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Matheus Moreira

Ser repórter negro é contrariar estatística pela defesa da equidade racial

Jornalista negro da CNN nos EUA foi preso enquanto cobria atos contra violência policial

São Paulo

Um repórter negro foi preso ao vivo enquanto cobria um protesto contra a morte de um homem negro.

Poderia ser eu, mas foi Omar Jimenez, correspondente da CNN americana em Minneapolis.

Jimenez acompanhava as manifestações contra mais um episódio de violência policial contra negros nos EUA. Violência que tirou a vida de George Floyd, cujo pescoço foi prensado contra o chão pelo joelho de um policial branco, alvo de 18 inquéritos disciplinares.

Seguindo a cartilha da cobertura de situações de tensão e conflito, Jimenez pediu aos agentes para que indicassem o melhor local onde a equipe de reportagem pudesse seguir acompanhando o ato —sem atrapalhar a ação policial nem ser arrastada para o meio da violência.

Manifestantes em frente ao prédio da delegacia incendiada em St. Paul, Minnesota, nos EUA
Manifestantes em frente ao prédio da delegacia incendiada em St. Paul, Minnesota, nos EUA - Scott Olson - 28.mai.20/Getty Images/AFP

Jimenez teve como resposta o anúncio de sua prisão. Uma detenção sem motivos e que mostra, outra vez, como o mundo caminha na direção contrária aos da liberdade de imprensa e da equidade racial.

Não fosse um repórter negro, não teria sido preso.

Na mesma região, cobrindo o mesmo protesto, estava o repórter Josh Campbell, também da CNN. Ele também foi abordado pela polícia, mas teve permissão para continuar a trabalhar. Campbell é branco.

O Brasil e os EUA têm diversas diferenças ao tratar de racismo. Lá, há o que chamam de bairros negros. Aqui, essa demarcação tão forte inexiste, embora parte considerável da população negra viva nas periferias.

Um levantamento da Secretaria Municipal de Promoção e Igualdade Racial de São Paulo em 2015 mostrou que a população negra está concentrada em bairros periféricos. Em Parelheiros, na zona sul, por exemplo, os negros são 57,1%, segundo o levantamento. Em Pinheiros, na zona oeste, 7,3%.

Por outro lado, as semelhanças são destrutivas. Uma política implícita de assassinato de pessoas negras por serem negras, além da associação automática de negros ao crime e ao que há de mais cruel.

Omar Jimenez, repórter da CNN, algemado durante cobertura de protestos em Minneapolis, nos EUA
Omar Jimenez, repórter da CNN, algemado durante cobertura de protestos em Minneapolis, nos EUA - Reprodução/CNN

A necropolítica, termo criado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, é certeira: a soberania se expressa predominantemente como o direito de matar.

Muitos vão particularizar a morte. Dizer que o erro foi cometido pelo policial americano que matou Floyd ou, ainda, pelo suspeito de ter atirado no garoto João Pedro, de 14 anos, pelas costas, no Rio de Janeiro.

Ora, uma ação policial que termina na morte de um inocente não é apenas um erro. É resultado da falta de políticas de segurança, de despreparo policial e do reflexo de jornadas exaustivas que colocam agentes sob estresse.

Assim, a necropolítica se manifesta na ausência de políticas concretas contra erros que se repetem há décadas.

Quando policiais envolvidos em assassinatos de negros não são julgados —ou quando a punição dada é a transferência de suas funções da rua para trabalhos administrativos—, a morte assombra a família daqueles que se foram. O policial do caso americano responde a 18 inquéritos disciplinares.

É difícil detalhar o que sinto ao ver a morte de Floyd e de João Pedro e a prisão de Jimenez. Apesar de eu não conseguir respirar, tentarei descrever.

Os ouvidos doem como num avião no momento do pouso. O coração acelera, o rosto queima com a circulação do sangue. O cérebro lateja. As veias das têmporas latejam.

A respiração acelera, e fico ofegante. As mãos formigam. O estômago se contrai como se estivesse à beira do abismo —e, sendo negros, estamos. Medo e raiva tomam conta de mim.

Não há como esquecer. Não há como desver. Morreu mais um, e eu sigo aqui. Pergunto-me por que nunca me deram um tiro. Onde foi que acertei e que eles erraram? Foi sorte? Destino? Deus? Não tenho resposta.

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