha das Mulheres em 21 de janeiro de 2017, um dia após a posse do presidente Donald Trump.

A fotografia de aproximadamente 125 por 180 centímetros é uma imagem poderosa. Vista de uma perspectiva, mostra a marcha de 2017. Por outro ângulo, muda para mostrar uma imagem preto e branco de 1913 da marcha pelo voto feminino, também na Avenida Pennsylvania. A tela relaciona manifestações importantes pelos direitos das mulheres com mais de um século de distância no mesmo trecho da avenida.

Mas um olhar mais atento revela uma história diferente.

Trump está de braço abertos diante de uma bandeira estadunidense
Presidente Donald Trump comparece ao comício "Keep America Great" (manter os EUA ótimos) em Wisconsin - Saul Loeb/AFP

Os Arquivos reconheceram em comunicado nesta semana que fizeram várias alterações na foto da Marcha das Mulheres de 2017 exposta no museu, desfocando as placas erguidas por manifestantes que criticavam Trump. Palavras que mencionavam a anatomia feminina também foram borradas.

Na versão original da foto de 2017, feita pelo fotógrafo Mario Tama, da agência Getty Images, a rua está cheia de manifestantes que carregam placas variadas, com o Capitólio ao fundo. Na versão nos Arquivos, pelo menos quatro dessas placas foram alteradas.

Um cartaz que proclamava "Deus odeia Trump" teve "Trump" apagado, e ficou apenas "Deus odeia". Outro que dizia "Trump & Partido Republicano — Tirem as mãos das mulheres" teve o nome do presidente borrado.

Placas com mensagens que faziam referência à anatomia das mulheres —que eram predominantes na marcha —também foram alterados digitalmente. Uma que dizia "Se minha vagina pudesse disparar balas, seria menos REGULADA" teve "vagina" borrada. E outra que dizia algo como "Esta gatinha morde" (pussy) também teve a palavra "pussy" apagada.

Os Arquivos disseram que a decisão de ocultar as palavras foi tomada quando a exposição estava sendo organizada por gerentes da agência de fotos e funcionários do museu. O museu disse que David Ferriero, arquivista dos Estados Unidos que foi nomeado pelo presidente Barack Obama em 2009, participou das conversas sobre a exposição e apoiou a decisão de editar a foto.

"Como uma agência federal apartidária e apolítica, borramos referências ao nome do presidente em alguns cartazes, para não nos envolvermos na controvérsia política atual", disse a porta-voz do arquivo, Miriam Kleiman, em comunicado por e-mail. "Nossa missão é proteger e fornecer acesso aos registros federais mais importantes do país, e nossas exposições são uma maneira de conectar o povo americano a esses registros. Modificar a imagem foi uma tentativa nossa de manter o foco nos registros."

Os funcionários do arquivo não responderam a uma solicitação para dar exemplos de casos anteriores em que os arquivos alteraram um documento ou fotografia para não se envolverem em polêmica política.
Kleiman disse que as imagens das marchas de 2017 e 1913 foram apresentadas juntas "para ilustrar as contínuas lutas das mulheres por seus interesses".

A decisão de anular as referências aos órgãos genitais femininos foi tomada porque o museu recebe muitos grupos de estudantes e jovens, e as palavras poderiam ser consideradas inapropriadas, disse Kleiman no comunicado.

Kleiman afirmou que os Arquivos Nacionais "só alteram as imagens nas exposições quando elas são usadas como componentes de design gráfico".

"Não alteramos imagens ou documentos que são exibidos como artefatos em exposições", disse ela. "Neste caso, a imagem faz parte de uma exibição promocional, não de um artefato."

Quando informados sobre a ação dos Arquivos, historiadores importantes expressaram consternação.

"Não há razão para os Arquivos Nacionais alterarem digitalmente uma fotografia histórica", disse o historiador Douglas Brinkley, da Universidade Rice. "Se eles não quiserem usar uma imagem específica, não a usem. Mas confundir o público é repreensível. O chefe dos Arquivos precisa corrigir rapidamente esse dano. Muita história é confusa, e não há motivo pelo qual os Arquivos não possam ser francos sobre uma foto de uma marcha feminina."

Wendy Kline, professora de história da Universidade Purdue, disse achar preocupante que os Arquivos optem por eliminar as referências à vagina de uma imagem da Marcha das Mulheres, especialmente quando fazia parte de uma exposição sobre o movimento sufragista. Centenas de milhares de pessoas participaram da marcha de 2017 no distrito, que foi amplamente considerada um protesto à vitória de Trump.

"Modificar uma fotografia comemorativa sugere que não há problema em silenciar a voz e os atos das mulheres", disse Kline em um e-mail. "É literalmente apagar algo que foi captado com precisão pela câmera. Essa é uma tentativa de apagar uma mensagem poderosa."

A fotografia alterada recebe os visitantes à exposição "Rightfully Hers: American Women and the Vote" [Delas por direito: as mulheres americanas e o voto], que foi inaugurada em maio comemorando o centenário do sufrágio feminino. A 19ª Emenda à Constituição dos EUA, ratificada em 1920, proíbe que o governo federal e os estados neguem o direito de voto com base no sexo.

"Esta vitória marcante dos direitos ao voto foi possível graças a décadas de persistente envolvimento político das sufragistas, e é apenas um dos marcos críticos na batalha das mulheres pelo voto", diz um comunicado de imprensa anunciando a exposição no site dos Arquivos.

O porta-voz dos Arquivos, John Valceanu, disse que as modificações propostas foram enviadas à Getty para aprovação, e a agência "licenciou nosso uso da imagem".

Uma porta-voz da Getty, Anne Flanagan, confirmou que a imagem foi licenciada pela National Archives Foundation, mas disse em um e-mail na sexta-feira (17) à noite que a Getty ainda estava determinando se aprovava alterações na imagem.

Karin Wulf, professora de história no College of William & Mary e diretora-executiva do Instituto Omohundro de História e Cultura Americanas, disse que os Arquivos deveriam ter salientado no local que a foto foi alterada, para garantir a transparência.

"Os Arquivos sempre se preocuparam com a responsabilidade de informar sobre o material de origem e, nesse caso, poderiam ter dito, ou deveriam ter dito: 'Editamos esta imagem da seguinte maneira, pelos seguintes motivos'", disse ela. "Se não há transparência e integridade nos documentos do governo, a democracia não funciona."


Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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