San Francisco classifica lobby pró-armas dos EUA como organização terrorista

Grandes varejistas proíbem que clientes portem armas abertamente em suas lojas

São Paulo

Na terça (3), o órgão legislativo de San Francisco declarou a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), o principal lobby pró-armas norte-americano, como uma organização terrorista nacional.

Também nesta semana, alguns dos maiores varejistas dos EUA começaram a pedir aos clientes que não entrem em suas lojas portando armas de fogo abertamente.

Segundo Catherine Stefani, supervisora que propôs a medida dois dias após o ataque a tiros na festa do alho de Gilroy, no qual três pessoas foram mortas, a resolução foi tomada em resposta às cada vez mais frequentes ações com armas no país.

Stefani culpou a NRA tanto pela proliferação de armas quanto pelos crimes. O Departamento de Justiça norte-americano classifica atentados em massa quando três ou mais pessoas são assassinadas em um único episódio, excluindo-se a morte do atirador.

Só em agosto, 53 pessoas morreram em chacinas com armas de fogo, dentre as quais 22 em El Paso, no Texas, nove em Dayton, Ohio, e mais sete em Odessa, também no Texas. 

A resolução do Conselho de Supervisores de San Francisco não tem efeito prático, mas serve como afirmação de valores. ​

“A NRA existe para espalhar a desinformação e conscientemente coloca armas nas mãos daqueles que nos prejudicariam e aterrorizariam, bloqueando qualquer legislação de bom senso de prevenção à violência por armas fogo", disse Stefani.

Segundo ela, o lobby advoga por leis perigosas, como o transporte sem permissão e a presença de armas nas escolas, do jardim de infância à universidade. Além disso, a NRA atrapalharia as pesquisas sobre a violência com armas de fogo, e restringiria a distribuição de informações sobre este tipo de crime.

“É hora de livrar este país da NRA e chamá-los pelo o que realmente são: uma organização terrorista doméstica", afirmou.

A NRA respondeu, dizendo que a resolução era uma "manobra ridícula" para desviar a atenção dos habitantes de San Francisco dos reais problemas da cidade, que seriam o aumento do número de moradores de rua e de abuso de drogas, bem como de pequenos crimes.

Em uma rede social, a associação acrescentou que as vítimas reais de terrorismo são as pessoas que morreram no 11 de Setembro e que San Francisco deveria se sentir envergonhada.

Neste mesmo post, a NRA se declarou "o tecido da sociedade americana". "Somos professores, doutores, policiais e todos que lutam pelas liberdades da América."  

No mesmo dia em que a resolução foi aprovada, a rede de supermercados Walmart, palco de dois ataques recentes com saldo de 24 mortes, anunciou que pedirá aos clientes que não entrem em suas lojas portando armas abertamente —ou seja, à mostra.

A rede afirmou que começará a colocar uma sinalização do lado de fora das lojas. O porte "escondido", quando a arma está parcialmente dentro da calça e sob uma camisa, por exemplo, seguirá permitido, desde que o cliente tenha a permissão legal para o porte.

Diversas lojas do supermercado foram palco de incidentes nas últimas semanas. 

Tentando impressionar, clientes entravam mostrando armas, e acabavam por assustar funcionários e frequentadores. Houve também episódios em que as pessoas foram obrigadas a abandonar o estabelecimento, e a polícia teve que ser chamada.

A maior varejista norte-americana, responsável por vender 2% das armas de fogo no país e 20% da munição, também informou que planeja parar de comercializar munição para armas de mão no Alaska —único estado onde vende tais armamentos— e alguns tipos de rifles.

A data em que esta medida entrará em vigor não foi anunciada.​ 

Vigília em Nova York em homenagem aos mortos nos atentados de Dayton e El Paso - Eduardo Munoz/Reuters

As duas maiores redes de farmácias do país, CVS e Walgreens, e a cadeia de supermercados Wegman também adotaram a medida nesta quinta (5), mas não está claro como será sinalizado aos clientes que eles devem deixar suas armas de fogo do lado de fora.

​Todos os varejistas seguem permitindo que policiais entrem nos estabelecimentos portando armas abertamente. 

Depois das chacinas de El Paso e Dayton, a Associação Nacional do Rifle passou a sofrer grande pressão.

Trump sinalizou que poderia estar disposto a enrijecer os padrões para o comércio de fuzis, pistolas e afins, mas a NRA rechaça medidas como a checagem de antecedentes criminais e doenças mentais de compradores.

A organização deu R$ 120 milhões para o republicano durante a campanha que o levou à Presidência.

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