Manifestantes ateiam fogo a delegacia em 3º dia de protestos contra morte de negro por policial nos EUA

Governador de Minnesota aciona Guarda Nacional para conter distúrbios; agente que matou George Floyd é alvo de 18 inquéritos disciplinares

Minneapolis e São Paulo | Reuters

Manifestantes atearam fogo a uma delegacia em Minneapolis, no estado americano de Minnesota, durante o terceiro dia de protestos após o assassinato de George Floyd, um homem negro que teve o pescoço prensado contra o chão pelo joelho de um policial branco.

Os policiais abandonaram o edifício antes do início do incêndio. Não se sabe se pessoas ficaram feridas no episódio.

Mais cedo na noite de quinta-feira (28), o governador Tim Waltz havia acionado a Guarda Nacional, que enviou cerca de 500 soldados para ajudar a conter as manifestações contra a violência policial. Nos últimos dias, foram registrados saques e atos de vandalismo nos protestos.
Manifestantes erguem seus punhos diante das chamas em delegacia em Minneapolis - Kerem Yucel/AFP

O presidente Donald Trump declarou apoio à medida de Waltz e colocou as tropas federais à disposição das autoridades de Minnesota. No Twitter, Trump chamou os manifestantes de "bandidos" e sugeriu o uso de armas de fogo para interromper a onda de saques.

"Estes BANDIDOS estão desonrando a memória de George Floyd, e eu não deixarei que isso aconteça. Acabei de conversar com o governador Tim Waltz e disse que o Exército está com ele até o fim. Qualquer dificuldade e nós assumiremos o controle, mas quando começam os saques, [também] começam os tiros", disse o presidente.

O Twitter inclui um aviso na mensagem de Trump, dizendo que o conteúdo viola as regras da rede social por promover a "glorificação da violência".

Mais cedo, em Louisville, no estado de Kentucky, sete pessoas foram alvejadas por balas durante um protesto contra o assassinato de Breonna Taylor, uma mulher negra morta dentro de casa em março. Ao menos uma pessoa segue em estado grave.

Na manhã desta sexta (29), Omar Jimenez, repórter da emissora americana CNN, foi detido enquanto transmitia, ao vivo, atualizações sobre os protestos em Minneapolis. Ele é negro. Um produtor e um cinegrafista da equipe também foram algemados pela polícia estadual, sem qualquer explicação. A câmera continuou gravando e tudo foi transmitido ao vivo durante um telejornal matinal.

"Um repórter da CNN e sua equipe de produção foram presos nesta manhã em Minneapolis por fazerem seu trabalho, apesar de se identificarem —uma clara violação dos direitos da Primeira Emenda. As autoridades de Minnesota, incluindo o governador, devem libertar os três funcionários da CNN imediatamente", escreveu a emissora no Twitter.

O Departamento de Justiça anunciou uma investigação sobre a morte de Floyd, ocorrida na segunda-feira (25). Em uma entrevista coletiva, a procuradora dos EUA Erica McDonald prometeu uma "investigação robusta e meticulosa" sobre o incidente, mas não chegou a denunciar os quatro policiais envolvidos na abordagem de Floyd.

Segundo o Departamento de Polícia de Minneapolis, Floyd foi preso no início da noite de segunda (25) e morreu após "um incidente médico durante uma interação policial".

Os agentes afirmaram que responderam a um chamado segundo o qual um homem tentava usar cartões ou notas falsificadas em uma loja de conveniência na cidade. Ao chegarem ao local, segundo a polícia, Floyd estava sentado em cima de um carro e resistiu à prisão.

As imagens e a voz estremecida de Floyd, dizendo que não conseguia respirar, foram registradas por uma pessoa que passava pelo local em um vídeo que viralizou na internet.

Na gravação, é possível ouvir diversas pessoas que se aglomeravam em volta da cena pedindo que o agente parasse e alertando que o nariz de Floyd sangrava.

Após alguns minutos, o homem imobilizado para de se mexer e fica em silêncio, antes de ser colocado em uma maca e levado em uma ambulância. Perto das 22h, ele foi declarado morto pelo hospital da região.

O policial que aparece pressionando Floyd contra o chão, Derek Chauvin, já foi objeto de 18 inquéritos disciplinares, dos quais 16 foram encerrados sem nenhum tipo de punição.

Manifestações continuam no sul de Minneapolis, onde os moradores protestam contra o que dizem ser uma cidade em que vidas negras são menos valorizadas do que as dos brancos.

"A morte de George Floyd representa todas as lutas, todas as batalhas pelo progresso dos negros nesta cidade", disse Mike Griffin, líder comunitário de Minneapolis.

“Queremos justiça para George Floyd”, continuou ele, “mas isso também é uma questão de dignidade negra. Tivemos que lutar com unhas e dentes até pelos padrões mais básicos de vida. Se você é branco, esta é uma ótima cidade. Se você é negro, é uma luta todos os dias.”

Mervin Carter, prefeito de Saint Paul, capital do estado de Minnesota e cidade vizinha a Minneapolis, também solicitou a presença da Guarda Nacional.

O caso provocou protestos em outras partes dos Estados Unidos. Manifestantes se reuniram em Los Angeles na noite de quarta (27) e na Union Square, em Nova York, na quinta (28).

Policiais de todo o país condenaram as ações dos agentes numa rara e contundente demonstração de repúdio de membros da própria categoria a um episódio de uso excessivo da força contra homens negros.

Também nesta quinta-feira, a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu às autoridades dos EUA que enfrentem a "discriminação racial arraigada e generalizada" no sistema de justiça criminal americano.

'Black Lives Matter'

A morte de Floyd lembra o que aconteceu em 2014 com Eric Garner, morto após ser preso em Nova York. Com o pescoço envolvido pelos braços de um policial branco, Garner, que era negro, repetiu "eu não consigo respirar" 11 vezes antes de morrer.

Suas últimas palavras tornaram-se um grito de guerra para o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), chamando a atenção para uma onda de assassinatos de afro-americanos pela polícia usando força letal injustificada.

Discriminação em Minneapolis

A profunda divisão racial de Minneapolis é um aspecto tão constante para seus residentes negros quanto o bom desempenho econômico e os parques pelos quais a cidade é conhecida.

Os afro-americanos ganham, em média, um terço do que os residentes brancos. Eles se formam no ensino médio a taxas muito mais baixas, são mais propensos a estarem desempregados e tendem a integrar famílias com rendas significativamente menores do que as dos moradores brancos.​

Essas disparidades, resultado de gerações de políticas públicas discriminatórias, são um dos elementos que alimentam a revolta após a morte de Floyd.

“Muitas pessoas brancas dizem que não são racistas porque têm amigos negros”, disse Cynthia Montana, “mas eles voltam para seus bairros brancos com seus amigos brancos. É por isso que eles não entendem e ficam surpresos quando isso acontece."

Montana, 57, andava de bicicleta nesta quinta (28) perto de uma loja de departamentos vandalizada e saqueada durante os tumultos da noite anterior.

Sobre os desafios de crescer como negra em Minneapolis, ela afirmou que a discriminação começa na escola.

Segundo Montana, quando crianças brancas causam problemas, a justificativa é que elas podem estar em um dia ruim, enquanto estudantes negros são automaticamente vistos como indisciplinados.

"É como se houvesse camadas e camadas e camadas de pólvora se acumulando há muito tempo", disse. "E quando você se torna adulto, isso tudo se transforma em dinamite."

Com The New York Times

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