Descrição de chapéu Coronavírus

Coronavírus diminui voluntários e doações para moradores de rua de Los Angeles

Para evitar que a doença se espalhe, prefeitura transforma centros recreativos em abrigos temporários

Los Angeles

Faz uma semana, a vida de Theodore Henderson ficou ainda mais complicada. O prefeito de Los Angeles pediu aos moradores da cidade para ficarem em casa, mas Henderson não tem casa há sete anos.

A organização que dava refeições gratuitas no seu bairro perdeu muitos voluntários e interrompeu o serviço, e o centro em que ele usava o banheiro diariamente também foi fechado.

“Agora tenho que andar mais de 10 km para ir ao banheiro. Nem o Starbucks nos deixa usar mais seus banheiros”, disse Henderson por telefone no domingo. “E te contei que torci o pé?”

Henderson, autor de um podcast sobre os sem-teto de Los Angeles, faz parte das mais de 60 mil pessoas no condado sem moradia.

Para evitar que o coronavírus se espalhe entre a população mais fragilizada, a prefeitura está transformando 43 centros recreativos em abrigos temporários, com camas a dois metros de distância, além de distribuir uma espécie de pia móvel para a lavagem das mãos em locais com aglomerações de tendas nas calçadas.

Barracas de sem-teto na área conhecida como Skid Row, em Los Angeles
Barracas de sem-teto na área conhecida como Skid Row, em Los Angeles - Apu Gomes/AFP

“A maioria dos desabrigados do país faz um trabalho excelente de distanciamento social por conta do desprezo e da criminalização que recebemos da sociedade. Acham que somos drogados, criminosos, doentes”, disse Henderson, 46, que dava aula de artes marciais até perder sua casa com o aumento excessivo do aluguel.

Há sete anos, passou a dormir no carro, depois em hotéis e agora nas ruas. Hoje, dorme ao relento num parque em Chinatown, debaixo da cobertura do prédio de um centro de recreação.

O centro fechou na semana passada, mas vai virar abrigo nos próximos dias. Henderson não tem o menor interesse.

“É muito desconcertante. Os abrigos existentes são famosos pelas infecções de pele e, antes do coronavírus, a gripe já estava circulando rapidamente”, disse o criador do podcast “We the Unhoused” (nós, os sem casa), feito com seu celular e editado com ajuda de uma ONG.

“Notei que os desabrigados não sabem bem o que está acontecendo. As bibliotecas, onde muitos usam internet, informam-se e carregam seus celulares, estão fechadas.”

Na Califórnia, já foram registrados 1.828 testes positivos de coronavírus e 35 mortes, incluindo 411 casos e cinco mortes em Los Angeles.

O governador Gavin Newsom anunciou um fundo de emergência de US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões), dos quais US$ 150 milhões (R$ 769 milhões) serão para iniciativas que ajudem os mais de 100 mil sem-teto da Califórnia.

O estado comprou 1.300 trailers e alugou dois hotéis para isolamento de emergência de pessoas doentes em situação de rua.

O maior temor da população sem-teto segue sendo a força policial, que durante as limpezas das ruas joga fora os pertences de quem mora nas calçadas.

Agora, o medo que se espalhou entre eles é de que os policiais sejam os principais transmissores da Covid-19.

Na semana passada, três policiais de Los Angeles tiveram a doença diagnosticada e foram afastados do trabalho. Um deles era da divisão que fazia patrulhas no centro da cidade, onde mora boa parte dos desabrigados, numa região conhecida como Skid Row.

“Nós não passamos férias nos alpes suíços e voltamos para Skid Row, certo?”, ironizou Henderson.

No domingo, as ruas de Skid Row seguiam lotadas de tendas e gente sentada nas calçadas. Dois policiais patrulhavam uma esquina fora de seus veículos, sem máscaras.

A região fica a 10 km de Hollywood e é composta por alguns quarteirões repletos de grandes armazéns comerciais e organizações sem fins lucrativos que prestam serviços aos sem-teto.

No final de semana, muitas dessas organizações reduziram ou interromperam completamente seus serviços por falta de voluntários. Mas não a Midnight Mission, a maior e uma das mais antigas instituições do local, que funciona à base de doações, sem ajuda governamental.

Cerca de 1.500 pessoas receberam refeições no domingo à noite, o triplo do número que o grupo costuma atender. O refeitório do complexo de três andares ficou fechado, e os lanches foram retirados em embalagens preparadas por 15 voluntários.

“Nossos principais doadores de comida são supermercados. E todas as doações foram reduzidas drasticamente por causa das pessoas que estão estocando loucamente, limpando as prateleiras”, disse à Folha Georgia Berkovich, diretora de políticas públicas da Midnight Mission.

“Geralmente, recebemos oito caixas de comida do Starbucks todos os dias. Mas hoje [segunda] vieram só duas.”

A executiva interrompe a conversa quando alguém entra no seu escritório para limpar as maçanetas. “Estamos limpando tudo a cada duas horas ou algo assim.”

Funcionários e voluntários precisam ter a temperatura checada antes de entrar no prédio, assim como as pessoas que moram nas dependências do edifício, como parte de um programa de recuperação. Os banheiros e chuveiros do complexo continuam abertos 24 horas.

“Ainda não tivemos caso de alguém doente”, disse.

Apesar da queda nas doações regulares, a Midnight Mission teve boas surpresas. O Staples Center, arena de shows e casa do time de basquete Los Angeles Lakers, doou ao grupo três toneladas de comida que seriam desperdiçadas devido à suspensão de eventos no local.

Uma equipe que está realizando um seriado documental na Midnight Mission também trouxe um caminhão de doações, incluindo produtos frescos, laticínios e carnes.

“Estávamos completamente sem pão. E de repente chegou esse caminhão surpresa, foi incrível”, disse Berkovich. “É como as coisas costumam acontecer por aqui. Somos uma organização comunitária, e o problema dos sem-teto é de todos nós, assim como as soluções.”

Em dia de sol, Los Angeles tem parques lotados

Após uma semana de chuvas, o sol voltou a Los Angeles, e os parques da cidade encheram. O prefeito havia pedido para a população ficar em casa, mas não desencorajou exercícios ao ar livre, contanto que mantido distanciamento social.

Não foi bem o que aconteceu. No sábado, o pequeno estacionamento do parque Runyon Canyon, que começa no bairro turístico de Hollywood e termina nas colinas da estrada Mulholland Drive, tinha uma enorme fila de carros à espera e dois veículos da prefeitura para organizar a movimentação e distribuir multas.

Na entrada do parque, um cartaz avisava para os frequentadores manterem distância de 2 metros, apressarem ou diminuírem o passo para dar passagem e criar espaço, além de evitarem tocar nos cachorros de outras pessoas.

Nas mídias sociais, Runyon Canyon chegou a liderar os tópicos comentados, a maioria criticando os frequentadores.

Com academias de ginástica fechadas, outros parques também tiveram aumento de visitantes, como o Griffith Park, famoso pelas trilhas e vistas do letreiro de Hollywood.

Mas o trânsito na cidade diminuiu bastante, e muitos locais ficaram vazios, como a calçada da fama em Hollywood, a Rodeo Drive em Beverly Hills e o calçadão da praia de Venice, com exceção de alguns ciclistas, corredores e patinadores.

No domingo, os estacionamentos de todas as praias da região, como Santa Mônica, Venice e Malibu, foram fechados para diminuir a frequência.

E na segunda-feira, novas restrições foram anunciadas, fechando campos de golfe, acessos a praias e qualquer esporte organizado.

Os parques nacionais da Califórnia, como Yosemite e Joshua Tree, fecharam suas estradas e interromperam seus serviços, frustrando os planos de quem pensava em escapar do coronavírus acampando ao ar livre.

Quem ficou em casa pode fazer como os italianos: um grupo de residentes do bairro Laurel Canyon, conhecido por abrigar muitos cantores de folk music nos anos 1970, organizou via redes sociais uma cantoria para a noite de domingo.

Muita gente abriu as portas e janelas de suas casas para cantar “You’ve Got a Friend”, de Carole King.

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