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The New York Times Eleições EUA 2020

Com vantagem cada vez maior de Biden, futuro das primárias fica turvo com coronavírus

Votação desta terça (17) em Arizona, Flórida e Illinois permite quatro conclusões sobre a disputa democrata

Shane Goldmacher
The New York Times

Joe Biden venceu por uma larga margem os três estados que realizaram primárias democratas na terça-feira (17): Flórida, Illinois e Arizona. Com isso, Bernie Sanders perdeu muito terreno na contagem total de delegados para a convenção do partido.

E a pandemia de coronavírus continuou a semear o caos nos aspectos mais básicos da vida americana, ameaçando atrapalhar ou mesmo impossibilitar o calendário remanescente da disputa.

Com quase 60% dos delegados em jogo pela indicação presidencial democrata já alocados, Biden tem uma vantagem muito grande em relação a Sanders, com quase 300 delegados a mais que seu rival. Com esse número, é estatisticamente improvável que o senador por Vermont consiga zerar a diferença.

Joe Biden (esq.) e Bernie Sanders durante o debate democrata realizado domingo (15)  em Washington
Joe Biden (esq.) e Bernie Sanders durante o debate democrata realizado domingo (15) em Washington - Kevin Lamarque - 15.mar.20/Reuters

“Esta corrida já terminou?”, perguntou no Twitter na noite de terça-feira (17) o deputado Hakeem Jeffries, de Nova York, um dos líderes da bancada democrata na Câmara.

Num sinal de sua posição cada vez mais difícil, pela segunda semana consecutiva, Sanders nem tentou apresentar os resultados sob uma ótica diferente, optando por não dar declarações públicas depois de anunciados os resultados de cada estado.

Mesmo assim, não está claro o que vai acontecer agora, nem para Sanders nem para a própria primária.

A primária da Geórgia deveria acontecer na próxima semana, mas foi adiada. E, em vista da sequência de performances fracas do senador, é provável que a pressão para que ele desista da corrida apenas aumente, ao mesmo tempo em que a pandemia congelou os esforços tradicionais para fazer campanha política e levou muitos estados a adiar suas eleições previstas.

Veja quatro conclusões a serem tiradas pelos dois partidos políticos de uma noite de primárias em três Estados chaves:

Biden está ganhando em quase todo lugar –por margem grande

Apenas 35 dias se passaram desde que Biden esteve em seu patamar mais baixo nas primárias de 2020: o quinto lugar em New Hampshire, um resultado tão humilhante que ele deixou o estado antes do término da votação e viajou à Carolina do Sul para montar o que talvez fosse sua última resistência.

Agora Biden está derrotando Sanders decisivamente em todas as regiões do país. Uma pesquisa conduzida com eleitores na Flórida indicou que Biden estava à frente entre homens e mulheres, eleitores brancos e não brancos, com ou sem instrução superior –com mais de 60% do voto em todas as faixas do eleitorado.

A vitória foi tão completa que Biden estava liderando na Flórida mesmo entre os democratas ditos “muito liberais”, uma base típica de Bernie Sanders. Seu domínio era semelhante em Illinois.

Na realidade, Biden liderava em todos os condados da Flórida, em alguns casos com o triplo ou o quádruplo dos votos dados a Sanders, do mesmo modo como venceu em todos os condados de Michigan, Mississippi e Missouri uma semana atrás.

No site de Bernie Sanders, logo abaixo do lugar onde ele pede que o visitante deixe seu endereço de email, há uma faixa enorme dizendo “Bernie derrota Trump”. Mas suas derrotas na Flórida e no Arizona, uma semana depois de Biden tê-lo esmagado no estado chave de Michigan, prejudicaram gravemente qualquer argumento que ele pudesse apresentar sobre sua elegibilidade.

Sanders ainda aprecia seu megafone

Bernie Sanders pode não ter feito o discurso tradicional da noite de eleições, mas promoveu na noite de terça um evento que foi transmitido ao vivo por streaming, no qual apresentou uma proposta para combater a possível recessão provocada pelo coronavírus: pagamentos mensais de US$ 2.000 (R$ 10.200) para cada família americana enquanto a crise durar.

O evento simbolizou quase perfeitamente, e quase sem querer, a situação em que o próprio Sanders se encontra na corrida: um candidato que defende mais suas ideias que a si mesmo e que valoriza profundamente a plataforma que sua pré-candidatura presidencial garante à sua agenda.

Sanders pediu que quaisquer medidas fiscais que Washington venha a adotar para combater a pandemia não equivalham a “mais uma oportunidade para as empresas e Wall Street ganharem dinheiro”.

Mesmo assim, alguns membros de sua equipe parecem estar querendo travar uma disputa prolongada nas primárias, embora poucos saibam exatamente o que pretendem fazer agora o próprio Sanders e sua esposa, Jane.

Biden está voltando sua atenção à eleição geral, ao mesmo tempo em que procura atrair os seguidores de Sanders

Em discurso ao país na noite de terça-feira, de sua casa, em Wilmington, Delaware, Biden falou em primeiro lugar sobre o vírus que está virando do avesso a vida das pessoas.

Ele voltou seu olhar muito mais para a eleição geral, que acontecerá em novembro, do que para os resultados das primárias da noite.

“Este é um momento em que precisamos que nossos líderes liderem”, disse Biden.

Ele evocou empatia pelos que estão sofrendo, orou pelos doentes, manifestou sua preocupação com o fato de os hospitais estarem sobrecarregados e citou as dificuldades pelas quais os americanos comuns estão passando.

Biden tentou novamente e explicitamente buscar a adesão dos seguidores de Sanders, citando o “compromisso e a tenacidade notáveis” de seu rival e dos seguidores dele.

“Temos uma visão em comum”, disse, aludindo especificamente à meta de “garantir atendimento de saúde a todos os americanos, a preços acessíveis,” e o combate à mudança climática.

O coronavírus turva o futuro das primárias

O que virá a seguir é um grande ponto de interrogação.

A Geórgia adiou sua primária, que ocorreria na próxima semana. Ohio deveria ter votado na terça-feira, mas seu governador adiou a prévia.

Kentucky, Maryland e Louisiana também adiaram suas primárias ou indicaram que o farão.

E a maior parte das primárias futuras estão no limbo devido às restrições aos encontros em grupo que estão sendo anunciadas ou propostas por autoridades estaduais e federais.

“No momento em que nosso país enfrenta a incerteza da Covid-19, é crucial que os estados nos deem clareza, e não confusão, algo que poderia levar os eleitores a perder a oportunidade de votar”, disse na terça-feira o presidente do Comitê Nacional Democrata, Tom Perez, exortando os estados remanescentes a permitirem o voto pelo correio.

O comparecimento dos eleitores na terça-feira foi desigual.

No Arizona, o prefeito de Phoenix, a maior cidade do estado, ordenou o fechamento de bares e restaurantes a partir das 20h de terça-feira, pouco após o fechamento das urnas.

Mas o índice de comparecimento de eleitores às urnas no condado de Maricopa (que abrange Phoenix) foi mais alto na primária de 2020 do que na de 2016.

Na Flórida, o comparecimento total acabou superando o da primária democrata de 2016, mas isso ocorreu em grande medida devido ao grande número de eleitores que votou antecipadamente.

Em Illinois, o total de votos foi muito inferior aos 2 milhões que compareceram às primárias de 2016.

Por enquanto, Biden pode esperar que na próxima vez que os eleitores vão às urnas ele será o único candidato restante.

Tradução de Clara Allain

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