Descrição de chapéu Coronavírus

Com dados sob dúvidas, México vê Mandetta local ganhar protagonismo

Governo chegou a celebrar os resultados, mas números oficiais foram questionados

Buenos Aires

Em menos de uma semana, o México foi da comemoração por supostos avanços na luta contra o coronavírus ao temor de que os dados oficiais na verdade estão subestimando o problema.

Reportagens de três jornais estrangeiros usaram diferentes técnicas de cálculo para concluir que os números do governo não estão informando corretamente a população sobre o tamanho da pandemia no país.

Oficialmente, o México registrava até o domingo (10) 33.460 infectados e 3.353 mortos.

Rosa Leyva (dir.) e sua sobrinha Viridiana aguardam clientes em sua barraca, onde ela vende arranjos de flores de plástico e imagens religiosas, fora do cemitério de San Rafael, em Ciudad Juarez, no México
Rosa Leyva (dir.) e sua sobrinha Viridiana aguardam clientes em sua barraca, onde ela vende arranjos de flores de plástico e imagens religiosas, fora do cemitério de San Rafael, em Ciudad Juarez, no México - José Luis Gonzalez - 7.mai.20/Reuters

Na última segunda (4), o subsecretário de Saúde (cargo equivalente ao de ministro), Hugo López-Gatell, anunciou, em pronunciamento realizado no Palácio Nacional, que o México “estava ganhando” a luta contra o vírus e disse que os os números eram encorajadores.

“Ainda temos uma grande capacidade de resposta aos casos e conseguimos achatar a curva [de contágios]”, comemorou.

O subsecretário começou a chamar a atenção por liderar a mudança de postura do governo sobre o assunto.

No início, o presidente Andrés Manuel López Obrador minimizou a Covid-19 e se recusou a implementar regras de isolamento social e de fechamento da economia. Ele chegou a gravar um vídeo em um restaurante popular estimulando as pessoas a saírem de casa e a comerem fora.

Mas após uma chuva de críticas internas e do exterior e do aumento no número de casos, o presidente mudou de posição.

Primeiro, gravou um vídeo pedindo que as pessoas ficassem em casa. Depois, passou para López-Gatell o protagonismo da luta contra a doença, o transformando em uma celebridade —semelhante ao que aconteceu no Brasil com o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.

Suas apresentações claras, recheadas de gráficos e cálculos, aparentavam controle da situação. Ele também recebeu elogios pela estratégia de adotar diferentes abordagens para cada região do país —áreas com mais casos receberam orientações mais restritivas, enquanto as com menos casos puderam manter uma certa flexibilização.

Sua pasta também criou uma campanha na qual uma personagem chamada Susana Distancia explica em desenhos animados e de modo didático como são as regras para evitar o contágio.

Para enfrentar a pandemia, o México fechou comércio, indústria e escolas. O governo não proibiu as pessoas de irem para a rua, mas a recomendação é que elas fiquem em suas casas.

A tática parecia estar funcionando até a quinta (7), quando a imprensa internacional publicou reportagens contestando os dados oficiais.

O americano The Wall Street Journal analisou os atestados de óbitos no país e encontrou um aumento nas mortes por “pneumonia atípica”. A reportagem afirma que a cada 100 mortos assim designados até 60 podem ter tido o coronavírus, mas apenas quatro foram identificados assim.

Já o New York Times visitou hospitais e conversou com médicos para concluir que os números de casos na Cidade do México, principal epicentro da Covid-19 no país, deve ser pelo menos três vezes maior do que é informado pelo governo.

O espanhol El País, por outro lado, usou os dados oficiais em seu cálculo e relatou que o número de infectados no país deve estar entre 620 mil e 730 mil.

O jornal espanhol criticou duramente o sistema usado pela administração, que recolhe os registros de doenças respiratórias de apenas 425 centros clínicos (dos 26 mil existentes) em todo o
país para elaborar uma estimativa nacional.

“Não deveria ser uma surpresa para o governo o fato de haver mais infectados. A conta que fizemos foi a partir dos números que eles mesmos poderiam ter, se fizessem uma amostragem mais ampla”, diz o analista de dados Jorge Galindo.

Em vídeo, López-Gatell disse ter ficado surpreso com a publicação das três reportagens no mesmo dia. Ele também criticou os jornais por, segundo ele, terem dado voz a membros de governos anteriores e a “pessoas interessadas em atuar no meio político ou que estão vinculadas à indústria farmacêutica”.

O subsecretário contestou as projeções feitas pelos jornais, mas admitiu que há subnotificação das mortes pelo novo coronavírus no país.

“Não sei como esses jornais podem dar números, pois é impossível sabê-los com exatidão”, afirmou. Ele também disse que usa outros dados —como a capacidade de ocupação dos hospitais— para definir as políticas do governo.

“Não é necessário saber o número exato de casos. Se tentarmos fazer isso, perderemos tempo no esforço. O que precisamos é entender os dados que podemos ter e a mecânica da epidemia”, afirmou.

Ele recebeu o apoio do presidente López Obrador, que afirmou que o pico do contágio da doença aconteceria até o sábado (9). Segundo o mandatário, o contágio no país deve começar a diminuir a partir do dia 20 de maio.

Na quinta (7), López-Gatell afirmou também que o governo aposta na chamada imunidade de rebanho —cenário no qual a porcentagem de pessoas que já foram infectadas pela Covid-19 e se curaram é elevada o suficiente para que sirvam de “escudo” das que ainda não tiveram a doença.

Um dos principais problemas do combate à epidemia no México é o fato de o país fazer poucos testes, menos inclusive que o Brasil.

Segundo informações da própria Secretaria de Saúde mexicana, a taxa de testes no país é de 0,4% por cada mil habitantes, sendo que a média dos países integrantes da OCDE (o clube de países ricos) é de 22,9%.

Para o epidemiologista José Luis Alomía, da Secretaria da Saúde do México, o país tem testado bem dentro de suas possibilidades.

O governo afirma que 110 mil pessoas já foram testadas e que na próxima semana devem ser divulgados o resultados de outras 300 mil amostras. Essa quantidade, segundo Alomía, é suficiente para balizar quais políticas o país deve adotar e definir como será a reabertura da economia.

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